"A ideia de que a IA de alguma forma vai controlar a humanidade é uma bobagem distópica", diz prêmio Nobel da Economia - QTU Questões do Universo

"A ideia de que a IA de alguma forma vai controlar a humanidade é uma bobagem distópica", diz prêmio Nobel da Economia

Fonte: Bandeira da fonte

O prêmio Nobel da Economia Joel Mokyr, durante palestra no Febraban Tech
Patricia Basílio
No primeiro dia do evento Febraban Tech, que acontece até a próxima quarta (26) no Distrito Anhembi, em São Paulo, o grande destaque foi a apresentação de Joel Mokyr, professor da Northwestern University e um dos ganhadores do Prêmio Nobel da Economia em 2025 por seus trabalhos sobre inovação e crescimento econômico.
Em uma palestra energética, o economista de 80 anos aproveitou o tema O Passado e o Presente da Inovação para discorrer sobre os benefícios e riscos da inteligência artificial, a evolução da tecnologia ao longo das últimas décadas e as razões do seu otimismo contagiante em relação ao futuro da ciência – e da própria humanidade.
Em conversa com a reportagem de Época NEGÓCIOS, o economista falou ainda sobre as adaptações que o mercado de trabalho terá que fazer por conta da inteligência artificial, e sobre o fato da tecnologia ser controlada por um pequeno grupo de bilionários.
“A questão sobre quem controla a IA hoje é particularmente interessante”, disse o professor.
“Mas é preciso ter em mente que a maneira como a inovação funciona em qualquer tipo de sistema capitalista é baseada na competição.”
Segundo Mokyr, a concorrência acaba colocando o poder na mão dos consumidores.
“No final das contas, essas empresas terão de oferecer o que os consumidores demandam.
E, se elas nos derem algo que não queremos, como respostas incorretas ou bobagens que não pedimos, vamos simplesmente mudar de empresa.
Ou buscar novas IAs na China ou na França, por exemplo.”
O economista durante conversa com jornalistas
Marisa Adán Gil
Para o estudioso, a única razão de preocupação seria a monopolização do setor por uma única empresa.
“Por isso considero importante, do ponto de vista das políticas públicas, garantir que ninguém controle sozinho o setor.
Mas, se acontecer de uma empresa ficar tão poderosa a ponto de monopolizá-lo, então temos maneiras de lidar com isso por meio das políticas antitruste”, respondeu, já otimista de novo.
A questão do mercado de trabalho, por outro lado, é uma preocupação real do especialista.
“A IA está avançando muito rapidamente, e talvez não haja tempo para o mercado de trabalho se adaptar.
Teremos que passar por uma fase de transição.
De fato, toda vez que acontece algum tipo de invenção extraordinária, isso acaba deixando algumas pessoas sem trabalho." Ele lembrou que muita gente terá que aprender novas profissões, o que é especialmente difícil para quem está na faixa dos 40 ou 50 anos e faz a mesma coisa há décadas.
"Há soluções possíveis, como o Welfare State, em que o Estado assume a responsabilidade direta de garantir direitos básicos e uma vida digna para toda a população.
Mas claramente há um grande custo psicológico e emocional nesse processo.
E esse é o preço que pagamos pelo progresso tecnológico."
Confira a seguir os principais temas abordados por Mokyr durante sua apresentação no Auditório Febraban.
Crescimento sustentável
“A economia mundial vem crescendo nos últimos 20 anos a uma taxa que nunca havia experimentado antes.
Isso é sustentável? Existem estudiosos dizendo que não, por conta da Lei dos Rendimentos Decrescentes: quando você faz a mesma coisa durante algum tempo, a tendência é obter retornos decrescentes.
Se dois países são parceiros comerciais por muito tempo, por exemplo, após um determinado período não haverá mais ganhos, porque haverá uma saturação do mercado.
Nos últimos 20 anos, o crescimento tecnológico acelerou o crescimento econômico.
Mas será que isso também pode desaparecer depois de algum tempo? É controverso.
Existe uma visão pessimista segundo a qual nada de novo pode ser inventado, porque está cada vez mais difícil ter ideias capazes de provocar mudanças radicais.
Os melhores dias ficaram para trás, dizem.
Segundo um artigo publicado na Nature por Michael Parker, o número de artigos que produzem grandes avanços na ciência horizontes vem diminuindo.
O debate continua em aberto.
Mas eu discordo dessa visão derrotista.
Para mim, o melhor ainda está por vir.”
Mokyr ganhou o Prêmio Nobel da Economia em 2025 com seus trabalhos sobre o crescimento econômico impulsionado pela inovação
Divulgação
Motivos para o otimismo
“Muita coisa pode dar errado, nada é garantido.
O que precisamos fazer é perguntar quais eram os padrões de criatividade tecnológica no passado e se esses padrões continuam valendo hoje.
A ciência sempre impulsionou a tecnologia.
E a tecnologia sempre retroalimentou a ciência e também a impulsionou, segundo Nathan Rosenberg.
Portanto, a dinâmica da inovação poderia ser descrita como um ciclo de retroalimentação positiva entre o conhecimento proposicional e o conhecimento prescritivo.
Se os parâmetros forem adequados, isso vai continuar para sempre.
Vemos ondas de avanços científicos impulsionadas pelo fato de que as pessoas têm instrumentos melhores.
Hoje, as ferramentas que temos são infinitamente melhores do que o que tínhamos no passado.
Temos telescópios voando no espaço e enviando informações que ninguém teria sequer imaginado sobre as origens do universo.
Os computadores são milhares de vezes mais poderosos do que eram há 50 anos.
E temos uma ferramenta capaz de revolucionar tudo.
Além de tudo que a IA é capaz de fazer, ela é hoje uma fantástica assistente de pesquisa.
A IA nunca se cansa, está sempre disponível, nos corrige com educação...
Talvez a tecnologia seja justamente aquilo que fará a ciência avançar mais rapidamente.
Veja o que ela já está fazendo: pesquisa de proteínas mais rápida, evolução nas ciências dos materiais, análise de grandes volumes de dados na economia.
A maneira como a IA apoia a ciência é inacreditável.
Quem sabe o que resultará disso?
Há pelo menos três áreas nas quais a aplicação da IA poderá produzir grandes avanços.
A fusão nuclear, que é a tecnologia do futuro, mas que atualmente depende de avanços na ciência dos materiais.
O rejuvenescimento celular: o mecanismo que faz o corpo envelhecer é algo que podemos descobrir, e seremos capazes de desacelerá-lo.
E a terceira são as vacinas de mRNA mensageiro, que já são capazes de impedir a recorrência do melanoma, e em breve poderão combater todas as formas de câncer, além de outras doenças.
Será uma revolução tão grande quanto a dos antibióticos no final da década de 1940.
Então, do ponto de vista tecnológico, o futuro parece mesmo muito promissor.”
O que pode dar errado?
“Poderemos ter problemas do ponto de vista institucional.
Quando ocorre um choque tecnológico, a adaptação institucional costuma levar muito tempo.
O sistema precisa se adaptar, o mercado de trabalho precisa se adaptar, e isso leva tempo.
Haverá algum custo de adaptação, e algumas pessoas ficarão muito infelizes.
Isso é inevitável.
Mas é preciso pesar o custo em relação aos benefícios em cada mudança econômica.
E minha percepção é que a IA tem um potencial enorme.
Outra dificuldade atual é a maneira como o nacionalismo econômico está crescendo no mundo, com tarifas, apoio a indústrias estratégicas e intervenções exageradas do governo na economia.
Por fim, há uma forte onda de populismo.
Esse tipo de regime tende a desvalorizar cientistas e acadêmicos.
Já vimos isso acontecer no passado: eles atacam as universidades, os intelectuais.
E o populismo fica pior ainda quando é acompanhado de xenofobia.
Grande parte do sucesso do Vale do Silício vem de pessoas que se mudaram de um país para outro.
Muitos dos ganhadores do Prêmio Nobel vieram de outros países, mas trabalharam nos Estados Unidos.
Hoje, porém, a imigração se tornou um enorme problema na América e, cada vez mais, também na Europa.”
Que país vai liderar a IA?
“Para falar a verdade, eu não me importo particularmente com isso, desde que alguém esteja fazendo o trabalho.
Veja, precisamos de tecnologias que combatam as mudanças climáticas.
Se elas vierem da China, tudo bem para mim, porque eventualmente se espalharão pelo mundo, e todos se beneficiarão.
Além do mais, não é evidente que o líder tenha vantagem.
Ele precisa pagar com tempo, dinheiro e energia por todos os erros que comete para chegar lá.
E, como a tecnologia será difundida de um país para outro, talvez isso não faça diferença.”
Sem medo do apocalipse
“Já tivemos invenções disruptivas antes.
E, você sabe, a história continua e eventualmente nós as absorvemos.
E algumas dessas invenções disruptivas foram, basicamente, vantajosas para todos, como o desenvolvimento da impressão em meados do século 15.
Foi algo muito disruptivo porque, de repente, as pessoas podiam comprar livros, e as crianças foram mais estimuladas a ler, e o mundo mudou de maneiras complexas.
Mas estamos em melhor situação com livros que podem ser impressos? Com certeza.

Não sei se a IA será exatamente como a imprensa, mas, em alguns aspectos, é semelhante a ela, no sentido de que é uma maneira de difundir informação.
E isso, penso eu, é realmente importante, porque o conhecimento é a fonte do progresso econômico.
Hoje você vai à IA e pode perguntar qualquer coisa sobre determinado experimento científico, algum acontecimento histórico ou algum filme.
Para mim, a ideia de que a IA de alguma forma vai controlar a humanidade e que todos nós seremos escravos da tecnologia é essencialmente uma bobagem distópica.
Isso não vai acontecer.
Nós controlamos a IA.
Todas essas histórias sobre como a IA invadiu e hackeou sistemas, isso só aconteceu porque as pessoas que a configuraram cometeram um erro.
Nós a controlamos.
E, se você não controlar adequadamente a IA, ela vai derrapar.
Mas isso também é verdade quando você está dirigindo seu carro, certo?”