A régua que mede a dança - QTU Questões do Universo

A régua que mede a dança

Fonte: Bandeira da fonte

Antes de entrar no palco, os bailarinos que dançaram no início de agosto no 13º Concurso Internacional de Balé da África do Sul ensaiaram durante meses para apresentar movimentos que carregassem a capacidade de contar histórias e sensibilidade.
Os critérios fazem parte da lógica da competição, mas abrem uma questão que ultrapassa o balé e atravessa diferentes práticas de dança no continente: quando determinados parâmetros definem o que é excelência ou criatividade, eles também podem limitar os caminhos para que outras formas de dança ocupem espaços.
O balé não chegou ao continente africano como uma manifestação cultural local.
Sua presença está ligada à expansão de modelos europeus de ensino, que, ao longo do tempo, foram incorporados e resinificados.
Quando essas referências passam a orientar o olhar sobre a dança, outras práticas originárias do continente podem acabar sendo percebidas a partir de critérios que não correspondem às suas próprias formas de criação.
Dançarinas se preparam para o Concurso Internacional de balé na África do Sul
MARCO LONGARI
Thobile Maphanga, gerente de projetos e curador do JOMBA!, festival sul-africano dedicado às danças africanas contemporâneas, observa que existe uma mudança na própria produção artística do país.
Segundo ele, a curadoria do evento tem acompanhado um movimento de artistas que partem cada vez mais de suas próprias experiências e referências para criar:
“Há um olhar mais atento e a criação de obras que se conectam mais com nossos próprios contextos aqui, em vez de trabalhos que buscam validação ou autenticação no Norte Global.
Poderíamos dizer que também houve uma espécie de amadurecimento, no qual os artistas sul-africanos não sentem mais a necessidade de agradar ao olhar colonial, o que tornou o trabalho feito aqui ainda mais poderoso.”
A ideia do que é inovador e belo na dança também pode influenciar decisões de financiamento, com efeitos sobre as trajetórias profissionais de artistas e a sustentabilidade de grupos.
Ao mesmo tempo, diferentes práticas de dança do continente carregam tradições próprias, que nem sempre se traduzem na imagem mais difundida de um espetáculo.
Delirar o Racial
Davi Pontes
Para Ana Beatriz C.
Rezende, mestra pelo Programa de Pós-Graduação em Estudos Culturais da USP, o problema está na forma como diferentes práticas são classificadas.
Enquanto algumas são tratadas como universais, outras acabam sendo associadas a uma determinada origem cultural:
“Tenho pensado a dança não apenas como uma linguagem estética, mas como uma prática cultural e política que produz significados.
O gesto, o ritmo, a espacialidade e a própria organização do corpo carregam sentidos relacionados à memória, à identidade, ao pertencimento e às relações de poder.
Por isso, quando uma determinada dança é valorizada ou desvalorizada, não estamos falando apenas de uma preferência estética, estamos também falando de quais sentidos, histórias e formas de conhecimento conseguem ocupar espaços.”
Hounfour do Tambor
Sabriya Simon
Esses significados aparecem na relação do artista guineano Aboubacar Sidibe com a dança.
Aos 15 anos, ele teve seu primeiro contato marcante com as manifestações de seu país em um ponto cultural, experiência que o aproximou da prática que hoje também ensina no Brasil.
Desde 2012, vive no país e trabalha na difusão da cultura guineana e no intercâmbio artístico entre os dois países.
Para Aboubacar, os movimentos não são apenas uma sequência a ser reproduzida.
Cada gesto tem uma razão de existir, seja no movimento dos braços, das mãos ou dos pés.
É possível, segundo ele, que alguém reproduza esses passos porque “seu corpo sabe dançar”, sem necessariamente compreender o significado por trás deles.
O conhecimento, portanto, não está apenas no movimento, mas também naquilo que ele comunica.
Essa é sua essência criativa.
Embora reconheça as danças africanas como uma tradição, ele aponta a dificuldade de que ela seja compreendida também como trabalho: “É importante não tratar a dança africana como um elemento que a gente não consegue calcular, não.
A dança é trabalho também.
Se você é professor de dança, você é funcionário.
Ou você abre sua empresa e leva essa sua dança, seu conhecimento, na escola, na casa cultural, por exemplo.”
Aboubacar apresentando sua dança
Aboubacar Sidibe
No entanto, o balé não é uma prática totalmente uniforme.
Ao longo das edições do concurso, o fundador Dirk Badenhorst afirma ter observado diferentes influências entre os bailarinos, incluindo metodologias cubanas e francesas.
Para Yarisha Singh, professora de balé que acompanhou oito alunos durante a competição, essa diversidade também aparece entre os próprios artistas.
Com raízes indianas, ela conta que, no início de sua trajetória, não encontrava bailarinos com a mesma origem nos espaços em que circulava.
Hoje, vê essa presença como uma referência para novas gerações.
A questão não está em estabelecer uma disputa entre o balé e outras formas de dança, mas em perceber que eles podem partir de referências e formas de construção diferentes.
Para Ana Beatriz C.
Rezende, ampliar esse olhar significa abandonar a ideia de que existe uma única medida para avaliar a complexidade de uma prática artística:
“Quem define o que é uma técnica? Quem define o que é excelência? Quem pode ensinar? Quando fazemos isso, percebemos que a questão não é descobrir qual dança é mais sofisticada.
É compreender que existem diferentes formas de sofisticação, diferentes formas de técnica, de beleza e de conhecimento produzidas pelo corpo.
E acho que essa é uma das coisas mais bonitas da dança sul-africana.
Ela nos convoca a ampliar aquilo que entendemos por dança.”