A vida com um narcisista - QTU Questões do Universo

A vida com um narcisista

Fonte: Bandeira da fonte

Os dois melhores livros que li, no último mês, foram escritos por italianos: “O aniversário”, de Andrea Bajani, e “Via Gemito”, de Domenico Starnone.
Com o nervo exposto, eles escreveram sobre a toxicidade de se conviver com um pai narcisista.
Todos nós temos traços narcísicos, só que de forma branda, que possibilita reconhecermos erros, pedirmos desculpas e sentir empatia.
Não é o caso dos personagens de Andrea e Domenico, que demonstram a perversidade de quem sofre do Transtorno de Personalidade Narcisista, a ponto de provocar o afastamento de seus afetos mais íntimos — a própria família.
É um tema que causa consternação.
Por mais que se saiba que a única saída é deixar o narcisista falando sozinho, fico tocada pelo fato de que ele jamais se reconhecerá doente.
Estará sempre em busca de validação, sentindo-se perseguido e injustiçado.
Não irá se tratar.
Fugirá de terapia.
Não escutará aqueles que o amam.
Em vez disso, passará os dias inventando histórias, pois a verdade lhe é intolerável, ele precisa recriar os fatos para fugir de seus remorsos.
Já estive bem perto de alguns.
Foram relações impossíveis, em que acreditei que conseguiria “salvar” a pessoa do próprio desatino, até que, cansada de sofrer sem obter nenhum resultado, tratei de salvar a mim mesma e me fui.
O livro de Andrea narra a história de um homem adulto que resolve nunca mais visitar a casa paterna — o “aniversário” é de 10 anos sem falar com pai e mãe (há sempre uma mãe submissa casada com o pai narcisista, e ela acaba pagando por essa união desastrosa).
A mãe submissa também aparece no livro de Starnone, mas o autor se dedica principalmente a investigar a complexidade do distúrbio.
O pai narcísico que ele cria é devastador com quem habita seu círculo.
Não consegue parar de se gabar, tem mania de grandeza e mantém um estado de tensão permanente a sua volta, pois explode a cada vez que se sente ameaçado — sua cabeça é assombrada por inimigos imaginários e juízes fantasmas.
Quando entra em um ambiente, adeus, harmonia: tudo pode terminar em gritos e acusações.
Não tolera ser corrigido.
É alguém consumido pela ideia de perfeição, um devoto de si mesmo.
Inatingível.
Bruto.
Sempre a ponto de perder o controle.
Dois livros espetaculares, sendo que “Via Gemito”, por ser autobiográfico, vai mais fundo no passado do personagem, que sofreu várias frustrações até se transformar em um adulto alterado.
Ninguém nasce narcisista, por isso me parece importante que se identifique os fatores que fazem com que um homem ou mulher passe o resto da sua vida defendendo-se de ataques que não existem.
É lamentável que não haja cura, mas sempre se pode atenuar a dor quando se sabe de onde vêm as nossas perturbações.