A farmacêutica britânica AstraZeneca está em negociações para se unir à concorrente americana Bristol Myers Squibb (BMS), em uma potencial megafusão que se tornaria a maior transação já realizada pela indústria farmacêutica, superando a compra da Celgene pela Bristol Myers Squibb por US$ 74 bilhões, realizada em 2019.
Segundo o Financial Times, a operação criaria a quarta maior farmacêutica do planeta, com valor de mercado próximo de US$ 400 bilhões e receita anual de cerca de US$ 107 bilhões.
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Depois que o FT revelou as conversas na noite de domingo, as ações da AstraZeneca despencaram nas negociações em Londres, chegando a cair até 7,8%, enquanto os papéis da Bristol-Myers avançaram até 3,8% no pré-mercado nos Estados Unidos.
Até o fechamento do mercado na sexta-feira, as ações da companhia acumulavam alta de aproximadamente 21% no ano, enquanto os papéis da AstraZeneca registram queda de 8% no mesmo período.
De acordo com fontes familiarizadas com o assunto, as empresas vêm mantendo conversas sobre uma possível fusão nos últimos meses.
As negociações, dizem, podem resultar em um acordo num futuro próximo, mas também podem ser adiadas ou até mesmo fracassar.
A estrutura exata de uma eventual operação ainda não foi definida, mas provavelmente envolveria uma combinação de pagamento em dinheiro e ações, acrescenta o FT.
Negócio faz sentido?
Analistas, por sua vez, questionaram se uma operação desse porte faria sentido para a AstraZeneca, que vem registrando forte crescimento.
— Diante da força do crescimento e do perfil de inovação da AstraZeneca, ficamos um pouco perplexos com essa notícia — afirmou Michael Leuchten, analista do Jefferies.
De acordo com o FT, a AstraZeneca, segunda empresa mais valiosa listada na Bolsa do Reino Unido, tem valor de mercado de cerca de £196 bilhões (US$ 264 bilhões), enquanto a Bristol Myers Squibb é avaliada em aproximadamente US$ 133,4 bilhões, podendo proporcionar à farmacêutica britânica uma presença mais forte no mercado americano.
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Ao mesmo tempo, acrescenta o jornal britânico, aumentariam as preocupações no Reino Unido de que algumas das maiores empresas do país estejam deslocando seu centro de gravidade para fora do mercado britânico.
Um porta-voz da AstraZeneca se recusou a comentar o assunto, enquanto a Bristol Myers Squibb não respondeu aos pedidos de comentário.
Perda da proteção de patentes
A Bristol Myers Squibb está se preparando para a perda da proteção de patentes de alguns de seus principais medicamentos, incluindo o anticoagulante Eliquis e o tratamento contra o câncer Opdivo.
Juntos, esses produtos respondem por cerca de metade das vendas da empresa.
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Na semana passada, a Bristol divulgou receita trimestral de US$ 13 bilhões, a maior de sua história.
O crescimento foi impulsionado principalmente por medicamentos mais recentes, como o tratamento para câncer no sangue Breyanzi, o Opdualag, indicado para câncer de pele, e o medicamento cardíaco Camzyos.
Sob a liderança do CEO Pascal Soriot, a AstraZeneca se transformou em uma potência no desenvolvimento de medicamentos contra o câncer, com uma série de remédios de grande sucesso comercial.
A BMS também possui uma importante divisão voltada ao tratamento do câncer.
Pascal Soriot fala durante entrevista no pregão da NYSE, em Nova York
Bloomberg
Pouco depois de assumir o comando da empresa, em 2012, Soriot conseguiu barrar uma tentativa de aquisição pela Pfizer, operação que levou o governo britânico a intervir diante do receio de perder uma das principais empresas do Reino Unido.
Desde então, a AstraZeneca cresceu sob sua liderança e se tornou uma potência do setor, com um portfólio de destaque em medicamentos oncológicos.
Interesse em remédio para perda de peso
Atualmente, a AstraZeneca é a segunda maior companhia listada na Bolsa de Valores de Londres.
Nos últimos anos, a farmacêutica tem intensificado sua estratégia de expansão nos Estados Unidos.
No ano passado, transferiu sua principal listagem americana para a Bolsa de Nova York (NYSE), substituindo seus American Depositary Receipts (ADRs) negociados na Nasdaq, embora tenha mantido sua sede e sua listagem principal em Londres.
A empresa está no caminho para alcançar sua ambiciosa meta de US$ 80 bilhões em vendas até 2030 e busca entrar no lucrativo mercado de medicamentos para perda de peso, com diversos tratamentos atualmente em desenvolvimento.
Soriot já havia afirmado à Bloomberg que, quando recebe propostas envolvendo doenças fora das áreas centrais de atuação da empresa, sua resposta é sempre negativa.
“Eu sempre digo não, porque o risco de fazer uma aposta errada aumenta rapidamente quando você sai da sua área de especialização”, afirmou.
Um analista do Mizuho argumentou que os investidores provavelmente reagirão de forma negativa à ideia de uma fusão, já que a AstraZeneca deve registrar crescimento anual do lucro por ação (EPS) de 10% ou mais nos próximos cinco anos, enquanto o lucro por ação da Bristol Myers Squibb tende a encolher até o fim da década.
“Os investidores vão argumentar que a AstraZeneca não precisa da Bristol Myers — o contrário, sim.
E, a menos que haja sinergias muito significativas capazes de compensar a queda nas receitas e nos lucros, essa fusão é difícil de justificar”, escreveu Jared Holz, especialista em saúde do Mizuho, em relatório divulgado no domingo.
Ainda assim, Holz afirmou que sua primeira reação foi: “Se houve algum momento para um acordo como esse, provavelmente é agora”, citando a postura relativamente flexível do governo de Donald Trump em relação às atividades de fusões e aquisições.
Enquanto isso, as preocupações com questões antitruste foram o principal destaque de um relatório do analista Evan Seigerman, da BMO Capital Markets.
Medicamentos para câncer
“Com Bristol e AstraZeneca já avaliadas em mais de US$ 100 bilhões cada, consideramos improvável uma aquisição direta de qualquer uma das duas empresas”, afirmou.
Ele acrescentou que a forte sobreposição entre os portfólios, especialmente em áreas como o tratamento do câncer de pulmão, também “reduz a probabilidade de uma fusão se concretizar, em nossa avaliação”.
Os medicamentos Opdvo, da Bristol, e o Imfinzi, da AstraZeneca, competem diretamente entre si no tratamento de câncer de pulmão.
Neste cenário, analistas avaliam que qualquer combinação de negócios resultaria em forte escrutínio dos órgãos reguladores.
