Acordos nos estados e entrave no estatuto: por que PP barrou Tereza Cristina como vice de Flávio - QTU Questões do Universo

Acordos nos estados e entrave no estatuto: por que PP barrou Tereza Cristina como vice de Flávio

Fonte: Bandeira da fonte

A decisão do PP de barrar a entrada da senadora Tereza Cristina (MS) na chapa de Flávio Bolsonaro (PL) passou pela resistência de dirigentes em colocar em risco acordos eleitorais já construídos nos estados, sobretudo no Nordeste, e por um entrave previsto no estatuto da legenda para uma mudança de posição na reta final das convenções.
Essa costura precisaria envolver negociações também com o União Brasil, sigla com a qual o partido compõe uma federação.
Além disso, a avaliação desses caciques partidários é que de que não valeria a pena criar um mal-estar interno por uma candidatura cuja vitória está longe de ser considerada garantida.
Segundo a última pesquisa DataFolha, Flávio tem 43% das intenções de voto no segundo turno contra 48% do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
A discussão foi reaberta depois de Tereza, que até então resistia a disputar a vice, comunicar a integrantes do PP nesta semana que estava disposta a aceitar o posto.
A senadora havia negado essa possibilidade em uma conversa com o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, na semana passada, mas mudou de posição e passou a tentar obter o aval da própria legenda.
O movimento ocorreu quando a neutralidade já era a posição predominante no PP.
Na semana passada, o presidente da sigla, Ciro Nogueira (PI), havia comunicado a Flávio que o partido não pretendia apoiá-lo na disputa presidencial.
Diante da mudança de posição de Tereza, porém, Ciro deu à própria senadora a missão de tentar convencer dirigentes a rever a decisão.
A articulação esbarrou na resistência de nomes influentes do partido.
O líder do PP na Câmara, Doutor Luizinho (RJ), e os deputados Aguinaldo Ribeiro (PB) e Eduardo da Fonte (PE), entre outros integrantes da cúpula, defenderam a manutenção da neutralidade.
A legenda decidiu então ampliar a consulta aos diretórios estaduais, mas a maioria também se posicionou contra uma aliança nacional com o PL.
Nesta sexta-feira, o PP anunciou oficialmente que permanecerá neutro e que não convocará uma convenção nacional para discutir a entrada na chapa de Flávio.
A direção informou ainda que a decisão foi comunicada e “acatada” por Tereza.
“O Progressistas, após consulta aos seus diretórios estaduais, decidiu, por maioria, permanecer neutro no processo eleitoral.
Diante disso, reiteramos posição de não convocar Convenção Nacional.
A decisão já foi comunicada e acatada pela nossa líder no Senado Federal, senadora Tereza Cristina”, afirmou o partido em nota.
Acordos regionais pesaram
Um dos principais argumentos usados contra a mudança de posição foi a necessidade de preservar os arranjos eleitorais construídos pelo PP nos estados.
A preocupação é especialmente forte no Nordeste, onde a legenda mantém alianças locais próximas ao governo federal em pelo menos seis estados, entre eles Piauí, Paraíba, Maranhão, Ceará, Alagoas e Pernambuco.
A neutralidade nacional permite que esses diretórios montem seus palanques de acordo com as disputas locais e apoiem o projeto presidencial considerado mais conveniente para suas chapas.

Uma adesão formal a Flávio poderia obrigar o partido a administrar conflitos justamente em estados considerados estratégicos para a eleição de deputados, senadores e governadores.
Também entrou na conta a avaliação reservada de dirigentes de que não valeria a pena enfrentar uma disputa interna e colocar esses acordos em risco diante das incertezas sobre o desempenho eleitoral de Flávio.
Um integrante da cúpula resume a resistência afirmando que o PP não poderia “morrer na praia com Flávio”.
A decisão representa um revés para Flávio uma vez que a senadora era tratada pela cúpula do PL como o “nome ideal” para a vice por seu trânsito com o Centrão, sua ligação com o agronegócio e a possibilidade de ajudar Flávio a ampliar uma coalizão que, até agora, não conseguiu atrair outros grandes partidos.
Estatuto virou outro obstáculo
Além da resistência política, dirigentes do PP apontaram um obstáculo previsto no próprio estatuto para uma reviravolta de última hora.
Pelas regras internas da legenda, a convocação de uma convenção nacional exige a publicação de edital com antecedência mínima de oito dias.
Como o prazo da Justiça Eleitoral para a realização das convenções termina em 5 de agosto, dirigentes sustentam que já não haveria tempo para convocar uma reunião pelas regras ordinárias do partido para aprovar a entrada na chapa do PL.
Segundo integrantes da legenda, uma saída dependeria de um consenso na direção partidária para superar o impasse — justamente o cenário que as consultas internas mostraram não existir.
A maioria da cúpula e dos diretórios ouvidos se posicionou pela manutenção da neutralidade.
PP vê “chantagem” em pressão de Flávio
A forma como a negociação foi conduzida também provocou incômodo.
Nos bastidores, integrantes da cúpula do PP classificaram a movimentação de Flávio para ter Tereza como vice como uma espécie de “chantagem” para tentar forçar o partido a rever a neutralidade.
A avaliação é que o senador buscou criar publicamente um fato consumado em torno do nome da parlamentar, aumentando o custo político para que a direção mantivesse a decisão de não apoiá-lo.
Há ainda críticas mais amplas à condução das negociações pelo presidenciável.
Integrantes da cúpula avaliam reservadamente que Flávio vem tratando a tentativa de atrair aliados “da pior maneira possível”, ao avançar sobre nomes de outras legendas antes de conseguir fechar um acordo com suas respectivas direções.
Dirigentes do PP comparam a estratégia à adotada por Flávio em relação ao Republicanos, quando passou a defender a ex-presidente da Caixa Daniella Marques para a vice mesmo sem ter o aval da cúpula da legenda.
Na leitura desses integrantes, nos dois casos o presidenciável tentou avançar sobre um nome de outro partido para aumentar a pressão sobre a direção e levá-la a embarcar em sua candidatura.
No caso do Republicanos, porém, a pressão era ainda maior.
Daniella havia se filiado à legenda sem o conhecimento do presidente do partido, Marcos Pereira.
Como o prazo para troca de partido terminou em 4 de abril, ela já não poderia migrar para outra sigla para compor a chapa, o que colocava Pereira contra a parede diante da investida do PL.
Sem a federação e o Republicanos, Flávio caminha para uma coligação sem alianças.
Neste contexto, a possibilidade de ter uma chapa pura já é admitida no PL.