Acredite: Bill Gates está muito pessimista com avanço da IA e quer taxar robôs e blindar empregos - QTU Questões do Universo

Acredite: Bill Gates está muito pessimista com avanço da IA e quer taxar robôs e blindar empregos

Fonte: Bandeira da fonte

Bill Gates abandonou o otimismo das suas primeiras análises sobre inteligência artificial.
Em um ensaio publicado nesta quarta (26), o cofundador da Microsoft afirma que o mundo não está preparado para a transição que a tecnologia deve provocar na próxima década e propõe medidas concretas para conter os efeitos sobre o mercado de trabalho, entre elas a taxação de robôs e sistemas de IA e a criação de uma categoria de empregos reservados exclusivamente a humanos.
O texto, intitulado "A turbulent AI era is here.
The choices we make now are critical" ("A turbulenta era da IA chegou.
As escolhas que fazemos agora são cruciais", em tradução livre), marca a volta de Gates ao debate público sobre o tema depois de meses afastado do assunto.
Gates afirma que a transição para essa nova fase será um dos períodos mais turbulentos já vividos pela humanidade.
A mudança de tom contrasta com o texto que Gates publicou em 2023, "The Age of AI Has Begun", no qual descrevia a tecnologia como uma revolução comparável ao surgimento do computador pessoal e da internet, com viés majoritariamente positivo.
Agora, Gates argumenta que a própria indústria de IA está ultrapassando, uma a uma, as linhas de segurança que ela mesma havia estabelecido no passado, como os limites em torno do desenvolvimento de armas biológicas, de ciberataques e da criação de vínculos emocionais entre usuários e chatbots.
"Estamos no processo de cruzar cada um desses limiares", disse Gates ao GeekWire.
Empregos "reservados" para humanos
A principal proposta do ensaio é o conceito que Gates batizou de "Human Reserved" (algo como "reservado para humanos"): categorias de trabalho que a inteligência artificial seria tecnicamente capaz de realizar, mas que a sociedade decidiria manter sob responsabilidade de pessoas.
Em entrevista à Axios, o bilionário comparou a ideia a uma reserva ambiental, área onde seria possível construir, mas que se opta por preservar porque a perda seria grande demais.
Como exemplos de funções que deveriam permanecer humanas, Gates citou o cuidado com crianças e a atuação em júris populares.
Já em áreas como educação e saúde, ele defende um modelo híbrido, em que profissionais usam IA para ampliar sua produtividade sem que o atendimento humano desapareça.
É o caso, segundo ele, da entrega de diagnósticos médicos graves, algo que a tecnologia seria hoje capaz de fazer, mas que, para ele, não deveria ficar a cargo de máquinas.
O modelo teria duas versões: uma permanente, para ocupações que a sociedade decide nunca automatizar, e outra temporária, voltada a trabalhadores em estágio avançado de carreira que dificilmente conseguiriam se requalificar para outra função.
Questionado pela Axios sobre até que ponto essa reserva poderia se estender, Gates disse acreditar em um teto de 40% dos empregos em um cenário extremo, e reconheceu que chegar a esse número foi mais difícil do que imaginava.
A proposta chega em meio a um cenário de substituição de trabalhadores por automação.
Segundo dados da consultoria americana Challenger, Gray & Christmas, os cortes de vagas atribuídos à IA nos EUA somam 184.538 desde 2023.
Somente em julho, a IA foi o motivo mais citado para demissões pelo quinto mês consecutivo, respondendo por 10.970 cortes, ou 33% do total do mês; em 2026, o acumulado chega a 112.713 vagas, cerca de 24% de todos os cortes anunciados no período.
O quadro é mais ambíguo do que sugere a leitura isolada desses números: o total de demissões em julho caiu para 33.429, o menor patamar em dois anos, e as contratações planejadas subiram 25% no acumulado do ano.
Um imposto sobre robôs e tokens de IA
A segunda proposta de Gates é a criação de um imposto sobre o uso de tokens de inteligência artificial e sobre robôs.
A lógica, segundo o bilionário, é que o sistema tributário atual penaliza a contratação de mão de obra humana, sujeita a encargos trabalhistas, enquanto o investimento em automação pode ser depreciado e não gera contribuição previdenciária.
"O sistema tributário empurra as empresas a substituir pessoas por máquinas", escreveu Gates no ensaio, em trecho reproduzido pela Axios.
A ideia não é nova e Gates já havia defendido uma taxação semelhante há cerca de nove anos, quando a proposta foi amplamente descartada por economistas como pouco eficiente.
Ele reconhece a crítica, mas argumenta que, em um momento de aceleração tecnológica, alguma perda de eficiência é um preço aceitável para preservar postos de trabalho.
O ensaio propõe ainda a criação de órgãos governamentais capazes de coordenar políticas de IA entre diferentes áreas, como trabalho, saúde, segurança e educação, já que nenhuma agência reguladora atual foi desenhada para lidar com uma tecnologia que atravessa todos esses setores ao mesmo tempo.
Em paralelo, Gates defende a criação de uma organização internacional inspirada em acordos como os de inspeção de armas nucleares, regulação da aviação civil e proteção da camada de ozônio, o que, segundo ele, exigiria cooperação entre Estados Unidos e China.