O filme recém-lançando "Elize: sombras de uma mulher" (2026), da Netflix, reacendeu o interesse do público pelo assassinato do empresário Marcos Matsunaga, ocorrido em 2012.
Agora, o advogado criminalista Luiz Flávio Borges D'Urso, que representou a família da vítima durante o julgamento, afirma que a produção altera aspectos importantes da dinâmica do crime e deixa de fora elementos que, segundo ele, foram fundamentais para a condenação de Elize Matsunaga.
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Em entrevista ao site "Metrópoles", D'Urso elogiou a qualidade da produção, mas afirmou que ela deve ser encarada como uma obra de ficção no que se refere à reconstituição do homicídio.
"O filme vale como uma obra de ficção, mas, no que diz respeito ao crime em si, comete erros gravíssimos", disse.
Segundo o advogado, embora a série mostre corretamente que Marcos Matsunaga foi atingido por um disparo de arma de fogo efetuado pela esposa, a forma como a cena é retratada diverge da conclusão apresentada pela perícia durante o processo.
D'Urso lembrou que a arma usada no crime havia sido um presente do próprio empresário.
"Ele deu essa arma para ela e ela usava, limpava, treinava com ela", afirmou.
Ainda de acordo com o criminalista, diferentemente das armas de caça do casal, que permaneciam guardadas num cofre, outras armas de fogo ficavam distribuídas em pontos estratégicos do apartamento.
Elize Matsunaga participa da reconstituição do crime na cobertura agora à venda
Reprodução/TV Globo
Na avaliação do advogado, a principal divergência está na posição em que Marcos Matsunaga se encontrava quando foi baleado.
Enquanto a produção da Netflix mostra o casal em pé durante uma discussão, a reconstituição feita pelas autoridades indicou que o empresário estaria agachado no momento do disparo.
Segundo D'Urso, a conclusão foi baseada na trajetória descendente do projétil e em vestígios de pólvora encontrados na região atingida, indicando que o tiro foi efetuado a curta distância.
"Na reconstituição, o que veio ao processo é que ele entra no apartamento com a pizza numa das mãos e abre a porta com a outra.
E ele encontra com ela, com o revólver em punho, em cima dele para disparar.
Se não houvesse elemento de surpresa, ele jogaria a pizza em cima dela e entraria em luta corporal.
A única reação dele, tendo convicção de que ela iria atirar, foi se encolher", afirmou.
Morte não teria sido causada apenas pelo tiro
Outro ponto destacado pelo advogado diz respeito à causa da morte de Marcos Matsunaga.
Segundo ele, conforme apontado pelo laudo do Instituto Médico Legal (IML), o empresário ainda estava vivo após o disparo.
"Porque ele não morre por causa desse tiro.
Então, ele leva o tiro, ele continua vivo, ele entra em coma e, enquanto vivo, ele respira.
Elize começa a esquartejá-lo pelo pescoço e, no momento em que ela faz a degola, ele está vivo.
E aí ele aspira aquele sangue do corte do pescoço e morre asfixiado com esse sangue que entra no pulmão", declarou.
Segundo D'Urso, esse aspecto não é retratado da mesma forma na produção da Netflix.
Advogado sustenta que uma serra elétrica foi usada
Durante a entrevista, o criminalista também afirmou que a acusação sustentou, no julgamento, que Elize Matsunaga utilizou uma serra elétrica no esquartejamento — ferramenta que, segundo ele, nunca foi localizada pela polícia.
Lorena Comparato caracterizada como Elize Matsunaga
Divulgação
"No caminho da casa da tia, no Paraná, para o aeroporto, ela passou em uma loja de ferragens e comprou uma serra elétrica.
Ela comprou e trouxe para São Paulo na bagagem da babá", afirmou.
De acordo com o advogado, a compra da ferramenta foi mencionada em depoimento da babá da família e reforçaria a tese de que o crime foi planejado previamente.
D'Urso também contestou a versão apresentada por Elize durante o julgamento, de que teria utilizado apenas uma faca de pão para desmembrar o corpo.
"Ela diz que sempre usou uma faca de pão, inclusive.
Verdade, ela usou a serra elétrica, porque a faca de pão demoraria horas para ela conseguir segmentar isso.
Isso foi tudo premeditado", ressaltou.
Ainda segundo o advogado, outro elemento que sustentaria essa interpretação é o fato de a perícia não ter encontrado vestígios de sangue no apartamento, mesmo após o uso de luminol.
"Não houve.
Ora, se não houve, como é que ela esquartejou alguém que não tinha sangue? Porque ela colocou plástico, ela protegeu as paredes, tudo foi muito bem pensado", afirmou.
Elize Matsunaga foi condenada em 2016 a 19 anos, 11 meses e um dia de prisão pelo assassinato e ocultação de cadáver de Marcos Matsunaga.
Posteriormente, a pena foi reduzida para 16 anos após recurso da defesa.
