O empresário Leo Serrano, da empresa Signature Luxury que organizava as viagens para o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, afirmou em depoimento à Polícia Federal na segunda-feira (24) que Vorcaro bancou um "guia vip" para o ex-diretor de fiscalização do Banco Central Paulo Sérgio Neves de Souza nos parques da Disney e da Universal em Orlando, nos Estados Unidos, em janeiro de 2024, no valor de US$ 38 mil.
No mesmo depoimento ele, negou que outro servidor do Banco Central, Belline Santana, tenha recebido de Vorcaro algum serviço quando viajou para Paris, em 2025.
Os dois servidores foram afastados do Banco Central e estão no centro de uma investigação da Polícia Federal sob suspeita de terem recebido propina para favorecer os interesses do Master enquanto atuavam na fiscalização do extinto banco de Vorcaro.
As defesas de ambos negam irregularidades.
A informação sobre o pagamento de US$ 38 mil foi revelada pelo Metrópoles.
O Valor teve acesso à integra do depoimento, que traz detalhes dos serviços prestados pela agência Signal Luxury a Vorcaro.
Ouvido na condição de testemunha, Serrano disse que o serviço de guia vip foi utilizado por cerca de uma semana e explicou que ele garante uma série de facilidades aos visitantes dos parques.
"Esse guia evita que os passageiros enfrentem filas nos brinquedos, organiza a ordem cronológica de visitação dentro do parque de forma lógica, evitando deslocamentos desnecessários, e elabora um roteiro; que o guia também realiza reservas de restaurante dentro do parque para os horários de almoço e jantar, além de sinalizar os horários das atrações principais, como shows e eventos específicos", explicou Serrano à PF.
Questionado se chegou a conversar diretamente com Paulo Sérgio durante a viagem, Serrano negou, mas disse que ele manteve contato com uma funcionária de sua empresa para tratar "das questões diárias da operação".
Questionado sobre quem pagou pelos US$ 38 mil Serrano explicou que sua empresa pagou tudo e depois enviou a fatura para Vorcaro.
Em relação a Belline Santana, também suspeito de receber pagamentos de Vorcaro, Serrano disse que Vorcaro procurou sua empresa para tratar de reservas em Paris para Belline mas que, neste caso, nenhum serviço foi prestado.
Ele disse ainda que chegou a acionar uma agência parceria dele, que atua na Europa, para ver a questão das reservas diretamente com Vorcaro, mas que elas nunca foram pagas.
"Que apenas foi solicitada a reserva, que, pelo que tem conhecimento, essas reservas sequer chegaram a se concretizar", relatou à PF.
A Polícia Federal então questionou ele se recebeu de Vorcaro algum outro pedido envolvendo Belline Santana.
Ele respondeu que "não recorda de nenhum outro, no âmbito de sua empresa".
Dinâmica de contratação
Em seu relato, Serrano ainda explicou como funcionava a dinâmica de contratação de sua empresa por Vorcaro.
Segundo ele, não havia um contrato fixo com o então banqueiro e as empresas dele, mas sim uma contratação sob demanda a cada pedido feito pelo então dono do Master.
"Os serviços prestados ao senhor Vorcaro eram, em sua maioria, de âmbito pessoal, que as viagens e eventos de turismo se davam normalmente por prestação de serviço específica de cada viagem, sendo a própria viagem, em si, um contrato", afirmou.
O serviço de "guia vip" não é o único oferecido pela Signal Luxury.
Como mostrou o Valor, a agência gastou cerca de US$ 7,7 milhões entre 2024 e 2025 em três viagens custeadas por Vorcaro para políticos e aliados, incluindo passagens, hotéis, e até gastos com degustação de Whisky e charutos para políticos como o senador Ciro Nogueira (PP-PI).
Em nota, a defesa de Paulo Sérgio afirmou que "possui documentação comprobatória de que custeou integralmente a viagem realizada por ele e sua família à Disney, incluindo hospedagem, passagens aéreas, ingressos para os parques da Disney e Universal, aquisição de moeda estrangeira e despesas realizadas por meio de cartões de crédito, todos com recursos de origem devidamente comprovada".
Ainda segundo a nota do advogado Odel Antun, o ex-diretor do BC teria avisado a Vorcaro sobre a viagem ao informar que não poderia participar de uma reunião com o então banqueiro que estava sendo marcada entre a autarquia e ele, pois já havia reservado a viagem de férias com a família no período entre janeiro e fevereiro de 2024.
Segundo a defesa, o ex-diretor teria sido informado por Vorcaro na véspera de seu embarque que um grupo que havia adquirido o pacote de acesso prioritário teria desistido, e por isso ele aceitou o pacote.
"No entanto, somente no dia do embarque para Orlando, Paulo Sérgio recebeu contato do Sr.
Daniel Vorcaro, que informou a desistência de integrantes de um grupo que havia adquirido pacote de acesso prioritário aos parques e ofereceu a possibilidade de assumir uma das vagas.
Paulo Sérgio aceitou as condições apresentadas, inclusive mediante o pagamento de US$ 8 mil, valor pago em espécie, nos Estados Unidos, por intermédio de pessoa indicada pelo Sr.
Daniel Vorcaro", segue o texto da defesa.
A defesa de Belline Santana criticou o vazamento do depoimento de Serrano e afirmou que "não houve qualquer prestação de serviços de turismo, logística ou concierge pelo referido empresário ou por sua empresa ao Sr.
Belline Santana, muito menos por indicação do Sr.
Daniel Vorcaro".
Procurada, a defesa de Leo Serrano não retornou aos contatos da reportagem.
Paulo Souza, ex-diretor de fiscalização do Banco Central (BC)
Raphael Ribeiro/BCB
