Associado à produção de alimentos, o agronegócio se consolidou também como um provedor estratégico de energia renovável no Brasil.
A participação da bioenergia agropecuária na matriz energética nacional triplicou em pouco mais de cinco décadas, de 9,7% em 1970 para 29,1% em 2023, com direito ao pico de 30,1% em 2020.
Na prática, o campo assumiu o posto de principal responsável pela produção de energia renovável no país.
O setor responde por aproximadamente 60% de toda a energia limpa ofertada no Brasil, do etanol à eletricidade gerada por resíduos, superando a contribuição de outras fontes reconhecidas, como a hidroeletricidade.
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Não fosse a bioenergia agropecuária, a participação das fontes renováveis na matriz energética brasileira cairia de 49,5% para cerca de 20%, próximo da média global, estimada em 15%.
A liderança brasileira no uso de renováveis está, portanto, diretamente associada ao desempenho do setor agropecuário.
Unidade Eldorado da Atvos, em Rio Brilhante (MS)
Aline Adum/Divulgação/Atvos
A constatação faz parte do estudo ‘Dinâmicas de Demanda e Oferta de Energia pelo Agronegócio’, produzido pelo pesquisador Luciano Rodrigues, da FGV Agro e do Observatório de Bieconomia da Fundação Getúlio Vargas.
Para a pesquisa, ele considerou a série histórica de 1970 a 2023 do Balanço Energético Nacional (BEN), elaborado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), do governo federal.
— O Brasil é reconhecido por ter uma matriz energética limpa.
Mas talvez tenhamos pouca clareza dos setores que contribuem para isso.
O resultado do estudo é surpreendente: quase 30% da energia produzida no país vêm do agronegócio.
A tecnologia tem contribuído para além da produção de alimentos.
Outro ponto importante é que, quando falamos de bioenergia, pensamos em etanol e biodiesel, mas percebemos que outros segmentos utilizam as bioenergias do agronegócio, além dos transportes — diz Rodrigues.
Muito além da lenha
O estudo da FGV mostra que, num primeiro momento, a oferta de energia pelo setor agropecuário estava concentrada na lenha e na biomassa da cana-de-açúcar.
Ao longo do tempo, novas fontes surgiram, como a lixívia (resíduo da produção de celulose), óleos vegetais, biogás e outras biomassas agrícolas, principalmente, milho e soja.
Outra mudança importante, de acordo com o trabalho, ocorreu do lado da demanda por energia pelo próprio agronegócio.
O setor substituiu parte dos combustíveis fósseis usados em tratores, caminhões, colheitadeiras e outros veículos e equipamentos pela bioenergia que ele próprio produz, apesar de o óleo diesel ainda ser predominante.
Nesse sentido, o agro brasileiro começa a se alinhar às mais novas tendências de produção sustentável.
— Quando o agronegócio usa resíduo para produzir energia, agrega valor.
A economia circular prega esse novo modelo econômico, em que nada se perde, tudo se transforma.
Vai além do que a gente conhece muito bem, na reciclagem, que é fechar o ciclo em si mesmo.
É um salto no entendimento de que a cadeia produtiva pode ser prolongada — diz Beatriz Luz, presidente do Instituto Brasileiro de Economia Circular (Ibec).
Unidade Narandiba, de biogás, da Cocal
Rodrigo Paiva/Divulgação/Cocal
A Cocal se tornou um exemplo de economia circular e de transição energética no agronegócio.
A empresa nasceu em 1980, fruto do Proálcool, programa federal que incentivou o crescimento da indústria de etanol.
Em 2002, a produtora de álcool e açúcar deu mais um passo em direção às fontes renováveis de energia com a geração de eletricidade a partir do bagaço da cana de açúcar.
Quase duas décadas depois, a Cocal avançou para o aproveitamento de resíduos na fabricação de biogás, que, após purificado, é transformado em biometano, um combustível limpo, que pode substituir o óleo diesel e o gás natural na propulsão de veículos.
A inovação da vez na Cocal é transformar a vinhaça e a torta de filtro, resíduos da agroindústria da cana-de-açúcar, em biometano.
O biocombustível abastece sua frota de caminhões e tratores, além de motobombas, e está presente em diferentes fases da produção da empresa, da plantação da cana-de-açúcar até o abastecimento de navios com carga no Porto de Santos (SP).
Biodigestores da Cocal no interior de SP: resíduos de cana-de-açúcar viram biometano
Cocal Divulgação/Cocal
A meta da empresa é chegar a 100% de uso do biometano em suas operações, mas por enquanto, 80% do combustível consumido pela Cocal ainda é fóssil.
O gargalo é tecnológico.
Apenas recentemente foi lançado um trator de alta potência com motor movido a biometano, por exemplo.
A primeira unidade de biogás da Cocal foi inaugurada em 2019, em Narandiba, no interior de São Paulo, um investimento de R$ 150 milhões.
A segunda fábrica ficou pronta no ano passado, no município de Paraguaçu Paulista, após investimento de R$ 216 milhões.
A empresa adaptou uma tecnologia já conhecida na Europa à realidade brasileira, em parceria com a Geo bio gas&carbon.
— O biogás é a quarta revolução industrial do setor.
A primeira foi a produção de açúcar.
Em seguida, veio o Proálcool, em 1980.
Depois, a produção energética, nos anos 2000.
E, a partir de 2020, surgiu a quarta revolução, com o reaproveitamento dos resíduos, convertidos em biocombustíveis — delineia André Gustavo Alves da Silva, diretor Comercial e de Novos Produtos do Grupo Cocal.
Insegurança superada
Presidente dos conselhos de administração da Geo e da Associação Brasileira do Biogás e do Biometano (Abiogás), Alessandro Gardemann entrou neste negócio ainda em 2007.
A primeira unidade de biogás da Geo começou a operar cinco anos depois.
Atualmente, a empresa é dona integralmente de duas fábricas e é sócia minoritária de outras quatro.
Ao todo, os seis projetos já consumiram cerca de R$ 1,5 bilhão em investimentos.
Outros dois estão em fase de implantação, com custo que deve superar R$ 500 milhões.
Gardemann diz que, no início, havia muitas dúvidas sobre o negócio de biogás e biometano, no Brasil, que têm sido superadas.
Havia insegurança, por exemplo, em relação ao valor do resíduo e sobre as matérias-primas que poderiam ser utilizadas.
Ele admite que esse ainda não é um mercado consolidado, mas diz que está tudo pronto para o capital se multiplicar.
Valor agregado
Para Wilson Lucena, vice-presidente de Operações da Atvos, uma das maiores produtoras de biocombustíveis do país, o principal desafio é viabilizar o aproveitamento dos subprodutos da cana-de-açúcar em escala, de forma eficiente e competitiva.
A companhia gera energia verde a partir do bagaço da cana-de-açúcar e tem capacidade de produzir aproximadamente 4.200 gigawatts-hora (GWh) de energia elétrica por safra.
Wilson Lucena, VP de Operações da Atvos
Divulgação/Atvos Especial Transição Energética
Além disso, com a entrada em operação da Unidade Santa Luzia, de biometano, em Nova Alvorada do Sul (MS), parte do combustível renovável produzido será utilizada na própria operação da companhia, e outra parcela poderá atender municípios do entorno.
— Esse movimento representa uma oportunidade de extrair mais valor de uma cadeia produtiva que já existe, aumentando a eficiência no uso dos recursos e diversificando as soluções energéticas geradas a partir da cana-de-açúcar — destaca Lucena.
— Já utilizamos o bagaço para a geração de bioeletricidade e estamos avançando agora na produção de biometano a partir da vinhaça e da torta de filtro.
É uma lógica de economia circular, que permite aproveitar cada vez melhor a mesma matéria-prima.
