Uma das principais referências mundiais em planejamento, economia urbana e no estudo de como os mercados moldam os territórios, o urbanista Alain Bertaud está no Brasil para o 4º Encontro Cidades Responsivas, que reúne nesta quinta (27) e sexta-feira (28), em Porto Alegre, nomes da academia, dos governos e do mercado para discutir os desafios das cidades.
Com mais de 50 anos de experiência no desenvolvimento de municípios, o ex-urbanista-chefe do Banco Mundial abre o evento com uma palestra sobre uma transformação que já começa a redesenhar cidades em diferentes partes do mundo: o envelhecimento da população e a redução do número de habitantes.
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O cenário brasileiro dá dimensão ao desafio.
Segundo as projeções do IBGE, em 45 anos a população de 60 anos ou mais deve mais do que dobrar, passando de 35,4 milhões para 75,3 milhões.
Já o número de brasileiros de até 14 anos deve cair de 41,6 milhões para 23,8 milhões.
Em entrevista ao GLOBO, Bertaud detalha alguns dos desafios que o envelhecimento e a redução populacional devem impor às grandes cidades.
O senhor argumenta que o mercado molda as cidades.
Com o rápido envelhecimento da população brasileira, qual será o principal erro dos gestores ao planejar as cidades do futuro?
O principal erro histórico das gestões públicas tem sido focar exaustivamente em atrair empregos, enquanto se movem com extrema lentidão para disponibilizar terras e infraestrutura de habitação acessível aos trabalhadores que assumem esses postos.
Agora, com o envelhecimento demográfico, a dinâmica mudou.
As cidades capazes de atrair pessoas manterão seus empregos e continuarão crescendo, mesmo que a população total do país esteja estagnada ou diminuindo, porque conseguirão atrair os jovens de outras cidades.
Outro grande erro é os governantes acharem que conseguem interromper ou reverter essa tendência.
Diversos países tentaram conter a queda de natalidade com incentivos financeiros.
Isso não funciona.
A queda na fertilidade é um fenômeno global que ninguém compreende inteiramente, ocorrendo em países com culturas e economias totalmente distintas.
O governo brasileiro não deve tentar reverter essa tendência demográfica, mas monitorá-la de perto e aceitar a ordem espontânea, que é composta por decisões individuais — como casar, ter filhos e migrar para São Paulo, Porto Alegre ou Recife — que o planejador não controla.
O papel do planejador é desenvolver infraestrutura e serviços (saúde, educação, transporte e habitação) que sirvam a essa ordem, e não praticar "engenharia social" tentando forçar as pessoas a agirem contra suas próprias aspirações.
Considerando o envelhecimento da população, quais podem ser os impactos para os idosos de viver em conjuntos habitacionais como o programa Minha Casa, Minha Vida?
O fator mais importante para qualquer pessoa vivendo em uma cidade é a acessibilidade: estar perto dos empregos ou ter um transporte eficiente que encurte o tempo de deslocamento.
À medida que a população envelhece, é vital estar perto do comércio local, de consultórios médicos e de serviços básicos, o que exige densidades urbanas relativamente altas.
O grande problema do programa "Minha Casa, Minha Vida" é que o governo escolhe os terrenos periféricos exclusivamente porque são baratos, o que é compreensível pelo orçamento restrito.
Contudo, frequentemente por razões de segurança, esses projetos são murados e totalmente isolados.
Não há comércio interno nesses complexos, não há uma mercearia, um restaurante ou um consultório médico.
Essa monofuncionalidade residencial isolada é um modelo habitacional terrível para idosos no futuro, e na verdade não funciona bem para ninguém.
No Rio de Janeiro, o domínio territorial de facções criminosas cria barreiras à mobilidade.
Qual é o impacto disso sobre o mercado de trabalho?
Embora eu não seja um especialista em segurança pública, o impacto desse controle territorial criminoso é gravíssimo para o funcionamento do mercado de trabalho.
Essas barreiras destroem o comércio local e impedem que as pessoas se desloquem livremente pela cidade para acessar empregos.
No caso do Rio de Janeiro, o que chama a atenção é que muitas favelas estão geograficamente muito bem localizadas em relação aos centros de emprego, porém situadas em encostas de topografia extremamente íngreme.
As pessoas construíram ali porque precisavam acessar empregos e não podiam pagar pelas áreas planas formais.
Em vez de aceitar a realidade física da cidade e adaptar as normas urbanísticas, aceitando acessos por escadarias, por exemplo, e provendo esgoto e coleta de lixo adaptados, o governo insistiu em tratá-las como áreas piratas e totalmente ilegais.
Essa insistência em manter as comunidades na ilegalidade abriu espaço para os gângsteres criarem suas próprias leis.
É o mesmo fenômeno que ocorreu na época da Lei Seca nos Estados Unidos.
Uma vez que os criminosos dominam essas áreas e ditam as regras, torna-se um desafio imenso para o governo recuperar o controle.
O papel primordial de uma cidade é elevar a produtividade e a renda dos cidadãos por meio da especialização do trabalho proporcionada pela proximidade social e econômica.
No entanto, isso requer mobilidade desimpedida, moradias seguras, saneamento básico, coleta de lixo e boas escolas públicas acessíveis a pé.
A expansão do trabalho remoto nos últimos anos altera a forma como as cidades devem organizar transporte e uso do solo?
O trabalho remoto exige que monitoremos as transformações de perto e, principalmente, que tragamos mais flexibilidade ao zoneamento urbano.
No auge da pandemia, muitos imaginaram que as cidades perderiam a relevância e que todos trabalhariam de casa, o que é incorreto.
Profissionais de saúde, cozinheiros e muitos outros serviços de suporte físico não podem ser realizados à distância.
Inclusive as gigantes de tecnologia do Vale do Silício e do setor financeiro de Wall Street, que operam essencialmente de forma digital, estão exigindo o retorno presencial dos seus colaboradores, pois perceberam que as interações informais, casuais e não estruturadas cara a cara aumentam a produtividade.
Se saímos para jantar por três horas, trocaremos muito mais ideias espontâneas e inovadoras do que em uma reunião rígida pelo Zoom.
Contudo, o trabalho remoto oferece a grande vantagem da flexibilização de horários, ajudando a diluir o tráfego nos horários de pico e distribuindo as demandas de transporte de maneira mais uniforme.
Para as áreas residenciais, isso significa que deve haver total liberdade para a abertura de comércios de conveniência.
Se os profissionais passam a trabalhar de casa, eles demandam cafés, padarias e pontos de encontro no próprio bairro para socializar.
Diversos municípios brasileiros tentam revitalizar seus centros históricos.
Como revitalizar essas regiões sem que o processo resulte apenas em especulação imobiliária e na expulsão de moradores de baixa renda?
Este é um grande dilema urbano em todo o mundo.
As áreas centrais possuem, por natureza, a melhor acessibilidade para transporte público para toda a cidade.
Como consequência, a terra nessa área é muito disputada e necessariamente cara, pois as empresas e as pessoas competem por essa proximidade estratégica.
Em muitas cidades, como no centro histórico de São Paulo, o valor da terra desabou temporariamente em certas décadas, atraindo moradores de baixa renda.
Contudo, se o objetivo público é revitalizar o centro e torná-lo novamente o ponto focal de atração econômica, de comércio qualificado e de empregos de ponta, o preço da terra inevitavelmente voltará a subir.
Não é biologicamente sustentável para a economia de uma cidade tentar impor "dois preços" concorrentes na mesma área.
Quando o centro antigo se deteriora sem investimento, as áreas mais ricas simplesmente migram e fundam novos polos distantes, como ocorreu com as regiões da Faria Lima e da Vila Olímpia, em São Paulo.
Portanto, se o governo opta por revitalizar o centro e atrair novos usos econômicos, os atuais moradores e inquilinos de baixa renda têm direitos que precisam ser respeitados e compensados financeiramente.
Com essa compensação, o poder público deve prover novas habitações em áreas que continuem integradas ao mercado de trabalho.
O maior erro que os governos cometem ao formular habitação de interesse social é comprar a terra mais barata possível na periferia de difícil acesso.
A terra é barata ali precisamente porque não tem acesso a empregos, transformando esses condomínios em verdadeiras “armadilhas de pobreza”.
As pessoas estão muito melhor morando em uma favela centralizada do que em um apartamento agradável na periferia de onde não conseguem acessar o mercado de trabalho.
Por fim, imaginando que o senhor fosse prefeito de uma cidade de 300 mil habitantes em rápido envelhecimento, quais seriam suas prioridades?
Minha prioridade absoluta seria criar condições para reter e atrair os jovens.
Uma cidade que não atrai jovens perde dinamismo e fica inviabilizada economicamente.
As empresas não investem em locais onde a idade média da força de trabalho passa dos 40 anos, pois necessitam de trabalhadores dinâmicos, qualificados e adaptáveis às novas tecnologias, como a Inteligência Artificial.
Para atingir isso, eu focaria em três frentes: habitação acessível, facilitando a construção de moradias que os jovens possam pagar; vida social e lazer, com restaurantes, cafés, atividades culturais e espaços que funcionem em horários flexíveis, ficando abertos até mais tarde e que permitam aos jovens ter uma vida social ativa; e qualidade de vida e educação, com uma cidade limpa, segura e com escolas públicas de alta qualidade.
Gosto de citar o exemplo de um prefeito de uma cidade chinesa de 700 mil habitantes que precisava atrair engenheiros para uma fábrica, mas os profissionais se recusavam a ir para lá.
O prefeito foi até a associação de engenheiros em Xangai e Pequim e perguntou o que seria necessário para convencê-los a se mudar.
Eles responderam que queriam ar limpo, excelentes escolas primárias para os filhos e áreas de lazer, como pistas de corrida e parques.
O prefeito investiu na limpeza do ambiente, criou uma marina com veleiros aproveitando os rios locais e aumentou significativamente o salário dos professores do ensino fundamental.
Ele conseguiu atrair os jovens engenheiros.
O grande desafio de um prefeito eleito democraticamente é político: se a maioria dos eleitores for de idosos, eles podem rejeitar investimentos em lazer jovem ou reclamar do barulho de restaurantes abertos até tarde, preferindo um ambiente pacato para jogar cartas.
O grande papel do político é construir coalizões para viabilizar as reformas necessárias para o futuro da cidade a longo prazo, mesmo diante das resistências imediatas.
