Um encontro musical construído ao longo de quase 40 anos ganha novo capítulo nesta sexta-feira, 28, com o lançamento, nas plataformas digitais, de “Além do Cais: Henry Burnett interpreta Ronaldo Silva”.
O álbum reúne nove canções criadas a partir de letras de Ronaldo Silva e musicadas por Henry Burnett e quatro apenas de Ronaldo, em um projeto que celebra a amizade e a parceria.
A ideia do disco surgiu durante a pandemia, quando Ronaldo convidou Burnett a retomar a parceria.
“Ele começou a me enviar as letras pelo WhatsApp e comecei a musicar.
Esse trabalho resultou em mais de dez canções”, conta Burnett.
As bases foram gravadas em 2025 e, em 2026, o projeto ganhou forma definitiva com a produção de Burnett e Arthur Kunz, integrante de Strobo e Os Amantes.
Kunz também participou das gravações de bateria, baixo, guitarras e percussões, além de criar efeitos sonoros que contribuíram para a sonoridade do álbum.
O resultado transita por diferentes estilos e procura aproximar as características musicais dos dois compositores.
Para Burnett, interpretar Ronaldo significou também reencontrar uma parte importante de sua própria formação.
Os dois se conheceram ainda na adolescência, quando eram vizinhos na Cidade Nova, em Belém.
“Ele ia praticamente todos os dias na minha casa.
Tocávamos por horas e vi de muito perto o processo criativo dele”, lembra.
Essa convivência ajudou a construir a identidade do novo trabalho.
Burnett procurou se aproximar sobretudo do lado lírico da produção de Ronaldo, sem abrir mão de suas próprias referências.
“Minha ideia caminhava em duas direções: primeiro, queria imprimir ao projeto uma sonoridade próxima da dimensão mais lírica do trabalho dele”, explica.
Em algumas faixas, porém, sua assinatura aparece de maneira mais evidente, como em “Balão azul” e “Balança balanceia”, nas quais utiliza o xote, seu ritmo preferido.
A diversidade sonora, segundo o compositor, nasceu do próprio processo de criação.
“Experimentei diversas possibilidades ao musicar os poemas e rearranjar as canções dele”, afirma.
O resultado, acrescenta, evidencia a influência de Ronaldo sobre sua trajetória: “Muitas das minhas canções foram diretamente influenciadas pelo universo autoral dele”.
Embora tenha Burnett como intérprete e produtor, o álbum é assumido por ele como uma obra compartilhada.
“É um disco nosso, não apenas meu, isso é muito importante”, ressalta.
Com todas as letras assinadas por Ronaldo Silva, o repertório preserva uma forte dimensão amazônica.
Ao mesmo tempo, o projeto busca destacar uma face menos conhecida de sua obra, marcada pela poesia e pela introspecção.
Burnett cita “Porto dos apaixonados”, “Além do cais” e “Maída” como exemplos desse universo que considera fundamental.
“Gostaria que esse universo poético que ele expressou em canções como ‘Porto dos apaixonados’, ‘Além do cais’ e ‘Maída’ não restassem como um ‘lado B’ da sua obra”, afirma.
Para Burnett, essas canções estão diretamente ligadas à sua própria identidade artística: “São as canções mais definidoras da minha própria forma de compor”.
“Além do Cais” chega ao público, portanto, não apenas como uma homenagem, mas como o registro de uma relação artística que atravessa décadas.
“O álbum é uma homenagem de um compositor para outro compositor”, resume Burnett, ao reunir em um mesmo trabalho a memória de uma amizade, a influência musical e duas diferentes maneiras de olhar para a música paraense.
