Alerta na cidade do Rio só foi emitido às 16h43, duas horas após ventos de até 111 km/h atingirem a Costa Verde - QTU Questões do Universo

Alerta na cidade do Rio só foi emitido às 16h43, duas horas após ventos de até 111 km/h atingirem a Costa Verde

Fonte: Bandeira da fonte

O vendaval que atingiu o Rio na tarde de quarta-feira pegou milhares de pessoas de surpresa e deixou um rastro de destruição.
Diante da intensidade do fenômeno, uma pergunta passou a mobilizar especialistas e autoridades: por que a população não recebeu um alerta mais contundente antes da chegada dos ventos? A dúvida ganha força porque, cerca de seis horas antes, meteorologistas independentes já acompanhavam o avanço do sistema pelo litoral de São Paulo e alertavam, em vídeos publicados nas redes sociais, que as rajadas seguiriam em direção ao estado do Rio.
Apesar disso, a Defesa Civil enviou mensagens apenas às 16h43 para celulares cadastrados, cerca de duas horas depois dos ventos chegarem na Baía da Ilha Grande e de Angra dos Reis, na Costa Verde, segundo especialistas e registros feitos por moradores.
Vídeo mostra queda de árvore a poucos metros de motorista
Primeiros sinais
A cronologia entre São Paulo e Rio mostra que os sinais existiam antes da chegada do vendaval.
Às 10h da quarta-feira, o capitão Guilherme Kodja, especialista em inteligência náutica com 35 anos de experiência no mar e mais de 70 mil seguidores nas redes sociais, publicou um vídeo alertando que os modelos meteorológicos já indicavam a possibilidade de ventos intensos.
Segundo ele, a previsão vinha sendo acompanhada havia dois dias, principalmente pelo modelo europeu ECMWF, considerado mais preciso para a região.
No vídeo, Kodja mostra a projeção da linha de vento avançando pelo litoral paulista e alerta que, entre 16h e 17h, o sistema chegaria à região da Baía da Ilha Grande e de Angra dos Reis.
Ainda assim, não havia sido emitido um alerta à população do Rio sobre os ventos extremos.
Ventania em SP quatro horas antes do Rio
Pouco tempo depois, às 12h35, quando os ventos já atingiam o litoral de São Paulo, o meteorologista e doutor em Meteorologia Giovanni Dolif, com mais de 100 mil seguidores no Instagram, reforçou o que havia já alertado.
Segundo ele, rajadas superiores a 100 km/h já eram registradas em Itanhaém e começavam a atingir Santos.
Ao analisar as imagens meteorológicas, o especialista explica que a linha de cisalhamento — mudança significativa da velocidade ou direção do vento em uma distância relativamente curta na atmosfera — avançaria pelo litoral paulista e seguiria em direção ao Rio de Janeiro.
"Vai avançar, subir o litoral de São Paulo, chegar até o Rio de Janeiro com ventos muito fortes.
Talvez não esses 100 km/h, mas ventanias fortes que derrubam algumas estruturas, interrompem o fornecimento de energia e podem derrubar placas.
Então, é perigoso.
Nas próximas horas vai varrer o litoral de São Paulo e o litoral do Rio com ventos muito fortes.
Fica o alerta", afirmou o doutor em meteorologia.

Com base nas medições acompanhadas em tempo real, Dolif reconstituiu o deslocamento da linha de cisalhamento até a capital fluminense.
Entenda a cronologia do vento até o Rio
A partir de dados observados em tempo real, o meteorologista Giovanni Dolif reconstituiu o deslocamento da linha de cisalhamento entre São Paulo e o Rio.
A cronologia mostra o avanço da ventania ao longo da tarde.
12h23 – Itanhaém (SP) - Primeiras rajadas extremas são registradas, chegando a 106 km/h.
Duas horas antes, Kodja publica vídeo alertando para a possibilidade de ventos fortes e orienta cuidados na navegação.
12h35 - O meteorologista Giovanni Dolif faz alerta para o Rio.
13h45 – Ilhabela (SP) - O sistema avança rapidamente pelo litoral norte paulista, com rajadas de até 96 km/h.
15h – Baía da Ilha Grande e Angra dos Reis (RJ) - A linha de ventos chega ao litoral sul fluminense com rajadas que atingem 111 km/h.
15h30 – O Centro Estadual de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (Cemaden) emite boletim válido até as 7h30 do dia seguinte alertando para mudança do tempo em praticamente todo o estado.
16h30 – Ventos atingem a Zona Sul do Rio - com rajadas de 74 km/h.
16h43 – A Defesa Civil envia mensagens de alerta para celulares cadastrados.
Por volta das 16h50 – toda a cidade do Rio vive os efeitos do vendaval.
17h – Galeão (Rio) - As rajadas alcançam 106 km/h, já durante o vendaval que atingia a cidade.
O meteorologista e doutor em Meteorologia Giovanni Dolif afirma que a intensidade exata do vendaval que atingiu o Rio era difícil de prever, mas diz que o avanço do sistema já vinha sendo monitorado ao longo da semana e que profissionais acostumados a interpretar esse tipo de fenômeno conseguiam identificar um risco elevado para o litoral fluminense.
Segundo ele, os modelos meteorológicos não projetavam rajadas superiores a 100 km/h para o Rio porque eventos desse tipo envolvem uma linha de cisalhamento com uma faixa de ventos intensos formada pelo avanço rápido de uma massa de ar frio e mais densa sobre uma massa de ar quente.
— É um vento mais desafiador de prever.
É como se fosse um sopro que sai do Sul do país.
Esse pulso de ar frio avança muito rápido e faz a frente fria chegar com muito mais força.
Foi um evento associado à linha de cisalhamento, que exige uma interpretação muito cuidadosa dos modelos e das observações em tempo real.
Os modelos costumam subestimar esse tipo de fenômeno.
Pela experiência de quem trabalha com o mar, a gente sabe que essas previsões acabam não mostrando toda a potência do evento — explica Dolif.
O prefeito Eduardo Cavaliere afirmou que o Rio conta com 11 estações de monitoramento das condições meteorológicas, sendo três da própria prefeitura e as demais operadas por órgãos como o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e a Aeronáutica, em razão dos aeroportos.
Ele disse que o vendaval desta quarta-feira surpreendeu até os meteorologistas e que, por isso, não foi emitido Alerta Extremo.
"São órgãos diferentes, com estações diferentes, e é a partir dessas informações que tomamos as decisões aqui no Centro de Operações e acionamos os protocolos.
Ontem, esses órgãos emitiram um alerta para ventos moderados e fortes, com previsão de rajadas de até 60 ou 70 km/h.
O que tivemos, no entanto, foi um verdadeiro vendaval, com ventos acima de 100 km/h, que surpreendeu inclusive os meteorologistas e não correspondia ao que havia sido indicado pelas estações.
Por essa razão, não emitimos um alerta extremo", disse à TV Globo.