A morte de Seu Jorge, cachorro que acompanhou Ana Carolina Raimundi durante 15 anos, levou a repórter do Fantástico, da Globo, a compartilhar uma reflexão profunda sobre o luto pet no Instagram nesta segunda-feira (24).
Em um relato emocionado publicado na rede social, ela desabafou sobre a relação construída com o animal ao longo dos anos, a angústia dos últimos meses e a dificuldade de lidar com uma perda que, muitas vezes, ainda é incompreendida por quem está de fora.
Ana disse que não é preciso tratar um animal como um ser humano para estabelecer com ele uma relação de amor profundo.
Ela argumentou que é exatamente a diferença entre as espécies que torna esse vínculo ainda mais especial.
Ana Carolina Raimundi e Seu Jorge
Reprodução/Instagram
"Eu, em nenhum momento, precisei humanizar o meu cachorro para amá-lo desesperadamente esse tanto que eu amo, que eu amei e continuo amando.
Ele não é uma criança, ele não é um bebê, ele não é um idoso, ele é um cão, e eu não precisei humanizá-lo para amá-lo", justificou.
A jornalista também chamou atenção para a transformação que a convivência com um animal pode provocar na vida de uma pessoa.
"E eu acho que esse é o grande negócio: você amar desse tamanho um ser tão diferente de você te expande como ser humano.
É uma sorte ter uma conexão, passar por essa existência tendo uma conexão com o animal de uma maneira tão profunda e intensa, porque isso é uma bênção, é um presente e muita gente não tem, não consegue se conectar nesse ponto", disse.
VEJA O VÍDEO:
Ana Carolina Raimundi se emociona ao falar sobre o luto pet
Ana contou que, nos 15 anos em que Seu Jorge esteve ao seu lado, sua rotina também passou a ser construída em torno dos cuidados com ele.
Por isso, a ausência deixou de representar só a falta de um companheiro e impactou atividades que pareciam banais até desaparecerem.
"Fora que esse luto é um luto que, por exemplo, nenhum ser humano seria possível estar amalgamado na sua rotina como um cão que mora com você, porque os seres humanos têm suas próprias rotinas, têm seus trabalhos, vão fazer suas coisas sozinhos e por aí...
", disse.
"O cão está lá desde a hora em que você acorda até a hora em que você vai dormir; a comida, o remédio, a brincadeira, a testemunha ocular que ele é da sua rotina e a sua rotina é feita através dos cuidados com ele.
Quando você perde ele, você perde a sua rotina", lamentou.
Ana Carolina Raimundi e Seu Jorge
Reprodução/Instagram
A jornalista da Globo revelou que o processo de despedida do cachorro começou antes da morte.
Com o avanço da idade e da doença, ela passou a experimentar o que descreveu como um luto antecipado.
E, a cada nova perda de capacidade de Seu Jorge, crescia também a ansiedade diante da possibilidade de perdê-lo definitivamente.
"O Seu Jorge ficou 15 anos comigo, é muito doido, porque você tem um luto antecipado, porque você começa a ver aquele animal perdendo as forças e, aos pouquinhos, cada dia ele vai perdendo um pouquinho.
Você começa a entrar numa agonia, numa ansiedade, porque a perda está a caminho.
Então eu comecei a querer voltar mais rápido dos lugares, eu comecei a deixar de aceitar convites para algumas coisas e olhar se ele estava respirando ou não", lembrou, explicando que o cão enfrentava uma doença que afetava sua memória e sua autonomia.
Ana Carolina Raimundi e Seu Jorge
Reprodução/Instagram
"Depois que ele ficou com a doença senil, o Alzheimer canino, ele se perdeu em muitas coisas, ele não lembrava às vezes onde tinha que fazer as necessidades ou onde estava a comida, mas ele sabia que o meu cheiro, quando estava por perto, era segurança", recordou.
Ela contou que foi nesse período que os cuidados paliativos ganharam importância: "Eu compartilhei com vocês que ele estava em cuidados paliativos, que ele estava com uma doença que não tinha cura.
Foi assim o maior acerto que fiz, porque ele teve uma qualidade de vida muito legal a partir do momento em que começou a ser cuidado pela paliativista."
A repórter explicou que sabia, contudo, que chegaria o momento em que a responsabilidade pela decisão final estaria em suas mãos.
"De alguma maneira eu sempre soube, não sei explicar por quê, mas eu sempre soube que teria, que chegaria um momento em que seria decisão minha", afirmou, contando que o namorado, a afilhada, que considera como filha, e a veterinária paliativista Patrícia estiveram ao seu lado durante o processo.
"E aí eu tomei a decisão que foi a mais difícil da minha vida e eu me preparei com ele e com as pessoas que estavam à minha volta e eu acho que eu só consegui fazer isso porque eu tive um amor absurdo à minha volta", afirmou.
Apesar de ter se preparado, a despedida não deixou de ser dolorosa: "Um dia eu posso falar sobre isso com calma, porque eu acho que isso pode ajudar alguém que vai passar por isso, ou está para passar por isso.
Acho que ainda não consigo detalhar o que aconteceu naquele dia, mas só consigo detalhar que eu não estava sozinha e que isso foi fundamental para que as coisas estivessem todas no lugar onde elas deveriam estar."
Ana Carolina Raimundi e Seu Jorge
Reprodução/Instagram
Ao refletir sobre sua própria experiência, a jornalista se dirigiu às pessoas que enfrentam a perda de seus animais.
"Então eu queria dizer para os enlutados, para os seus animais, que nunca é só um gato, nunca é só um cachorro, é você, é um outro ser, é uma relação de amor, é parte da sua família", opinou, explicando que a dimensão do luto está relacionada à própria mudança provocada pela ausência.
"Então é um luto que é sobre você também, quem você era com aquela rotina, quem você era na casa que era ocupada por essa presença, quem você deixa de ser, quem você vai ser a partir de agora sem aquele seu grande amigo, aquela presença que te ocupava", analisou.
Ana disse que, ao receber mensagens de outras pessoas que passaram por situações semelhantes, percebeu que a falta de compreensão pode aumentar ainda mais o sofrimento.
"Muita gente me contando que teve que mentir no trabalho, mentir para os amigos ou para as pessoas que tinham vergonha de dizer que estavam sofrendo verdadeiramente, intensamente, e é muito triste você não poder sofrer, você não poder simplesmente amar", lamentou.
Ana Carolina Raimundi e Seu Jorge
Reprodução/Instagram
Por fim, a repórter agradeceu o acolhimento recebido de seus seguidores durante o período de luto.
"Eu li todas as mensagens, passei muitas madrugadas lendo e relendo, e isso me fez bem.
Nessa rede muito doida, que às vezes é tão esquisita, me fez muito bem.
Vocês me trataram muito bem, e essa é a minha retribuição", afirmou.
Ana disse que falar sobre a morte de Seu Jorge também se tornou uma forma de acolher quem está vivendo uma despedida parecida e lembrar que o amor por um animal não precisa ser justificado para ser legítimo.
"Então é isso, é sobre amor, que isso sirva para alguém, alguém que perdeu, alguém que está nesse momento difícil de despedida", ensinou.
