“Não faço a conta pelo número de vitórias, mas pelo projeto que represento.
Se sou o petista destacado pelo partido, pelo presidente, para defender nossas bandeiras aqui mesmo sabendo do perfil médio do eleitor, não me sinto sacrificado por isso.
Tem uma causa maior que me faz vir aqui expor a situação, fazer propostas, reconhecer o resultado da urna eletrônica e continuar servindo o país”.
A sinceridade da resposta de Fernando Haddad à última pergunta da sabatina promovida pelo GLOBO, Valor e CBN deixou claro que o ex-ministro da Fazenda não está disposto sequer a fingir que seu foco neste ano está na disputa paulista.
Seu único objetivo no peito é garantir o melhor palanque possível para a campanha presidencial de Lula no maior estado do país.
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Antes de deixar o Ministério da Fazenda, Haddad tentou por meses se livrar da missão há muito estabelecida pela cúpula do PT e por Lula.
Não conseguiu.
Apesar de ser rejeitado por mais da metade do eleitorado — 58% na última Genial/Quaest, contra 37% de Tarcísio de Freitas —, Haddad ainda era visto no partido como a única alternativa que poderia efetivamente mobilizar parte relevante, ainda que minoritária, do eleitorado paulista.
Para Lula, sair do estado com uma derrota pequena, como ocorreu em 2022, pode ser a chave para a vitória no resto do país.
Em 2018, Jair Bolsonaro foi eleito presidente com 10,8 milhões de votos a mais que Haddad.
Deles, 8,1 milhões de votos de vantagem foram obtidos em São Paulo.
Quatro anos depois, a dianteira bolsonarista no estado caiu para “apenas” 2,7 milhões de votos, e Lula conseguiu sair vitorioso nacionalmente.
A sabatina de Haddad mostrou, no entanto, que a campanha começa de forma um tanto improvisada.
Apesar do preparo de Haddad ao abordar a situação financeira do estado, a falta de propostas ficou evidente na abordagem pouco detalhada nos assuntos que mais preocupam o paulista: segurança, saúde e educação.
E, no que pareceu um ato falho logo no início do encontro, o candidato admitiu que apenas recentemente começou a estudar o quadro paulista:
“Eu estava imerso na Fazenda.
Quando vim para cá, eu não vim sabendo o que estava acontecendo”.
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Hoje, a segurança é de longe a maior preocupação no estado, e também o calcanhar de Aquiles do atual governador.
Apesar de Tarcísio de Freitas ser avaliado positivamente por 39% dos eleitores e negativamente por 20%, o quadro se inverte quando os paulistas são indagados sobre sua atuação na segurança pública: aprovada por 24% e reprovada por 39%.
A menos de 50 dias das eleições, Haddad disse na sabatina que ainda está ouvindo especialistas para aperfeiçoar seu plano de governo.
De propostas objetivas, citou a colocação de câmeras corporais em policiais, os boletins de ocorrência “por zap” e a criação de uma agência ligada ao gabinete do governador para reunir as polícias com representantes da Polícia Federal, Receita, Coaf e Ministério Público.
Para quem se lembra das icônicas propagandas de João Santana na vitoriosa campanha à prefeitura em 2012, a sensação é de vazio.
Nos outros temas centrais para os paulistas — saúde e educação — as propostas foram ainda mais genéricas.
No primeiro caso, Haddad se ateve a criticar o crescimento da fila do SUS.
Na educação, área da qual foi ministro entre 2005 e 2012, defendeu, sem dar detalhes, a realização de concursos para professores e o aumento de escolas em tempo integral.
Embora tenha dito ser contra as escolas cívico-militares, prometeu ouvir a comunidade antes de fechá-las.
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Os melhores momentos de Haddad na sabatina se deram, como era previsível, ao tratar da economia.
Aproveitando-se da rejeição crescente entre paulistas às privatizações de trens, metrôs e da Sabesp, o candidato prometeu cobrar as empresas e “estudar com carinho todas as possibilidades”, mas deixou claro que a ruptura de contratos é improvável: “reestatizar empresa recém-privatizada é um imbróglio medonho”, disse.
O petista defendeu a importância do governo federal para a renegociação da dívida de São Paulo e as grandes obras anunciadas pela gestão de Tarcísio, como o túnel Santos-Guarujá.
A sabatina foi permeada por afagos aos tucanos que comandaram o estado por mais de duas décadas — de Mário Covas a João Doria — e serviu para o petista rebater as críticas à irresponsabilidade fiscal do governo Lula, repisando o argumento de que recebeu uma herança maldita e focou no combate aos privilégios.
Mais importante, permitiu deixar claro qual sua maior preocupação neste ano:
“O Brasil corre um grave risco institucional.
Eu não sei se todo mundo conhece o Flávio Bolsonaro como eu conheço.
Esse rapaz é um risco para o país do ponto de vista econômico, social, internacional.
Ele é um problema muito grande e eu não posso conceber a hipótese dele assumir a presidência da República”.
