Análise: escolha de samba na Viradouro passa pela letra

Análise: escolha de samba na Viradouro passa pela letra 'M', de memória coletiva

Fonte: Bandeira da fonte

“Senta, que lá vem história”.
O clássico bordão do extinto programa infantil da TV Cultura “Rá-tim-bum”, xodó de quem cresceu nos anos 1990, poderia tranquilamente se relacionar com “Griô”, enredo que a Viradouro vai contar em 2027 na Sapucaí.
Mas com uma diferença: quem esteve em Niterói, na quadra da atual campeã do carnaval no sábado (29), durante sua disputa de sambas, não teve motivo para ficar sentado em momento algum.
Foram apresentadas oito obras, que tiveram, pela primeira vez, a oportunidade de ser executadas diante da comunidade da Viradouro.
E também sob o olhar cuidadoso e atento de Marcelinho Calil, presidente da agremiação, acompanhando cada passagem dos concorrentes com um olho no palco e outro na receptividade da quadra.
De forma geral, todos os sambas cumpriram bem a missão de traduzir em letra e melodia a sinopse apresentada pelo carnavalesco Tarcísio Zanon e pelo enredista João Gustavo Melo.
Do surgimento mitológico da oralidade e da figura do griô, passando pela disseminação da palavra em terreiros, rodas de jongo e tambores de congo, até chegar à contação de histórias na Sapucaí.
Cada samba apresentado, a sua maneira, cumpriu à risca a missão de abraçar a proposta do enredo.
Mas, inegavelmente, três apresentações confirmaram a repercussão de favoritismo que já era ventilado, principalmente nas redes sociais.
Curiosamente, três parcerias lideradas por compositores com iniciais de letra “M”, de memória coletiva: Mocotó, Mattos e Macedo.
O samba de Mocotó & Cia.
talvez tenha sido aquele com performance mais convincente, especialmente pela forma como foi abraçado para além de sua torcida.
Seu refrão do meio, com linha melódica que remete a uma ciranda, é de uma delicadeza ímpar e resume com excelência a essência do enredo: “Eu fui griô à luz de um baobá/Contando histórias de emocionar/Em volta dele mais de mil crianças/A cantar lembranças ao som do korá”.

Outra passagem memorável o trecho antes do refrão principal, que exalta o carnaval das escolas de samba como bastião da oralidade contemporânea: “Samba, escola viva, entidade/Arquivo preto da memória/Grito à ancestralidade”.
Dos versos mais bonitos deste pré-carnaval.
A obra de Claudio Mattos & Cia.
também vai bem ao se referir às agremiações, no trecho que encaminha para o refrão: “Lembra quantos enredos já pisaram na avenida?/Um relicário de lembranças esquecidas/Que a minha arte é capaz de revelar pro mundo inteiro/Hoje, declamo tais versos feito poesia/São histórias que encontram melodias/Renas¬cidas no sagrado terreiro”.

No entanto, a cabeça do samba estritamente em iorubá e o refrão do meio, ambas as passagens em ritmo mais acelerado, podem ser desafiadoras para o canto coletivo.
E talvez tenham proporcionado temperatura um pouco mais amena do que a esperada durante a apresentação na quadra.
Já o samba de Lucas Macedo & Cia., que encerrou a noite de performances, merece destaque por sua melodia bastante original, especialmente no refrão do meio, no verso “Sabedoria no tom balafon e korá”.
Originalidade, é claro, que gera seu ônus e alguns narizes torcidos na quadra.
A cabeça do samba, também de linha melódica arrojada, chama atenção por seu ritmo envolvente.
E no refrão principal, aplausos para a dobradinha de versos “Viradouro vira verso/Cada verso vira vida”.
Ainda mais sendo cantado por uma escola que flerta bastante com trocadilhos com seu nome nas letras dos seus sambas.
Por que não mais um para a discografia?
Além dos três “M” com pinta de favoritos, merece menção especial a parceria de PC Portugal & Cia.
com uma apresentação de extrema competência e samba com letra bastante inspirada.
Como, por exemplo, na passagem “Na cabaça de Ananse o saber se derramou/Cada conto é um filho que Nyame semeou”, que resume perfeitamente o surgimento das histórias que viriam ser espalhadas pelos griôs.
Com mais duas etapas até a final, agora é aguardar qual história a Viradouro vai querer contar em seu concurso de sambas.
Mas com uma certeza: a de que há obras em sua safra capazes de levar a escola a mais uma disputa pelo campeonato.
“Mais uma disputa”, com a letra “M”.