A economia brasileira perdeu fôlego no segundo trimestre, com forte desaceleração em especial do consumo das famílias, mas também do investimento, pelo lado da demanda, e dos serviços e da indústria, pelo lado da oferta.
Os juros nas alturas e o endividamento de famílias e empresas afetaram o resultado do Produto Interno Bruto (PIB), que avançou 0,5% em relação aos três meses anteriores, feito o ajuste sazonal.
No primeiro trimestre, o crescimento foi de 1,1% nessa mesma base de comparação.
A exceção foi a agropecuária, que viu a expansão acelerar de 2,3% no período de janeiro a março para 2,8% no de abril a junho.
Do ponto de vista da atividade econômica, há espaço para o Banco Central (BC) prosseguir no ciclo de queda dos juros, ainda que com cortes pequenos da Selic.
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Os economistas esperavam uma perda de gás do consumo das famílias, mas o resultado surpreendeu.
O principal componente do PIB pelo lado da demanda recuou 0,4% em relação ao primeiro trimestre, depois de crescer 0,8% nos três meses anteriores.
A expectativa era de alta de 0,6%.
Com o impacto do conflito sobre o Oriente Médio sobre os preços do petróleo, o BC foi mais conservador na condução da política monetária, e a Selic caiu apenas de 15% para 14% ao ano ao longo de 2026, mantendo-se próxima a 10% em termos reais (descontada a inflação esperada para os próximos 12 meses).
Além da inflação ainda distante da meta de 3%, as incertezas sobre as contas públicas mantêm os juros em níveis muito altos, encarecendo o custo de empréstimos e financiamentos, um problema num cenário em que os consumidores se encontram muito endividados.
Em julho, 82% das famílias brasileiras tinham algum tipo de dívida a vencer, o percentual mais elevado da série histórica da pesquisa da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).
O consumo das famílias caiu mesmo num ambiente em que o mercado de trabalho ainda é forte e após a entrada em vigor da isenção de Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil, o que dá uma medida do efeito dos juros altos e do endividamento elevado.
O investimento, por sua vez, também desacelerou com força, mas ainda teve variação positiva no segundo trimestre.
A formação bruta de capital fixo (FBCF, medida do que se investe em máquinas e equipamentos, construção civil e inovação) cresceu 1,2% em relação ao primeiro trimestre, abaixo dos 3,4% dos três meses anteriores.
Os juros altos desestimulam o setor privado a investir, adiando projetos de expansão e modernização da capacidade produtiva.
Os juros altos também castigam muitas empresas - como fica claro pela onda de recuperações judiciais e extrajudiciais em curso no país.
O setor público, num ano eleitoral, deu alguma sustentação ao investimento no primeiro semestre, especialmente pelos gastos dos Estados.
No primeiro semestre, o conjunto dos Estados e do Distrito Federal investiu R$ 49,2 bilhões, o nível mais alto da série histórica, 40,6% a mais do que na primeira metade de 2025, já descontada a inflação, segundo reportagem do Valor publicada nesta semana.
Já o consumo do governo cresceu 0,4%, o mesmo percentual registrado no primeiro trimestre.
Nesse cenário, a chamada demanda doméstica final mostrou forte perda de fôlego no segundo trimestre.
O conjunto formado pelo consumo das famílias, consumo do governo e o investimento (excluindo a variação de estoques) ficou estável no período, depois de crescer 1,2% nos três meses anteriores, segundo cálculos do Goldman Sachs.
Ainda pelo lado da demanda, o setor externo teve contribuição negativa para o crescimento, uma vez que as exportações recuaram 0,8%, enquanto as importações cresceram 1,8%.
Nas estimativas do diretor de pesquisa para a América Latina do Goldman Sachs, Alberto Ramos, o setor externo “tirou” 0,5 ponto percentual da variação do PIB no segundo trimestre.
A demanda doméstica final contribuiu com zero e a variação de estoques colaborou positivamente com 1 ponto percentual.
Pelo lado da oferta, os serviços tiveram alta de apenas 0,2% em relação ao primeiro trimestre, metade do 0,4% registrado nos três meses anteriores.
Os destaques positivos foram os setores de informação e comunicação, com alta de 2,1% e transporte, com 1,1%.
O comércio ficou estável, assim como outras atividades de serviços, que engloba segmentos como serviços às famílias.
Atividades financeiras tiveram recuo de 0,3%.
O peso dos juros altos também ajuda a entender o resultado mais fraco dos serviços, que responde por cerca de dois terços do PIB pelo lado da oferta.
A indústria, por sua vez, sofreu desaceleração ainda mais forte, de 1,2% para 0,1%.
Apenas a indústria extrativa teve crescimento, de 3,4%.
A indústria de transformação recuou 0,4%, mesma queda da construção civil.
O setor de eletricidade, gás, água e esgoto teve baixa de 1,1%.
O efeito da política monetária também afeta a indústria, especialmente o segmento de transformação.
A exceção foi a agropecuária, cujo crescimento passou de 2,3% no primeiro trimestre para 2,8% no segundo.
É um resultado ainda a ser mais bem entendido, que evitou uma desaceleração mais forte do PIB.
O que fica evidente é que os setores não cíclicos da economia, menos afetados pela política monetária, tiveram desempenho melhor.
A expansão de 2,8% da agropecuária e de 3,4% da indústria extrativa foram fundamentais para impedir um número negativo do PIB.
"Excluídos esses dois setores, o PIB teria recuado 0,1% na variação trimestral", aponta relatório do Bradesco.
A herança estatística do segundo trimestre para o PIB de 2026 ficou em 1,8%, segundo cálculos de Ramos.
Isso significa que, se a economia não crescer nada em relação ao nível desse período, o crescimento do ano será de 1,8%.
Ramos manteve a sua projeção para a expansão do PIB em 2%.
A XP, que trabalha com o mesmo número, diz que a sua estimativa tem viés de baixa, esperando que a atividade fique estagnada na segunda metade do ano.
A desaceleração do PIB e em especial a retração do consumo das famílias indicam que há espaço para alguma queda adicional da Selic.
As leituras mais recentes da inflação têm mostrado pressões mais contidas sobre os preços.
As expectativas para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) ainda são um incômodo para o BC, mas parece possível que os juros caiam um pouco mais até o fim do ano.
