Análise: na Unidos da Tijuca, uma disputa de sambas acirrada entre a cabeça e o coração - QTU Questões do Universo

Análise: na Unidos da Tijuca, uma disputa de sambas acirrada entre a cabeça e o coração

Fonte: Bandeira da fonte

Noite fria, corações aquecidos.
Talvez essa seja a melhor definição do ambiente na quadra da Unidos da Tijuca, nesta quinta-feira (27), em mais uma etapa da disputa de sambas de enredo para 2027, quando a escola do Borel levará à Sapucaí o enredo “Cabeça do santo”, adaptação do best-seller da escritora cearense Socorro Acioli.
O desfile está sendo desenvolvido pelo carnavalesco Lucas Milato, em sua estreia na agremiação, ao lado dos enredistas Leandro Thomaz e Thayssa Menezes.
Em uma espécie de quartas de final do concurso, cinco sambas se apresentaram na noite, sob escrutínio constante do presidente Fernando Horta, há 26 anos ininterruptos no comando, e nome à frente de três dos quatro troféus de campeã que a Tijuca ostenta em sua quadra (2010, 2012 e 2014).
Entre um charuto e outro, com o caderninho das letras dos concorrentes sempre à sua frente sobre a mesa, Horta teve no camarote ao lado do seu a presença concentrada da imprensa carnavalesca, em meio a um raro convite enviado pelo veterano e centralizador presidente em busca de opiniões jornalisticamente especializadas sobre as obras em disputa.
Por sua vez, o Repinique se fez presente e deparou-se com uma competição acirrada.
Mas que deixa a impressão de que, na escolha do samba para 2027, assim como Samuel, protagonista do romance de Socorro Acioli, a Unidos da Tijuca terá de equilibrar a cabeça (dela, não do santo) e o coração.
Duas parcerias, em especial, chamam levemente mais atenção na safra tijucana.
Uma, de linha melódica familiar, letra delicada e remetente a tempos vitoriosos da escola; a outra, com personalidade forte, harmonia mais fervente, e refrãos extremamente marcantes.
A começar pelo samba 09, de Ian Ruas & Cia., que talvez seja a opção mais segura de escolha para a Tijuca.
A saga de Samuel, de fato, é muito bem contada em sua letra, enquanto a linha melódica vincula tranquilamente o tijucano a obras queridas dos anos 2010, especialmente o samba de 2012, em homenagem a Luiz Gonzaga e que levou a escola ao título.
A puxada para o refrão, inegavelmente, pede braços abertos, pulmão cheio e olhos marejados, ao dizer: “Tijuca, ao lume do teu candeeiro/O sonho de um simples vaqueiro/Que mãe batizou Samuel/Tijuca, milagre encontrei em Rosário/No Rio, o teu santuário/Meu Juazeiro é o chão do Borel”.

Por outro lado, a mesma melodia que familiariza e acalenta pode levar a escola à estrada do lugar-comum.
A levada do samba 09 não tem grandes momentos de explosão e talvez gere preocupação em termos de energia para os desfilantes na hora H, ainda mais sem haver ainda o comparativo de escolha das outras 11 escolas.
Energia que, por sua vez, não falta ao samba 16, da parceria de Arlindinho Cruz & Cia.
A letra assanhada e cheia de bom humor dialoga com uma das vertentes do livro de Acioli, que é a personalidade faceira de Samuel.
Os versos “Achei um canto bão pra esticar os pé/E acordei com as muié me pedindo matrimônio” são divertidíssimos.
Outro trunfo da obra são seus refrãos cheios de personalidade, harmonia e melodias diferenciadas, flertando frontalmente com o xaxado.
Diz o refrão principal: “Êta cadência arretada/Escola danada do meu coração/ Ti-ju-ca/Vem e me vira a cabeça/Que Santo Antônio abençoe o pavão”.
Chiclete purinho.
Mas é no refrão do meio que está o mais redondo resumo da essência do livro: “Joana queria José/Mas Zé só pensava em Maria/Maria não sabe o que quer/Nem com quem se casaria/Foi tanto causo de amor que apareceu/No fim das contas vi que o santo era eu”.

No entanto, o frenesi de ritmo e letra podem cobrar caro à obra.
Inegavelmente, há uma preocupação geral das diretorias das escolas diante do olhar do júri, tradicionalmente não muito afeito a regionalismos em letras, especialmente quando afetam a ortografia.
E seria necessário estar atento também à harmonia da primeira parte do samba, de fato muito acelerada e que precisaria ser entoada de forma clara por quase 3 mil pessoas na pista de desfile.
Entre os favoritos sambas 09 e 16, há claramente um duelo entre uma escolha técnica, mais segura e cerebral, de boa qualidade, mas que talvez não vá causar tanto burburinho no pré-carnaval, e outra, mais ousada, que chama atenção por sua temperatura e intensidade, mas que pode demandar arestas que arriscariam podar a sua grande personalidade.
Por fora, correm os outros três sambas, que cumprem bem a missão de contar a saga de Samuel em Caridade, no Ceará, e tiveram passagens muito agradáveis na noite de disputa na quadra.
No samba 05, de Samir Trindade, merecem destaque os versos iniciais, que traçam paralelo entre a história de Samuel e sua mãe, Mariinha, e outros tantos rapazes nos morros cariocas, filhos de Marias, e envolvidos em narrativas de fé e superação.
Ah, o pós-refrão principal também é ponto alto e fica martelando na cabeça com seu “rodeia, meu Santo Antônio, rodeia”.
Já a parceria de Lico Monteiro, o samba 07, tem no refrão principal seu trunfo, com uma espécie de promessa: “Eu digo amém, o milagre vai chegar/E muito além faço o povo acreditar/Sou nordestino que vai à luta/A missão será cumprida, Tijuca”.
Sem contar o privilégio de poder contar com Wander Pires como o intérprete a defender o samba durante a apresentação.
E, por fim, o samba 01, da parceria de Leandro Gaúcho, tem nos versos emocionados a caminho do refrão principal o grande chamariz: “Meu pai/Quantas vezes te esperei ao pé da porta?/Pedi todo dia, roguei sua volta/E veja só, sempre esteve aqui/É hora, pai, de seguir pro meu Juazeiro/Levando um Rosário dentro do peito/Outro milagre ainda está por vir”.
Sem contar o sarcasmo do refrão do meio, em tom de denúncia, ao dizer que Samuel “atende pedido’, mas tudo tem preço, pois ele não é santo.
Longe disso, aliás.