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Análise: Peixão, chefe do TCP, recorre a instrumentalização da fé, tecnologia de guerra e opressão

Fonte: Bandeira da fonte

Quando se fala em Terceiro Comando Puro (TCP), um único nome vem à cabeça: Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão, hoje no topo da lista de criminosos mais procurados pela polícia fluminense.
Sua trajetória à frente da região conhecida como Complexo de Israel ilustra um fenômeno mais amplo no crime organizado: a incorporação de tecnologia militar ao cotidiano das disputas territoriais, num processo que combina inovação logística e escalada de violência.
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Peixão foi pioneiro no uso de drones pelo tráfico.
A princípio, os aparelhos serviram para a vigilância dos acessos às comunidades sob seu domínio.
Depois passaram a ser usados no reconhecimento de territórios inimigos, sobretudo do Comando Vermelho (CV), trazendo dados para orientar invasões com o objetivo de anexar favelas.
A mais recente função marca um salto qualitativo e de terror: os drones passaram a lançar granadas contra alvos inimigos, sem qualquer critério que resguarde moradores.
É a transposição, para o espaço urbano, de uma lógica de guerra que dispensa a distinção entre combatente e civil.
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Essa escalada tem paralelo na engenharia das barreiras físicas que caracterizam o Complexo de Israel.
Peixão já se destacava por métodos pouco convencionais de contenção, como valas profundas que remetem aos fossos de fortificações medievais.
Agora, soma-se a esse repertório uma inovação que pegou a segurança pública de surpresa: veículos nas barricadas equipados com explosivos acionados remotamente.
A engenhosidade bélica ajuda a explicar por que o TCP tem resistido a incursões de rivais e da própria polícia.
Peixão nunca foi preso.
O grau de ousadia do grupo transparece também nas ordens atribuídas ao chefe do Complexo de Israel para atirar contra veículos em vias de grande circulação que margeiam suas favelas, como a Avenida Brasil, a Linha Vermelha e a Rodovia Washington Luís, e assim afastar a polícia.
Autoridades classificaram a prática como terrorismo, numa sinalização de que o enfrentamento ao TCP precisa ter enquadramento jurídico mais duro.
religião como arma
Há, ainda, uma dimensão simbólica na liderança de Peixão.
Ao cultivar a imagem de evangélico fiel, frequentador de cultos, ele constrói capital social junto a uma parcela expressiva dos moradores que professam a mesma fé, quase um terço da população do estado do Rio, segundo o Censo de 2022 (32%).
Essa aproximação identitária alimenta, na prática, um ambiente de maior intolerância religiosa, com reflexos sobre religiões de matriz africana e sobre o catolicismo nos territórios sob domínio do TCP.
É dele a ordem de expulsar moradores, destruir terreiros e proibir festas religiosas.
A instrumentalização da fé, nesse contexto, funciona como mais uma ferramenta de legitimação do poder armado, ao lado dos drones e das barricadas.
Está na Constituição de 1988: o Brasil é um Estado laico.
Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão, é chefe do tráfico no Complexo de Israel
Reprodução
Para Peixão, só suas regras são válidas: não jogar lixo nos becos e vielas, não adquirir produtos como pães e outros gêneros alimentícios de fora, apenas os fornecidos pelo próprio tráfico, não usar celular para filmar, não usar telefone fixo.
Reza a lenda — ou não — que o criminoso tem um equipamento capaz de rastrear ligações por celular.
E que ele teria proibido o telefone fixo para dificultar informes à polícia ou a rivais sobre sua localização.
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O descumprimento das determinações é pago com a vida.
Muitos acabaram dentro de um saco, jogados no valão nos fundos da favela de Vigário Geral.
Dos drones às barricadas, da fé instrumentalizada às normas de conduta impostas a ferro e fogo, Peixão não apenas desafia o Estado brasileiro: ele o substitui por um Estado paralelo.