Desde a escolha do representante brasileiro na disputa por uma indicação ao Oscar, em setembro do ano passado, ficou a impressão de que havia, entre os integrantes da Academia Brasileira de Cinema, uma resistência a “O agente secreto”.
Considerando o quanto essa resistência foi vocal e quanto tempo perdurou, também fica a sensação de que ela tem pouco a ver com o cinema.
Prêmio Grande Otelo: Confira lista completa de vencedores
Dirigido pelo pernambucano Kleber Mendonça Filho, “O agente secreto” conquistou mais de cem prêmios em todo o mundo, inclusive no Festival de Cannes e no Globo de Ouro.
Seu protagonista, o baiano Wagner Moura, foi outro amplamente premiado.
O filme chegou ao Oscar com quatro indicações, entre elas as de melhor longa-metragem e ator.
Durante meses, a produção foi assunto nas principais publicações de cinema do planeta, tanto por sua qualidade artística quanto por sua dimensão política.
Cinema não é só o que está na tela, também importa o diálogo que uma obra estabelece com seu tempo.
Por isso, “O agente secreto” apareceu em sucessivas listas dos melhores filmes do ano.
E não apenas entre as produções de língua não inglesa: disputou prêmios e espaço com trabalhos de alguns dos principais cineastas do mundo, coroando os 25 anos de carreira de Mendonça Filho.
Ainda assim, a Academia Brasileira de Cinema — que, no ano passado, só escolheu “O agente secreto” como representante do país depois de intensa mobilização na imprensa e nas redes sociais — considerou outro filme e outro ator mais merecedores dos troféus Grande Otelo.
E nada disso é uma crítica aos vencedores da cerimônia realizada no Rio de Janeiro na noite desta terça-feira (4).
O que está em questão é a transparência dos critérios e a coerência de decisões tomadas pelos integrantes de uma instituição que representa (todo) o cinema brasileiro.
Até o Oscar se atualizou há alguns anos, e hoje reflete melhor a produção audiovisual do mundo.
Talvez falte o mesmo por aqui.
Análise: Prêmio da Academia Brasileira de Cinema reafirma resistência a 'O agente secreto' e peca em refletir momento do cinema nacional
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