O mundo do futebol entrou em guerra.
A Fifa apresentou nesta semana um plano que, na prática, coloca a Copa do Mundo sob controle de investidores privados americanos.
A Europa rejeitou a proposta e lançou, nesta quinta-feira (30), a bomba atômica esportiva: ameaçou abandonar as competições de seleções da Fifa.
O caso expõe o racha político no Ocidente e pode melar a Copa do Mundo feminina, prevista para o ano que vem no Brasil.
A proposta confronta duas concepções diferentes do esporte.
Os EUA o tratam principalmente como um negócio.
Os times são empresas franqueadas, não há rebaixamento, as equipes mais fracas são ajudadas pelo sistema de “draft”, o que equilibra o torneio.
O modelo europeu tenta combinar o lado esportivo com o do negócio.
É impensável para um europeu, por exemplo, que um time de Londres se mude para Paris por conveniência de negócio, como acontece nos esportes americanos.
Mas essa disputa não é apenas por uma concepção do esporte.
É principalmente política.
Na Copa do Mundo masculina, o presidente Donald Trump conseguiu reverter a suspensão de um jogador americano por cartão vermelho.
Pareceu grave.
Mas, agora, com a ajuda do presidente da Fifa, Gianni Infantino, investidores americanos (incluindo a família do genro de Trump) querem assumir o controle do esporte que os europeus dominam e consideram seu.
Isso por meio de uma espécie de aquisição hostil.
A proposta foi apresentada como um pegar ou largar.
As associações nacionais, que votam na Fifa, receberiam dinheiro em troca da aprovação.
É difícil acreditar que Trump não esteja por trás desse negócio, até pela relação próxima que exibiu com Infantino.
Desde que assumiu, prometendo confrontar a China, o seu alvo principal tem sido os aliados europeus.
Também é improvável que a reação da Uefa não tenha sido coordenada com os principais governos europeus.
O novo premiê britânico, Andy Burnham, já havia dito, na terça-feira (28), que a proposta significaria que a Fifa “se vendeu”.
Não é apenas um jogo
Os europeus engoliram muitos sapos para tentar apaziguar Trump.
Aceitaram tarifas comerciais impostas por Washington.
Aceitaram dobrar o seu gasto com defesa para manter a Otan (aliança militar ocidental).
Foram humilhados de diversos modos pelo presidente americano, que disse, por exemplo, que os líderes europeus eram fracos e que os porta-aviões britânicos pareciam de brinquedo.
Viram os EUA incluí-los numa investigação fantasiosa por utilização de trabalho forçado.
Eles já haviam se negado a apoiar Trump na guerra no Irã.
Mas, desta vez, resolveram reagir com agressividade.
Pela duríssima reação da Uefa, as seleções europeias deixam de participar dos torneios da Fifa, enquanto a proposta de passar o controle da Copa a investidores privados não for retirada.
Se os europeus, literalmente, tirarem o time de campo, isso pode afetar já a Copa do Mundo feminina sub-20, que começa, ou começaria, em 5 de setembro na Polônia.
E pode ainda esvaziar ou inviabilizar a Copa do Mundo feminina do Brasil, no ano que vem.
Trata-se de uma ameaça de rachar o comando do futebol mundial.
Os europeus ficariam com o filé mignon, a Fifa e seus investidores, com o resto.
Isso pode transformar profundamente o esporte mais popular do planeta.
A Concacaf (confederação de futebol das Américas do Norte, Central e do Caribe) anunciou, nesta quinta, que não apoia a proposta da Fifa.
A Confederação Asiática disse que é necessário consenso.
Ou seja, é possível que o plano de Infantino naufrague.
Mas a disputa mostra que Trump continua seu ataque às instituições mais caras aos europeus.
Ele já inutilizou a Organização Mundial do Comércio (OMC, com sede na Suíça), já adotou sanções contra o Tribunal Penal Internacional (TPI, com sede na Holanda).
Agora, tenta capturar a Fifa.
