Análise: sabatina mostra que quanto mais entra em cena o Brasil concreto, menos mínimo fica o Estado proposto por Zema - QTU Questões do Universo

Análise: sabatina mostra que quanto mais entra em cena o Brasil concreto, menos mínimo fica o Estado proposto por Zema

Fonte: Bandeira da fonte

Romeu Zema chegou à sabatina dos jornais O GLOBO e Valor e da rádio CBN com um discurso conhecido: cortar gastos, fazer reforma administrativa, privatizar estatais, rever incentivos fiscais e reduzir o peso do Estado.
É uma narrativa que encontra eco num eleitor cansado de desperdício, imposto e serviço público ruim.
Mas aconteceu algo interessante ao longo da entrevista: quanto mais as perguntas saíram do Estado abstrato e entraram no Brasil concreto, menos mínimo ficou o Estado proposto por Zema.
A Caixa Econômica talvez tenha sido o melhor exemplo.
Em maio, Zema dizia que, se eleito, iria “privatizar tudo”.
Na véspera da sabatina, em entrevista à Globo, voltou a defender a privatização de Petrobras, Banco do Brasil e Caixa.
Menos de 24 horas depois, quando perguntado diretamente sobre Caixa e Embrapa, respondeu que não privatizaria nenhuma das duas.
Sobre a Caixa, foi além: disse que ela funciona como uma espécie de braço do Ministério da Assistência Social.
Isso não é apenas uma contradição de campanha.
É o Brasil real corrigindo a ideologia.
O mesmo aconteceu em outros temas.
Quando o assunto foram programas sociais, Zema disse que são essenciais e devem ser mantidos, embora defenda um pente-fino contra fraudes.
Na Saúde e na Educação, em vez de simplesmente defender menos gasto, propôs que a distribuição dos recursos considere critérios demográficos e as diferentes necessidades dos municípios.
As pesquisas do Locomotiva mostram há anos que o eleitor da classe C não cabe na velha pergunta sobre Estado mínimo ou Estado máximo.
Esse brasileiro pode reclamar do imposto pela manhã, vender pelo WhatsApp à tarde e, à noite, depender do SUS para atender a mãe.
Pode preferir trabalhar por conta própria e querer escola pública funcionando para o filho.
Pode desconfiar da máquina pública e saber que, sem ela, fica sozinho quando a vida aperta.
A classe C aprendeu, na prática, que o Estado pode ser ineficiente e indispensável ao mesmo tempo.
Zema foi melhor quando conseguiu traduzir a planilha para o boleto.
Ao relacionar gasto público, juros altos e prestações mais caras de motos, celulares e outros bens financiados, falou numa linguagem que chega à maioria.
O brasileiro não compra “equilíbrio fiscal”.
Compra geladeira.
Não paga “prêmio de risco”.
Paga prestação.
Mas é justamente aí que surge a pergunta: cortar qual gasto?
Se for fraude, privilégio e desperdício, há audiência.
Se a consequência for uma consulta que demora ainda mais no SUS, uma creche sem vaga ou uma polícia que não chega, a conversa muda.
Quem tem renda alta consegue pagar pela ausência do Estado: plano de saúde, escola particular, segurança, carro, previdência.
Para os mais pobres, a ausência do Estado não é uma tese econômica.
É uma porta fechada.
Por isso a mudança sobre a Caixa é tão reveladora.
Quando Zema reconhece que ela cumpre uma função social que o mercado não necessariamente substitui, muda também a pergunta.
Já não se trata apenas de saber se uma empresa deve ser pública ou privada, mas de entender onde o mercado consegue chegar sozinho e onde alguma presença pública continua necessária.
É esse pragmatismo que encontro quando escuto o eleitor popular.
Ele não acorda querendo saber qual é o tamanho ideal do Estado.
Quer saber quem consegue destravar sua vida.
Zema tem razão ao dizer que um Estado caro e ineficiente também pune os pobres.
Seu desafio é reconhecer o outro lado da equação: a ausência do Estado pune esses mesmos brasileiros primeiro.
A eleição de 2026 não será um plebiscito entre Estado máximo e Estado mínimo.
Será uma disputa sobre qual Estado aparece quando a vida aperta.
E, curiosamente, quanto mais Zema respondeu sobre esse Brasil de verdade, mais perto chegou dessa conclusão.