Após dois anos estudando música na França, Antonio Adolfo retornou ao Brasil em 1975 desejando lançar um disco instrumental.
Mas as gravadoras não queriam o que ele queria.
Para elas, o pianista e compositor deveria retomar o que fizera sucesso anos antes: coisas como a canção “Sá Marina” (1968), o pop dançante da banda Brazuca (1969 e 1970) e o soul de “BR-3”, que estourou no Festival Internacional da Canção de 1970.
— Eu tinha mudado muito a minha cabeça, aprendido outras coisas — lembra ele.
— Fiz (o disco novo) sem muita pretensão de vender, de fazer sucesso.
Fiz o que queria e me senti muito bem com isso.
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O LP só sairia em 1977 com o nome de “Feito em casa” e ganharia a fama de ser a primeira produção independente da história fonográfica do país.
Na verdade, como o próprio Adolfo diz, Tim Maia já tinha feito isso no ano anterior com “Tim Maia Racional”.
Mas foi “Feito em casa” que criou um movimento e abriu caminho para Boca Livre, Danilo Caymmi, Francisco Mário e muitos outros lançarem seus trabalhos.
O músico está lançando mais um álbum (também em CD) produzido por ele mesmo — em seu selo AAM Music.
“Balaios” reúne nove composições suas, de estilos diversos, todas em versão instrumental.
Adolfo volta a gravar com os instrumentistas de primeira linha que o têm acompanhado: Lula Galvão (guitarra e violão), Jorge Helder (contrabaixo), Rafael Barata (bateria e percussão), Jessé Sadoc (trompete), Danilo Sinna (sax alto), Marcelo Martins (sax tenor e flautas), Rafael Rocha (trombone) e André Siqueira (percussão).
— Desde que comecei a me autoproduzir, gostei de fazer, porque tenho liberdade de gravar o que quiser, lançar o que quiser — exalta o pianista, que prefere “autoprodução” a “produção independente”.
— A expressão “produção independente” ficou em evidência, e as gravadoras pequenas usavam para conseguir patrocínio.
No meu caso, eu produzo meu disco, não lanço disco de ninguém, não quero ser empresário de ninguém.
Capa de 'Balaios'
Divulgação
Adolfo, que completará 80 anos em fevereiro de 2027, era ousado desde jovem.
Aos 17, já tocava no berço do samba-jazz, o Beco das Garrafas, em Copacabana.
Ainda em 1964, formou o Trio 3-D, que lançaria dois discos.
— Eu era atrevido, fazia improviso.
Quando ouço hoje, eu digo: “Você era metidinho, hein, Antonio?” — orgulha-se.
Ditadura contra ‘BR-3’
Já o Conjunto 3-D, de 1967, tinha Beth Carvalho e Eduardo Conde como cantores.
Beth o apresentou a Tibério Gaspar, letrista com quem viria a compor 45 músicas.
Uma das primeiras foi “Sá Marina”.
— Mostrei de manhã para o (Wilson) Simonal e à noite ele já estava cantando na TV Record — recorda ele, que viu “Sá Marina” ser lançada por Sergio Mendes nos EUA e depois ser gravada por Stevie Wonder, Herp Albert e outros.
— Essa música é o meu cartão de visita.
Em 1969, nasceu outro sucesso com Tibério: “Teletema”, incluído na trilha da novela “Véu de noiva”, da TV Globo.
E, em 1970, o incendiário “BR-3”, que venceu o festival e enfureceu a ditadura.
Tony Tornado interpretou no Maracanazinho, ao lado do Trio Ternura, de camisa aberta e punho cerrado, numa alusão ao movimento Panteras Negras, de negros americanos.
— Escondi o Tony na minha casa por cerca de um mês — conta Adolfo.
— Implicaram também com a letra, que tinha a ver com LSD.
O Tibério disse que eram flashes da vida, sonhos multicoloridos, que ninguém estava fazendo apologia.
O clima pesou.
Tibério foi morar um tempo no interior de Goiás.
Adolfo parou de gravar e acabaria passando um período na Europa.
Das nove faixas de “Balaios”, quatro são parcerias com Tibério, mas sem letra.
“Meu canto” foi a última criação do letrista, que morreu em 2017, aos 73 anos.
Da gravação de agora participa Leo Gandelman no sax alto.
Já “Claudia”, que conta com a canja do guitarrista californiano Thom Rotella, é uma bossa nova dos anos 1960.
Do final da década é “Visão”, que, também em versão instrumental, foi gravada em 1969 pelo gaitista belga Toots Thielemans no disco que dividiu com Elis Regina na Suécia.
Na época, Adolfo tocava com Elis.
Desde 2013, o pianista lançou, pelo menos, um álbum por ano.
As gravações — em apenas três dias — são sempre no Brasil, mas o lançamento mira mais o exterior.
Seu site está todo em inglês, e “Balaios”, em grande parte também, com direito a tradução fonética do título: “bah-lie-ohs”.
Segundo ele, os discos tocam em rádios de jazz nos EUA e entram na parada Jazz Week.
— Só estou fazendo discos novos porque eles têm bons resultados.
Se não tivesse retorno, não seria louco de ficar fazendo — diz Adolfo, que monitora como suas composições são utilizadas no exterior.
— Às vezes usam sem autorização em filmes e séries, falo com o advogado e consigo uma grana.
Em outras vezes, pegam um pedaço da música e, a partir daí, fazem composições derivadas.
Pagam, e eu ganho royalties enquanto aquela derivada estiver rodando.
Adolfo passou grande parte dos últimos anos na Flórida.
Agora, pretende ficar mais no Rio, onde tem uma conhecida escola de música, criada em 1985.
Suas filhas Carol Saboya e Luisa Saboya estão à frente.
Quer inscrever mais seus discos no Prêmio da Música Brasileira, que ganhou duas vezes.
Também tem dez indicações ao Grammy Latino e uma ao Grammy internacional.
Antonio Adolfo lança disco instrumental por seu selo e mira mercado internacional: 'Liberdade de gravar o que quiser'
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