Aos 69 anos, Christiane Torloni reflete sobre idade e sonhos:

Aos 69 anos, Christiane Torloni reflete sobre idade e sonhos: 'não quero ter dívidas comigo'

Fonte: Bandeira da fonte

Após 50 anos de carreira, Christiane Torloni poderia parar de trabalhar se quisesse, mas há algo que ainda desperta sua vontade de subir aos palcos ou estar em frente às câmeras.
Sucesso visto por mais de 200 mil pessoas no Brasil e em Portugal, a peça "Dois de nós", em que atua com Antonio Fagundes, Thiago Fragoso e Alexandra Martins, está em cartaz no Rio de Janeiro.
Segundo ela, é a mesma força que a move a seguir buscando primeiras vezes: este ano, a atriz começou a fazer aulas de surfe, realizando um desejo antigo.
Em cartaz: Julia Lemmertz e Orã Figueiredo são milionários falidos em comédia que estreia no Rio
Crítica: ‘Anunciação’ desvia dos clichês dos musicais da MPB ao mergulhar de cabeça no universo criativo de Alceu Valença
— Graças a Deus construí uma vida que me permite ficar em casa, mas não quero ter dívidas comigo em nenhuma área.
Desde criança queria fazer surfe e decidi que não ia ficar com essa lenda na minha vida.
Envelhecer é essa sensação de dever cumprido com o passado, mas sem perder a curiosidade pelo futuro — diz.

A reflexão dialoga com a própria discussão da peça, Pedro Paulo (Fagundes) e Maria Helena (Torloni), um casal na casa dos 70 anos, se reencontra com sua versão 30 anos mais jovem, interpretada por Thiago e Alexandra.
Na trama, enquanto o marido reflete sobre como seu machismo o limitou ao longo da vida, Maria Helena repassa uma trajetória que nunca ficou circunscrita ao casamento.

Christiane Torloni e Antonio Fagundes em cena de "Dois de nós"
Divulgação/Renata Casagrande
— A Maria Helena tem uma curva super bonita no espetáculo.
Ela vem como uma mulher da geração dos anos 70, 80, criada para ser doméstica, casada com um cara super bem-sucedido, mas ela vive uma experiência na vida que faz ela ter que cuidar da própria vida, dos filhos, ir para a frente, se tornar uma mulher, como eu, dona do seu destino — reflete a atriz.

O desejo de experimentar coisas novas, não se limita ao universo pessoal.
Nos últimos anos, Christiane também se aproximou de projetos ligados à preservação da Amazônia e à educação ambiental.
Ela cita o filme "Amazônia: o despertar da florestania", dirigido por ela e Miguel Przewodowski, e disponível no Globoplay, como um dos trabalhos dos quais mais se orgulha.
— Eu, como uma pessoa da cultura, já fiz algumas coisas ligadas à democracia no Brasil.
Depois comecei a fazer todo um trabalho de entender o que é essa história da Amazônia, da preservação da Amazônia.
Tem trabalhos que eu me orgulho muito de estar fazendo — conta.
Já a jornada no surfe começou de forma bem espontânea.
Numa tarde, comprou um maiô num shopping e decidiu ligar para uma das três escolas de surfe no litoral de Santos, em São Paulo, que encontrou no Google, para marcar uma aula.
Logo no primeiro dia, já mostrou que leva jeito para a coisa, pegando sete ondas.
A experiência prévia com o wind surf e o stand-up paddle foram essenciais, mas sempre esteve determinada a evoluir ainda mais:
— Estou aprendendo a ler onda como se aprende a ler um livro.
E não é para ganhar nada com isso, é per piacere, por prazer.
Minha curiosidade de criança está viva em mim.
Enquanto estiver viva em mim, eu vou ter tesão pelo mar, por gente, pelo palco, pela vida.
Sinônimo de curiosidade é tesão.
Enquanto o olho brilhar, se não for algo que vá me fazer mal, vamos brincar.

E a filosofia vem de casa.
— Há uns anos, fui fazer uma coisa de avó com meu neto: secar ele depois do banho.
E ele me falou: "não, você não precisa fazer isso não, seu melhor trabalho é brincar".
Então o meu negócio é esse.
Tem que brincar no lugar certo, com a seriedade certa, mas não deixar de ter o lúdico na vida — conclui.