Arrumamos tempo para tudo, menos para cuidar do nosso corpo - QTU Questões do Universo

Arrumamos tempo para tudo, menos para cuidar do nosso corpo

Fonte: Bandeira da fonte

Sabe aquela dorzinha de cabeça que nunca passa? Não chega a ser “cinematográfica”, daquelas que exigem quarto escuro, compressa e cancelamento oficial da agenda, mas é chata, persistente.
Você toma um remedinho e segue.
Ou aquela gripe eterna.
Nariz meio entupido, garganta arranhando, imunidade pedindo socorro.
“Deve ser mudança de tempo.” “Deve ser o ar-condicionado.” “Deve ser a idade.” A gente vai encontrando explicações porque, muitas vezes, dá menos trabalho do que encontrar tempo.
Só que o corpo é insistente.
Primeiro, sussurra.
Depois, fala.
Em seguida, sobe o tom.
Até que dá um grito, ou vários.
Em 1893, Edvard Munch pintou uma das imagens mais famosas da História da Arte: “O grito”.
Na tela vemos uma figura que atravessa uma ponte, leva as mãos ao rosto, abre a boca e parece lançar um grito que entorta tudo ao redor.
O céu se contorce, a paisagem ondula, nada parece completamente no lugar.
Munch escreveu que caminhava com dois amigos quando sentiu uma espécie de “grito infinito atravessando a natureza”.
Talvez por isso a imagem seja perturbadora: não sabemos exatamente se aquela pessoa está gritando ou tentando se proteger de um grito que vem de todos os lados.
Mais de 130 anos depois, talvez estejamos todos um pouco dentro daquele quadro.
Só que agora o grito do corpo disputa espaço com ruídos externos.
O corpo manda uma notificação: “Oi, tem alguma coisa errada aqui”.
Antes que a gente consiga abrir, chega um vídeo engraçado.
Dopamina.
Risada.
E-mail.
Reunião.
Criança chorando.
Trabalho.
Leitura atrasada.
Happy hour.
Série nova.
E o corpo:“Alô?”.
A gente:“Depois vejo isso”.
O problema é que o corpo não arquiva conversa.
Ele grita.
O que pressupõe que, antes disso, houve uma longa negociação que, por vezes, decidimos ignorar.
Quantas vezes o corpo pediu oito horas de sono e ganhou cinco? Pediu descanso e ganhou café? Pediu silêncio e ganhou Instagram? Pediu uma caminhada e ganhou mais uma reunião?
Até que chega o botão vermelho.
Às vezes, alguma parte do corpo quebra, literalmente.
Às vezes, vem algo mais grave.
E aí paramos.
Não necessariamente porque aprendemos a escutar, mas porque continuar deixou de ser uma opção.
Será que precisamos sempre esperar o grito?
Talvez, a obra de Munch continue tão atual justamente porque é muito fácil reconhecer o desespero quando estamos do lado de fora do quadro.
Com os outros também somos ótimos nisso.
Falamos: “Amiga, você precisa descansar”; “Você está trabalhando demais”; “Você precisa se cuidar”.
Com a serenidade de quem provavelmente está respondendo um e-mail às 23h47.
De fora é sempre mais fácil enxergar.
Difícil é perceber quando somos nós a figura que grita.
E possivelmente seja essa a mensagem que atravessa a ponte de Munch desde 1893 até aqui: não espere precisar colocar as duas mãos no rosto para perceber que alguma coisa está gritando.
O autoconhecimento não termina.
O corpo muda, a vida muda, nós mudamos.
Aquilo que ontem parecia equilíbrio amanhã pode virar excesso.
Nosso bem-viver não está em encontrar uma vida sem barulho, mas em aprender, no meio de tantos ruídos, a reconhecer o próprio grito.