No Pará, artesãos mantêm viva a cultura do Círio de Nazaré, com trabalhos que são produzidos especialmente para a festividade e chegam até mesmo em outros estados.
É o caso do artesão Ronaldo Santos, que confecciona e restaura berlindas e criou uma berlinda exclusiva, que seguirá de Belém para Montes Altos, no Maranhão.
O município possui uma forte devoção a Nossa Senhora de Nazaré, além da presença dos povos originários Krikati, que serão homenageados com palavras da língua Krikati presentes na peça.
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Os dizeres “Aquēhn Cateh” (amor); “A'carēhc” (paz); “Pa'cohneh'cym” (união); e “Pajacryyh” (felicidade) foram entalhados na madeira das colunas da berlinda.
Eles foram escolhidos como forma de fazer com que a sociedade tenha um olhar de comunhão, valorização e preservação dos povos originários, nas palavras do padre Luzimar Moura, de 55 anos, pároco da Paróquia Santa Ana, onde será realizada a 6ª edição do Círio de Nazaré e a primeira com a berlinda Krikati.
Padre Luzimar explica que a representação de características próprias dos povos indígenas na berlinda, com referências à cultura Krikati, se dá pela vontade da paróquia de incluir a todos.
“É uma referência e homenagem aos primeiros habitantes de Montes Altos.
Foi uma percepção de fazer uma inclusão, não só valorização da cultura, mas de proteção espiritual e proximidade com os povos indígenas.
Fizemos uma visita ao cacique da Aldeia São José, que achou muito boa a ideia e autorizou”, conta.
A conexão de fé entre o Pará e o Maranhão, que resultou na criação da berlinda exclusiva, surgiu por meio de um vídeo publicado na rede social YouTube.
“Tenho um canal de vídeos, e foi lá que o Maurício Moura, embaixador do Círio no Maranhão, viu uma berlinda que eu tinha feito.
Ele me ligou e perguntou se eu seria capaz de fazer essa berlinda no tamanho já praticamente original.
Eu aceitei o desafio”, diz o artesão Ronaldo Santos.
Processo
Na construção da primeira berlinda, em 2022, Ronaldo contou com o apoio dos irmãos, da esposa e do cunhado.
O primeiro modelo acabou ficando muito grande, sendo doado para o estado do Tocantins posteriormente.
Já a construção da segunda berlinda é um trabalho conjunto entre Ronaldo, a esposa e o irmão, além de dois alunos do projeto “Do lixo ao luxo”, idealizado pelo artesão, que ensina sobre o trabalho manual.
Ela será utilizada pela primeira vez na procissão do Círio, além de ser utilizada como Glória para a Imagem Peregrina.
O trabalho é feito de forma manual e dedicada, com atenção aos mínimos detalhes (Foto: Ivan Duarte | O Liberal)
Por ser um elemento religioso, o artesão optou por utilizar o cedro, uma madeira considerada bíblica.
Ronaldo detalha que, segundo a tradição religiosa, a cruz carregada por Jesus era feita de cedro, considerada a madeira mais pesada do mundo e que se tornou leve.
Após a escolha do material, vem o processo de criação dos moldes, que inicia com a caixa e a escolha dos desenhos.
Ao todo, são necessários cerca de 45 dias de trabalho com entalhamento, montagem e pintura.
“Quando se arma a berlinda, aplicamos o ouro e ela vai para a parte de envelhecimento, para ficar com a pintura original”, diz.
Por meio do projeto “Do Lixo ao Luxo”, Ronaldo ensina pessoas a restaurarem móveis antigos.
Durante a produção da berlinda, alguns alunos participam dos processos e são ensinados a fazer cortes, desenhos e detalhes inspirados em fotos e demais artigos.
Em 2025, Ronaldo viajou para retocar a pintura da primeira berlinda e encontrou-se com o padre Luzimar Moura.
Enquanto conversavam, o artesão sugeriu que, para este ano, palavras indígenas fossem colocadas na peça.
“Nós fomos à aldeia falar com o cacique, para autorizar.
Aí ele autorizou, pegou as palavras e mandou para a gente colocar”, explica.
[[(com.atex.plugins.image-gallery.MainElement) BERLINDA - CÍRIO DE MONTES ALTOS, MARANHÃO]]
A berlinda de 2026 já está na fase final de produção.
Nessa quinta-feira (20), Ronaldo finalizou a colocação das fitas de LED, alimentadas por uma bateria de carro.
Posteriormente, o artesão deve incluir os vidros laterais e a porta para entrada e saída da Imagem Peregrina.
Círio de Montes Altos
Em Montes Altos, no Maranhão, o Círio é realizado sempre no segundo domingo de setembro.
Este ano, a programação religiosa inicia no dia 5 com a missa de apresentação do manto e segue no dia 12, com a procissão luminosa do traslado, encerrando no dia 13, com a procissão do Círio e Santa Missa.
Natural de Bragança, o paraense João Maurício Martins vive em Imperatriz há 46 anos e é o embaixador do festejo no Maranhão.
Ele lembra que, há seis anos, o padre Luzimar solicitou um projeto de evangelização e, por ser do Pará, João Maurício apresentou o Círio de Nossa Senhora de Nazaré.
“Em 24 de julho de 2021, em plena pandemia do covid, a Imagem Peregrina de Nossa Senhora de Nazaré veio visitar Montes Altos.
Uma comitiva de um casal diretor e dois Guardas de Nazaré estiveram conosco.
Nessa visita, foi instituído o Círio, que aconteceu no segundo domingo de setembro de 2021”, conta.
Neste ano, o Círio de Montes Altos está na sexta edição.
Assim como na festividade na capital paraense, os devotos utilizam a mesma corda produzida para Belém e adornam a Imagem de Nossa Senhora de Nazaré com o manto – que, em 2026, é criado por mulheres de Montes Altos.
João Maurício detalha que a presença de povos originários no festejo é, acima de tudo, para manter a cultura indígena viva e evidenciar a mensagem de inclusão do evangelho.
“Trazer os indígenas para o nosso Círio embeleza e dá autenticidade”, aponta.
A realização da festividade em Montes Altos é uma forma de proporcionar aos devotos de Nossa Senhora de Nazaré a chance de pagar as promessas, de acordo com o embaixador.
“Muitos que não têm condições de ir a Belém pagam as duas promessas aqui em Montes Altos, no nosso Círio.
Esse é o maior legado que nós podemos implementar na igreja aqui”, ressalta.
*Ayla Ferreira, estagiária de Jornalismo, sob supervisão de João Thiago Dias, coordenador do Núcleo de Atualidades
