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Artigo: 'A perda da supremacia aérea nas periferias expõe falhas do Estado', diz Roberto Uchôa

Fonte: Bandeira da fonte

A segurança pública brasileira atravessa um divisor de águas, a verticalização do conflito urbano.
O uso de drones por organizações criminosas transformou o espaço aéreo das metrópoles em uma nova arena de combate, impondo desafios táticos e orçamentários ao Estado.
O que antes era monopólio de Forças Armadas foi rapidamente assimilado pelo crime organizado.
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A curva de aprendizado das facções foi célere.
Drones civis inicialmente serviam à logística de contrabando para presídios; em seguida, à inteligência e contra vigilância, antecipando operações policiais para anular o fator surpresa e vigiando facções rivais.
A guinada para a militarização ostensiva veio do intercâmbio de conhecimento produzido em conflitos internacionais.
Investigações da Polícia Civil revelam que o Comando Vermelho financiou a viagem de integrantes à Ucrânia para aprender técnicas de combate aéreo e operação de drones.
Esse conhecimento traduziu-se na adaptação de plataformas civis em armas ofensivas.
Apurações da Polícia Federal expõem, ainda, a gravidade da porosidade institucional, com a prisão de um cabo da Marinha acusado de instruir a cúpula do tráfico na adaptação de dispensadores de granadas.
O ápice dessa transição ocorreu na megaoperação nos complexos da Penha e do Alemão, em outubro de 2025, quando drones lançaram explosivos contra policiais durante a ação mais letal da história da segurança pública fluminense.
A perda da supremacia aérea nas periferias não encontrou, contudo, uma resposta estatal coerente.
O erro do poder público não é a ausência de tecnologia de neutralização, mas a sua justaposição desordenada à compra dispendiosa de plataformas pesadas.
O governo do Rio assinou contrato de R$ 70 milhões para a aquisição de um helicóptero blindado Black Hawk, negócio suspenso por suspeitas na licitação e questionamentos técnicos sobre o risco de emprego de uma aeronave de guerra em áreas habitadas.
Paralelamente, o próprio estado destinara R$ 27 milhões a sistemas antidrone de radiofrequência, inseridos em um pacote tecnológico de R$ 4,5 bilhões.
O problema central não reside no fetichismo tecnológico isolado, mas na ausência de hierarquização estratégica.
Investe-se, a um só tempo, em prestígio bélico simbólico e em capacidade técnica real, sem que uma lógica de custo-oportunidade organize as prioridades.
Casos internacionais confirmam essa vulnerabilidade.
Na Colômbia, um Black Hawk policial foi destruído por um drone, matando 12 agentes, uma ação de custo irrisório que anulou um ativo milionário.
Superar esse anacronismo seletivo exige menos populismo punitivo e mais inteligência estratégica: cortar a cadeia de suprimentos de explosivos, sufocar o capital ilícito por meio da investigação financeira e consolidar, de forma doutrinária e não residual, as tecnologias soft-kill já adquiridas, evitando que se tornem apenas mais um item em um portfólio de compras disperso e sem diretriz clara.
*Roberto Uchôa é conselheiro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e pesquisador na Universidade de Coimbra.