Falta de detalhamento de propostas de governo, ataques a adversários e peças de apelo emocional, principalmente voltadas ao eleitorado feminino, marcaram o tom do primeiro dia de propaganda eleitoral na televisão do atual presidente e candidato à reeleição pelo PT, Luiz Inácio Lula da Silva, e do senador e presidenciável Flávio Bolsonaro (PL).
Os dois estão nas primeiras posições de intenção de voto na disputa para a Presidência da República nas eleições de outubro.
O horário eleitoral começou na sexta-feira (28) com as peças para governo do Estado e Senado.
As propagandas vão ser exibidas até 1º de outubro, três dias antes do primeiro turno.
Neste sábado (29), foi a estreia das campanhas dos candidatos à Presidência da República e de deputados federais para rádio e televisão.
Na propaganda eleitoral televisiva, o conteúdo não diferiu muito do observado nas campanhas no rádio.
A propaganda do petista na TV buscou mostrar as trajetórias pessoal e política de Lula nos 1970 e 1980 como líder sindicalista, em São Bernardo do Campo (SP), até chegar à Presidência da República.
No programa, Lula escreve e narra uma carta a si mesmo, descrevendo realizações na política no período.
A fala é entremeada com várias imagens da trajetória do petista, e inclui cenas de quando foi preso, na época em que era sindicalista, e de quando participou da Assembleia Nacional Constituinte de 1987-1988, que levou à atual Constituição brasileira.
Outro destaque na peça de Lula foi a fala da primeira-dama, Janja da Silva, direcionada ao eleitorado feminino.
“E é através das políticas públicas do presidente Lula que nós, mulheres e meninas, transformamos nossos sonhos em realidades”, afirmou.
O atual presidente fez questão de destacar ações do atual mandato.
Citou a isenção de Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil, mudanças na legislação para proteger crianças de teor criminoso na internet e a realização da operação Carbono Oculto, para desarticular esquema bilionário de lavagem de dinheiro, sonegação fiscal e adulteração de combustíveis ligado ao crime organizado.
Também citou o apoio do governo à proposta, ainda em trâmite, de mudanças na escala de trabalho 6x1.
“Recuperamos a economia, controlamos a inflação, batemos recordes na geração de emprego e restabelecemos programas sociais”, disse.
“Tem muita coisa ainda para ser feita e o que está em jogo é o futuro do Brasil e da sua família”, disse.
No entanto, o candidato à reeleição não detalhou novas propostas para um eventual quarto mandato na Presidência.
A narração do programa destacou ainda o candidato petista “como aquele que defende o Brasil contra os traidores da pátria”, uma possível referência indireta a Flávio Bolsonaro.
O termo remete às discussões entre governo e oposição sobre o tarifaço de Donald Trump, no qual se envolveu Eduardo Bolsonaro, irmão do senador que mora nos Estados Unidos.
“A gente reconstruiu o Brasil, mas ainda não está satisfeito porque o Brasil está pronto para muito mais”, disse Lula, em alusão ao quadro herdado do governo anterior, de Jair Bolsonaro (PL).
A propaganda do petista começou neste sábado (29) com uma inserção que listou supostos crimes associados a Flávio, em especial o caso do extinto Banco Master, maior fraude do sistema financeiro do país, envolvendo o ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
"Brasil real"
Já Flávio abriu sua propaganda com ataques ao candidato petista.
Afirmou que, “no Brasil do Lula, ele vai culpar os outros e vai dizer que tudo melhorou” e que ele, Flávio, vai falar do “Brasil real, o Brasil que está dominado pelas facções, [em] que as pessoas nunca tiveram tanto medo, [em] que as empresas estão quebrando e as famílias, devendo”.
Assim como Lula, Flávio apresentou várias peças de apelo emocional com intuito de se apresentar ao eleitor como pai de família.
Também mencionou seu pai, Jair Bolsonaro, dizendo que todos conhecem o ex-presidente, mas que queria também apresentar sua família.
Falou da mulher, a dentista Fernanda, com várias imagens ao lado dela, que na peça televisiva relatou ter sido a responsável por ajudá-lo a se tornar “o Bolsonaro moderado”.
Flávio também fez vários acenos ao eleitorado feminino, descrevendo-se como um pai de família, com duas filhas.
“Lá em casa quem manda são elas.
Ainda bem que é assim.
E você sabe por quê? Porque com as mulheres eu aprendo o quanto elas são fortes.
Elas são fortes de um jeito cuidadoso.
Elas são firmes, mas não querem ser donas da verdade”, disse.
Ampliar o voto no eleitorado feminino é um dos principais desafios do presidenciável do PL.
Flávio terminou seu tempo de propaganda destacando sua trajetória política como deputado por quatro mandatos e como senador, presidindo a Comissão de Segurança Pública.
Mas também não elencou, em seu tempo na televisão, qualquer proposta em eventual mandato caso seja eleito no pleito de 2026.
Ronaldo Caiado
Ataques ao PT e questões de segurança foram destaques na fala do presidenciável Ronaldo Caiado (PSD), que aparece em posição inferior nas pesquisas de intenção de voto, na estreia de horário eleitoral para candidatos à Presidência da República na TV.
Caiado iniciou o programa com imagens suas, de chapéu, andando por um campo, e frisou seu trabalho como médico, apresentando-se como “um homem de coragem”.
Também sem citar propostas, o político aproveitou a peça de propaganda para falar de trajetória pessoal, denominando-se como “um homem de família”.
Aproveitou para listar cargos públicos que ocupou, como deputado, senador e governador do Estado de Goiás, em “40 anos de vida pública”.
O presidenciável do PSD também atacou o PT na questão fundiária e em questões de segurança.
“A omissão, conivência, incompetência dos que governam este país há 20 anos trouxeram o Brasil para essa situação em que o crime domina”, disse.
Caiado destacou sua atuação na área, como governador de Goiás, prometendo que teria condições de melhorar a segurança pública do país.
Pediu ainda ao público para “votar diferente” e, assim, “tirar o PT de vez do poder”.
Augusto Cury
O escritor e candidato à Presidência pelo Avante, Augusto Cury, abriu a participação no horário eleitoral também atacando o governo.
Com imagens de ruas em chamas e pessoas mascaradas ao fundo, Cury se sentou em uma poltrona preta e se dirigiu ao eleitor com uma pergunta: “É isso que vocês querem? Mais quatro anos? Ou a gente para de gritar, senta, se escuta e cura este país”, disse.
“Não tem cura sem escuta.
Vamos juntos? Fala, Brasil!”, finalizou, sem, contudo, apresentar qualquer detalhe de programa de governo.
Na televisão, Lula tem o maior tempo de propaganda no primeiro turno das eleições, com cinco minutos e 31 segundos para a coligação.
Flávio tem quatro minutos e 20 segundos e Caiado possui dois minutos e 2 segundos.
Já Cury ficou com o menor tempo, de 35 segundos.
Os presidenciáveis Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão) não têm tempo nos blocos de propaganda eleitoral gratuita em rede nacional.
Seus partidos não atingiram os critérios previstos na cláusula de desempenho, estabelecida em 2017.
Nessa regra, foi firmado que os partidos precisam atingir percentual mínimo de votos válidos para a Câmara dos Deputados ou número mínimo de deputados eleitos para acesso a recursos do fundo partidário e tempo de propaganda na televisão e no rádio.
Horário no rádio
Mais cedo, na estreia do horário eleitoral no rádio com as propagandas de candidatos à Presidência, Lula e Flávio dedicaram a maior parte do tempo às suas biografias, mas também trocaram ataques.
Em um momento, a peça de Lula reproduziu trecho do áudio em que Flávio pede dinheiro a Daniel Vorcaro para financiar o filme “Dark Horse”, sobre o ex-presidente Bolsonaro.
Já o senador disse que o petista buscará vender um Brasil de fantasia, enquanto ele falará sobre os problemas reais do país, como endividamento alto e segurança pública.
A menção ao caso "Dark Horse" no programa de Lula ocorreu após um trecho mais longo em que o petista relembrou sua trajetória e destacou investimentos em educação, como construção de institutos federais.
Também elencou estatísticas da economia favoráveis à gestão petista, como menor taxa de desemprego.
Na sequência, a narradora faz um paralelo entre Lula, que “gosta de trabalhar” e Flávio, “que, além de não gostar de trabalhar, ainda pediu R$ 61 milhões para o banqueiro Daniel Vorcaro”.
O programa, então, reproduz trecho do áudio revelado pelo site Intercept Brasil em maio, em que Flávio cobra de Vorcaro o pagamento do financiamento do filme sobre Bolsonaro.
O assunto, no entanto, toma poucos segundos da peça, após o narrador dizer que “não quer ocupar o Brasil com notícia ruim desse cara”, em um aceno a eleitores que se declaram independentes e preferem decidir com base em propostas, e não em trocas de acusações.
Depois de mais um trecho sobre propostas, como o fim da escala 6x1, o programa retoma acusações contra Flávio, relembrando o escândalo da rachadinha e classificando o senador como “o pior dos Bolsonaros”.
Flávio não cita Lulinha
Já Flávio, que se apresentou tanto no rádio quanto na TV antes de Lula, iniciou seu programa dizendo que tratará do Brasil “real” e não do “Brasil do Lula”.
O programa do senador, no entanto, não mencionou as investigações da Polícia Federal (PF) contra o empresário Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, que tem destacado em entrevistas e atos públicos.
O presidenciável do PL fez um aceno aos independentes, afirmando que “você pode estar de um lado ou de outro, mas todo mundo concorda que o Brasil não está bom do jeito que está”.
Flávio também dedicou boa parte do seu programa às mulheres, com as gravações em que afirma que as mulheres mandam em sua casa e em que interage com Fernanda, sua mulher, que tem aparecido mais na campanha desde a convenção nacional que confirmou sua candidatura.
Antes de Lula e Flávio, Caiado também usou o tempo no rádio para se apresentar, com foco em sua gestão em Goiás.
O programa mencionou temas caros ao presidenciável, como segurança pública.
Já Cury, que foi o primeiro a se apresentar e tem apenas 35 segundos, começou seu bloco com um ruído dissonante, antes da mensagem em que prega que todos parem de gritar, escutem e curem o país.
O conteúdo está em linha com o discurso do candidato de se apresentar fora da polarização.
