Numa noite recente de verão em Manhattan, a romancista Alex Aster cumprimentou uma multidão de mulheres jovens eufóricas, vestidas em praticamente todos os tons de rosa imagináveis, pastéis suaves e rosa empoeirado, chiclete, magenta ofuscantemente vibrante.
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"Nossa, que quantidade de rosa!", disse Aster, de 31 anos, que usava um minivestido rosa vibrante, sem alças, e sandálias de salto alto brilhantes, também em rosa.
O público havia vindo vestido em homenagem à protagonista do novo romance de Aster: Barbara Millicent Roberts, mais conhecida por suas legiões de fãs como Barbie.
"Mal posso esperar para ouvir o que a Barbie significa para vocês", disse Aster, enquanto o público gritava e vibrava.
Katelyn Lee e a autora de 'Barbie: Dreamscape'
Rebecca Smeyne/The New York Times
"Barbie: Dreamscape" se abre num mundo de fantasia rosado, no dia anterior ao "Boxing Day", quando ela deveria receber um "destino" que determinaria sua carreira.
Mas, quando não recebe nenhum, Barbie, desempregada e em espiral por uma crise de identidade, parte numa jornada para descobrir seu destino, aventurando-se por terras distantes, onde brevemente encontra um Ken nada notável e descobre habilidades mágicas, que emanam de seus acessórios encantados.
É o primeiro romance de Barbie autorizado e de tamanho integral, desenvolvido em parceria com a Mattel, a fabricante de brinquedos, que lançou o livro por meio de seu braço editorial.
Embora seja voltado para o público jovem-adulto, parece — a julgar pela multidão animadíssima de mais de 200 pessoas reunidas numa loja da Barnes & Noble em Union Square, em Manhttan — que mulheres adultas também estão aderindo em massa.
Os fãs disputaram cadernos rosa brilhantes e marcadores de página rosa estampados com a imagem da Barbie.
Posaram para fotos dentro de uma caixa gigante da boneca, rosa.
Escreveram mensagens inspiradoras declarando o que amam na Barbie em post-its rosa.
Gisell Bastidas Jaramillo, designer gráfica de 29 anos que mora em Long Island, veio usando uma jaqueta da Barbie que comprou em 2023, quando o filme blockbuster da personagem foi lançado.
Ela costuma rever os filmes animados e coleciona bonecas, mas vinha sentindo falta de histórias mais adultas sobre a personagem.
"Você consegue se conectar com a Barbie de um jeito diferente quando é adulta", disse.
Outra fã inveterada, Alexandria Pedri, de 26 anos, pós-graduanda em fotografia na Parsons School of Design, disse que cresceu como "uma garota Barbie" e ainda considera a boneca inspiradora.
"De jeito nenhum eu ia deixar de aparecer num evento da Barbie", disse Pedri, que veio usando um vestido de seda rosa-choque, com um lenço floral rosa enrolado no quadril e presilhas de borboleta rosa e roxa no cabelo.
"Sou uma das pessoas que foram inspiradas pela ideia de que as mulheres podem fazer qualquer coisa."
Essa ideia da Barbie como figura inspiradora foi um tema comum entre as mulheres adultas que compareceram para celebrar um romance jovem-adulto sobre um brinquedo feito para crianças.
Elas a veem não apenas como um conforto nostálgico ou um elo com a infância, mas como um modelo a seguir que ainda admiram.
Várias mulheres jovens disseram que o sucesso da Barbie em diversas áreas, da paleontologia à fabricação de pizza, parecia inspirador, mesmo que um pouco fora de alcance num momento em que os jovens enfrentam dificuldades numa economia instável.
"A Barbie inspira muitas garotas porque ela tem 150 carreiras", disse Kareesa Reid, de 26 anos, cuidadora de saúde domiciliar que mora em Mount Vernon, Nova York.
(Segundo a Mattel, a Barbie tem mais de 250 carreiras, incluindo astronauta, saxofonista, caixa de loja do Target, bailarina, paramédica do Exército, bioquímica, engenheira de robótica e apicultora.)
Sejam quais forem os motivos, a resposta apaixonada das fãs sugere que algumas mulheres que já passaram da idade de brincar com bonecas ainda querem ler sobre elas.
A Barbie não é a única boneca recebendo tratamento de protagonista ficcional.
Em outubro, a Mattel planeja publicar um romance adulto sobre Samantha, uma das bonecas originais da American Girl, que acompanha a personagem, agora com 25 anos e vivendo na Nova York de 1920, enquanto ela navega por romance e trabalho, luta pelo direito de voto das mulheres e se infiltra numa organização criminosa.
(Corajosa, independente e apaixonada por vestidos vinho, ela ainda compartilha traços de personalidade com a boneca Samantha original, uma criança de cerca de 9 anos.)
Embora algumas pessoas digam que a chegada de mais entretenimento temático de bonecas para mulheres já devia ter acontecido há muito tempo, ainda existe certo desconforto em torno da ideia de uma "meninice" prolongada — e em torno de conteúdo "de menina" que celebra a feminilidade tradicional como uma espécie de empoderamento, mas que pode soar como uma forma vazia de feminismo.
"É legítimo que as pessoas tenham preocupações de que as mulheres estejam sendo infantilizadas", disse Rebecca Hains, professora de mídia e comunicação na Salem State University, que estudou e escreveu sobre a infância feminina e a Barbie.
"Mas, por outro lado, acho que há algo a se dizer sobre ser considerado normal que as mulheres continuem gostando de coisas, do mesmo jeito que os homens continuam gostando de coisas de sua infância."
Há décadas existe uma gritante desigualdade de gênero quando o assunto é conteúdo "kidult" (voltado a adultos com gostos infantis).
A maior parte dele tem sido direcionada aos homens, que podem continuar fãs apaixonados de Star Wars, Lego e super-heróis até a meia-idade e além, sem que ninguém fique cobrando que "cresçam".
Mulheres que querem histórias sobre suas bonecas favoritas têm muito menos opções.
Alex Lebensburger, advogada de 38 anos que mora em Manhattan, será para sempre fã das bonecas American Girl.
Ganhou a primeira aos 8 anos e colecionou mais quatro, que guardou até os 17, quando a mãe as guardou no sótão.
Ela disse que ficou empolgada ao saber que um romance da American Girl para adultos, escrito pela romancista histórica Fiona Davis, estava saindo.
"Para as fãs da American Girl, agora, como mulheres, queremos ver as bonecas crescerem como nós crescemos", disse.
Mas ela lamenta que haja tão pouco conteúdo para mulheres fãs da American Girl como ela.
"Meu marido é fanático por Star Wars, e há tantos artigos colecionáveis e tanta oportunidade de nostalgia.
Isso aqui é tudo o que a gente tem, esse livro."
Faz sentido que editoras e fabricantes de brinquedos sigam a cartilha de Hollywood, atendendo aos "kidults" com propriedade intelectual movida a nostalgia, capaz de mobilizar um público já cativo.
Fãs adultas da Barbie apareceram aos montes para o filme live-action, que se tornou o maior sucesso de bilheteria de 2023, arrecadando US$ 1,5 bilhão em todo o mundo.
"Recebemos ali um grande sinal de que as pessoas querem ver mais da Barbie, e querem ver mais da Barbie de um jeito moderno e relevante para elas como adultas", disse Natalia Premovic, diretora de produtos de consumo e experiências da Mattel.
Há dois anos, a Mattel procurou Aster, autora best-seller de fantasia e romance com um público apaixonado nas redes sociais.
Em seu primeiro encontro com executivos da Mattel, Aster os conquistou com seu amor deslavado pela Barbie.
Ganhou sua primeira Barbie aos 4 anos, e fazia roupas sob medida para suas bonecas usando papel-toalha.
A princípio, Aster estava receosa de assumir um projeto de propriedade intelectual e abrir mão de controle criativo, mas os executivos da Mattel garantiram que ela poderia escrever a história que quisesse contar.
"Foi chocante, porque eu sei que a Barbie é uma marca muito protegida", disse.
Aster fez uma viagem de pesquisa até a sede da Mattel em Los Angeles, onde recebeu uma aula de história sobre a evolução estilística e cultural da Barbie.
Reviu os filmes animados da Barbie e conferiu vitrines da boneca em lojas para ver o que estava em alta.
Ela criou uma história de aventura fantástica que esperava atrair não só adolescentes enfrentando as pressões da vida adulta que se aproxima, mas também mulheres que lidam com o medo do fracasso.
"Eu estava pensando bastante em como tornar essa jornada acessível tanto para uma adolescente quanto para uma adulta que talvez não tenha conseguido o emprego que queria", disse Aster.
Ela esperava que as fãs adultas da Barbie fossem até o romance, mas se surpreendeu com a força total do fandom.
"As pessoas estão tão famintas por nostalgia", disse ela.
"Elas querem se sentir de volta na adolescência, de volta a esses mundos mágicos onde há bailes e vestidos."
Chloé Laverson, de 27 anos, que mora em San Diego e trabalha com marketing, cresceu amando Barbies e nunca parou.
Ela tem três tatuagens com o tema, se veste com os looks icônicos da boneca.
Usa tanto rosa que as pessoas costumam chamá-la de Barbie, o que ela recebe como elogio.
Assistiu ao filme de 2023 nos cinemas sete vezes, e tem uma coleção de cerca de 30 bonecas.
Para Laverson, o romance da Barbie é um sinal esperançoso de que existe um lugar na cultura para "Barbies adultas".
Divulgar seu amor pela Barbie e se vestir como uma princesa a ajuda a se manter animada em tempos deprimentes, disse ela.
"O mundo está em ruínas, e a única forma de continuar feliz, positiva e esperançosa é se reconectar com quem éramos quando éramos pequenas", disse.
Como uma "Barbie adulta", porém, as coisas são diferentes: as bonecas ficam dentro da caixa.
"Eu não brinco mais com Barbies", disse ela.
Mas, para quem ainda brinca? "Nenhum julgamento."
