Em 1957, na cidade de Belo Jardim, interior de Pernambuco, Edson Mororó Moura e sua esposa, Conceição Viana Moura, ambos engenheiros químicos, decidiram fundar a Baterias Moura.
Mal sabiam que, duas décadas depois, se tornariam líderes de mercado.
Hoje, seis em cada dez veículos brasileiros ou argentinos saem de fábrica com uma bateria Moura.
São cerca de 12 milhões de unidades produzidas por ano, distribuídas em mais de 20 países, com sete fábricas e mais de 6.500 colaboradores.
Atualmente, no entanto, a Moura lida com um desafio comparável àquele de sete décadas atrás.
Este ano, os carros de passeio eletrificados (com motores híbridos ou elétricos, que demandam baterias mais sofisticadas em relação aos modelos a combustão) alcançam 22% das vendas – mais que o dobro do ano passado.
Em dezembro, o Ministério das Minas e Energia planeja fazer os primeiros leilões de armazenamento de eletricidade, que devem atrair investimentos de cerca de US$ 10 bilhões.
As mudanças nos mercados de mobilidade e energia representam ótimas oportunidades para a Moura, mas também atraem novos competidores, como a americana Tesla e a chinesa BYD.
O esforço para se reinventar rendeu ao grupo o sexto lugar na pesquisa do anuário Valor Inovação Brasil 2026.
Nos últimos 10 anos, a Moura investiu R$ 3,6 bilhões na diversificação do portfólio e na entrada em novas frentes de mercado associadas à transição energética – como o Moura BESS (Battery Energy Storage System), serviço de armazenamento de energia para atender grandes consumidores.
Em 2025, a Moura lançou suas primeiras baterias de lítio, com tecnologia nacional.
Com versões de 12V e 48V, o produto atende carros do típo híbrido leve (MHEV).
Foi um primeiro passo na direção dos sistemas de 200V e 800V, usados por automóveis híbridos plugin ou 100% movidos à eletricidade, como os modelos de marcas chinesas que estão abrindo fábricas no Brasil.
A iniciativa envolveu montadoras, fabricantes de autopeças, startups e instituições de pesquisa.
O resultado foi a estruturação de uma linha híbrida de desenvolvimento e validação de baterias e o avanço no desenvolvimento de um sistema nacional de gerenciamento – o BMS, na sigla em inglês.
“A empresa percebeu que a eletrificação da mobilidade exigiria mais do que novos produtos: seria necessário desenvolver competências industriais, infraestrutura tecnológica e profissionais especializados no Brasil”, afirma Antonio Júnior, diretor-presidente da Acumuladores Moura.
Dois mercados
Acompanhar o avanço dos carros elétricos não significa, para a Moura, desacelerar os negócios em em seu mercado tradicional de baterias para veículos a combustão.
Em 2025, a empresa inaugurou sua Unidade de Reciclagem e Metais, projeto de R$ 850 milhões que levou quatro anos para sair do papel.
A unidade tem capacidade para processar 200 mil toneladas por ano de chumbo e plástico, matérias-primas que voltam diretamente para a linha de produção.
O objetivo é reduzir a dependência de chumbo primário importado, diminuir a exposição cambial e transformar o resíduo em ativo estratégico.
Para manter a liderança no mercado de reposição, a empresa lançou o Moura Fácil, um serviço de entrega e instalação de baterias que funciona com geolocalização, gestão de estoque em tempo real e atendimento descentralizado.
A proposta é atender a pedidos em qualquer ponto do Brasil ou da Argentina, em menos de 50 minutos.
“A Moura cria condições para inovar aproximando três dimensões que precisam caminhar juntas: desenvolvimento de pessoas, disciplina de gestão e a busca por soluções para problemas reais da operação”, diz Júnior.
A transformação da mobilidade vai além de novos motores para os carros de passeio – chega também a novos modais.
No promissor mercado de bicicletas elétricas, a Moura foi além do papel de fornecedora de componentes e lançou seu primeiro produto completo: a linha de bicicletas Ella.
“As e-bikes respondem por metade das vendas na Alemanha, 40% na Espanha e menos de 2% no Brasil”, afirma Elisa Correia, diretora-presidente da Rede Moura.
“A confiança na marca ajuda a tornar essa jornada mais simples, ao transmitir a credibilidade de uma empresa presente em todo o país.”
Elisa Correia, da Rede Moura: credibilidade para lançar bicicletas elétricas
Divulgação
Baterias de lítio para carros eletrificados e bicicletas elétricas entram, assim, para o leque diversificado das fontes de receita da empresa, com faturamento estimado em R$ 2 bilhões por ano.
Além das peças para automóveis a combustão, a companhia fornece componentes para barcos, empilhadeiras, nobreaks, metrôs, estações de telefonia e sistemas de armazenamento de energia estacionária.
Bases da inovação
Por trás da diversificação do portfólio há uma estrutura de pesquisa que envolve instituições do Brasil inteiro.
A empresa criou em 2012, em Pernambuco, o Instituto Tecnológico Edson Mororó Moura (ITEMM).
O ITEMM atua como principal parceiro de desenvolvimento tecnológico da Moura, com quatro centros de pesquisa e quatro laboratórios de inovação aberta.
Em todos eles, convivem lado a lado projetos em andamento da Moura e de outras companhias.
Mais de 700 pessoas trabalham com inovação no grupo, entre dedicação parcial e integral.
A Moura colabora com universidades brasileiras, como UFMG, UFPE, UFCG, UFPB e UPE, e mantém parcerias tecnológicas com organizações em vários países, incluindo China, Índia, Estados Unidos, Canadá e Áustria.
A produção de conhecimento reflete essa capilaridade.
O grupo tem 32 ativos de propriedade intelectual registrados no país, sendo oito já concedidos e 24 em fase de exame.
Tem também quatro ativos de propriedade Intelectual no exterior, sendo três já concedidos e um em fase de exame.
Enquanto os laboratórios desenvolvem a próxima geração de baterias, os programas internos de inovação operam em outra escala.
O Moura Inova convida colaboradores de qualquer área ou nível hierárquico a transformar problemas do dia a dia em propostas estruturadas.
Em 2025, voluntários inscreveram 57 ideias.
Dez foram apresentadas a um comitê que inclui diretores e a presidência.
Os projetos aprovados recebem recursos e acompanhamento para sair do papel.
O Programa Moura de Consolidação Estratégica (PMCE) opera em uma camada acima.
Voltado a lideranças e colaboradores com maior senioridade, estimula projetos de intraempreendedorismo e, mais recentemente, conexões com startups e com o ecossistema de inovação aberta.
O Prêmio Moura de Talentos completa o ciclo: em 2025, reuniu 12 projetos finalistas desenvolvidos por equipes a partir de desafios concretos de suas áreas.
“A inovação não nasce apenas de uma área dedicada a novas tecnologias”, afirma Júnior.
“Nossa cultura estimula todas as áreas a encontrar respostas.”
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