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Houve progresso importante na frente inflacionária, e o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) decidiu ontem reduzir os juros básicos em 0,25 ponto percentual, para 14% ao ano.
Não houve sinalização dos próximos passos, se continuidade ou pausa no ciclo de redução das taxas.
A janela para o corte da Selic foi propiciada pela “moderação gradual da atividade econômica”, ante sua “aceleração” anterior; a “inflação cheia desacelerou”, sem ainda deixar de superar o teto da meta; e as “medidas subjacentes desaceleraram” para um nível ligeiramente abaixo dos 4,5%.
O Copom voltou a pregar cautela na condução da política monetária, pois as expectativas do mercado expressas no boletim Focus ainda mostram inflação se distanciando da meta em 2027 e 2028.
O BC ratificou sua projeção de que, no horizonte relevante da política monetária, o primeiro trimestre de 2028, o IPCA será de 3,2%.
Ao mesmo tempo em que registra que “os indicadores correntes de atividade mantêm-se consistentes com uma trajetória de desaceleração no acumulado de 2026”, aponta que “monitora com atenção a desancoragem adicional das expectativas de inflação para prazos mais longos”.
A economia deu sinais de esfriamento depois da reunião do Copom de junho.
As altas taxas de juros estão desacelerando as atividades em câmera lenta, com uma força muito menor do que deveriam, pois a economia está sendo refreada por fartos estímulos fiscais e parafiscais, a maior parte deles com finalidades eleitorais.
E, assim, as pessoas e empresas continuam sofrendo com os juros altíssimos por longo período.
A economia deve reduzir mais seu ritmo no segundo semestre e no ano que vem, como mostram as previsões constantes do Focus.
Enquanto as previsões para o PIB de 2026 subiram ao longo do primeiro semestre para estacionar há quatro semanas em 1,99%, as de 2027 recuaram no período de 1,69% para 1,57%.
Até o fim do ano, o crescimento deixará de ultrapassar seu potencial, o que dificulta o declínio da inflação, e começará a trabalhar com alguma ociosidade.
A partir de maio, praticamente todos os indicadores econômicos apontaram para baixo, ainda que não com muita intensidade.
O desempenho da indústria em junho foi o pior desde 2014, com queda de 1,8%.
Dezesseis dos 25 setores reduziram produção, com a pior performance cabendo aos bens duráveis, com recuo de 3,2%, e de 1,1% nos bens intermediários, que compõem metade da atividade manufatureira.
No segundo trimestre, a indústria geral avançou apenas 0,3%, ante alta de 1,5% nos três primeiros meses do ano.
As vendas do varejo desaceleraram a partir de abril.
O comércio restrito em maio (exclui veículos e material de construção) evoluiu apenas 0,1%, com hipermercados e supermercados exibindo na variação mensal (-1,5%) o pior resultado em quase dois anos.
O setor de serviços, fonte de pressão inflacionária constante e resistente, recuou em maio (0,4%), mas ainda apresenta boa taxa de expansão acumulada no ano (1,9%) e em 12 meses encerrados em maio (2,6%).
Serviços representam pouco mais de dois terços na composição da oferta do PIB e têm sido impulsionados pelo comportamento aquecido do mercado de trabalho, pela redução do desemprego e pelos avanços da renda mensal, que vinha superando a inflação.
Ainda que a taxa de desemprego no trimestre encerrado em junho tenha atingido 5,4%, o segundo menor nível da série iniciada em 2012, a tendência é de queda nas contratações e aumento de demissões.
Um indício do futuro está na evolução dos salários, que declinaram pelo segundo mês consecutivo em junho.
No mês, caíram 1,5% em relação a maio, e 0,8% em maio em relação a abril.
A evolução real dos salários e da massa de rendimentos real sustenta a robusta inflação dos serviços, que nos 12 meses terminados em junho variou 5,9% (pelo IPCA).
A gradual perda de ritmo dos ganhos salariais deve dar decisiva contribuição para derrubar a inflação.
No trimestre móvel encerrado em abril, na comparação com o mesmo período de 2025, o rendimento médio real (descontada a inflação) crescera 5,3%.
Em maio, na mesma comparação, o ganho foi de 4%, e na última leitura, do trimestre findo em junho, foi de 2,8%.
Os aumentos da massa de rendimentos real mostram trajetória semelhante, um pouco mais acentuada.
Em abril, houve ganhos de 6,5%, em maio, de 4,8% e em junho, de 3,6%.
Mas há no horizonte incertezas suficientes, externas e domésticas, que poderão pausar a distensão da política monetária.
Os analistas privados preveem ao menos mais um corte de juros até o fim do ano, com a taxa Selic estacionando em 13,75%.
Os múltiplos estímulos de crédito a uma gama enorme de setores da economia deverão mostrar efeitos no período eleitoral, o que obrigará o BC a jogar na retranca por algum tempo.
A política do Planalto para reeleger o presidente Lula piora sobremaneira as contas públicas e cobra uma salgada conta de juros: R$ 1,16 trilhão nos 12 meses até junho.
Com a atual política restritiva e nenhum superávit primário, a situação fiscal vai se deteriorar ainda mais rapidamente.
