A escritora Bethânia Pires Amaro participou da 24º Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), em mesa junto à autora franco-mauriciana Nathacha Appanah, na última sexta-feira (24).
Sua estreia editorial foi com o livro de contos ‘O ninho’, publicado pela Record em 2023, que venceu os prêmios APCA, Jabuti e Sesc de Literatura.
Em maio deste ano, Bethânia lançou o romance ‘Ressalga’, pela mesma editora.
A narrativa acompanha três gerações de mulheres em sua travessia pela Bahia desde os anos 40 até depois da redemocratização, marcadas por uma sina comum apesar de sua desunião.
Janaína é mãe de Graça, que é mãe de Flora.
A neta narra o livro, e cresce à sombra das histórias da avó e principalmente da mãe, uma lendária prostituta que se tornou proprietária do cabaré mais renomado da Ladeira da Montanha, em Salvador.
Décadas após um evento que desmembrou de vez sua família, Flora retorna à capital baiana em uma tentativa de reconexão.
Livros de Bethânia Pires Amaro
Reprodução
Bethânia Pires Amaro nasceu em Recife, em 1988, mas foi criada na Bahia, em Ilhéus e Salvador.
A autora de 37 anos é graduada em Direito pela Universidade Federal da Bahia e mestre em Direito do Estado pela Universidade de São Paulo.
Além de escritora, é advogada e ministrante de cursos e palestras.
Em entrevista à CBN durante a Flip, Bethânia falou sobre a experiência feminina no mundo, a violência reproduzida por mulheres dentro da família, a recuperação de uma memória histórica feminina, e o realismo mágico que vê na Bahia.
Em 'Ressalga', temos três gerações de mulheres desconectadas de suas mães, ainda que compartilhem ressentimentos profundos e uma 'mesma sina'.
Você pode comentar esse retrato mais duro das relações familiares?
Bethânia Pires Amaro: Me interessa muito investigar os papéis que a mulher ocupa na sociedade e quem somos dentro das nossas casas.
As mães e as filhas de ‘Ressalga’ têm de fato essa linearidade, e a ideia de que é muito difícil escapar das nossas famílias.
São mulheres que tentam fazer diferente, mas será que elas conseguem?
Isso é algo que já vem em ‘O ninho’: aquele local que nos forma, e as mulheres que nos formam, acabam modelando um pouco quem nós somos.
Posteriormente, é muito difícil romper com tudo que aprendemos sobre como devemos nos comportar, o que podemos ou não dizer, como devemos ser para que a sociedade nos aceite enquanto mulheres e nos considere boas mães ou esposas admiráveis, por exemplo.
Isso também é passado de mulher para mulher, e assim muitas violências são cometidas nesse meio, sendo perpetuadas ao longo das gerações.
Eu queria investigar essas violências entre mulheres, principalmente dentro de uma mesma família, onde não há a percepção de que se trata de uma violência.
Aquilo vai passando como um conselho, um cuidado, uma recomendação para que você se encaixe melhor, e não algo tóxico que pode te limitar de inúmeras formas.
Eu estudei a história da Ladeira da Montanha – uma zona de prostituição muito famosa na Bahia nos anos 50, 60 e 70, com muita riqueza cultural junto ao Centro Histórico – para saber como essas mulheres chegavam até lá, considerando também dinâmicas familiares.
Eu queria entender o que era ser mulher naquele período, para fazer um contraponto com o que é ser mulher hoje.
Além de, eventualmente, questionar se são tantas as diferenças.
Investigar historicamente os espaços que tivemos para ocupar enquanto mulheres é importante do ponto de vista político, porque nós temos um corpo político.
É preciso compreender o exercício das nossas possibilidades também nesse aspecto.
A sua personagem Janaína diz que o homem é a sina de uma mulher.
Como você vê as relações entre homens e mulheres?
Bethânia Pires Amaro: A Janaína e as outras personagens de ‘Ressalga’ são muito orientadas pelo sobrenatural.
A narradora, que é a Flora, é muito mística, e é essa visão que ela vai passar para o leitor: de que há uma sina, uma maldição, nessa família ao longo de gerações.
Essa sina começou com o mau nascimento da avó, de acordo com o que se pensa naquela localidade sobre crianças que nascem quando estão eclodindo os fogos-fátuos.
Flora acredita que a relação entre as mulheres de sua família e os homens vai ser sempre nociva e difícil.
Seria esse o destino delas, de cair nas mãos de homens inescrupulosos, devido a elementos que fogem ao seu controle.
Eu espero que o leitor coloque em xeque a visão dessa narradora e perceba que as personagens também têm agência sobre suas vidas, e fazem suas escolhas.
Há diversos outros homens na narrativa, e elas escolhem passar à margem deles.
Mas, até que ponto realmente se faz uma escolha, considerando o quanto se é condicionado por quem se aprende a ser? Essas questões são colocadas, e eu não tenho resposta para elas.
A Orides Fontela, que foi a autora homenageada da 24º Flip, não queria ser chamada de poetisa, e sim de poeta.
Ela dizia que não existe poesia feminina, só poesia.
Concorda com essa visão sobre a literatura?
Bethânia Pires Amaro: A Giovana Madalosso tem uma frase maravilhosa em que ela diz: “Eu sou feminista, a minha literatura não”.
Tanto ela quanto a Orides estão lutando contra uma tendência de colocar as mulheres num espaço menor, em um nicho, como se fosse algo exótico.
Por muito tempo, compreendeu-se tudo aquilo que era escrito por mulheres como doméstico, pequeno.
Os grandes temas estavam destinados aos grandes homens, que escreviam os grandes livros.
Mas as nossas experiências são tão universais quanto as experiências masculinas.
Nós somos seres humanos, e essa é uma literatura que também fala sobre o que é experimentar a humanidade, exatamente como se vem fazendo desde sempre, mas com um novo olhar.
“Literatura feita por mulheres” é uma expressão que preferimos utilizar justamente por isso.
É uma escrita que pode trazer particularidades do ponto de vista feminino, do que é viver em um corpo de mulher e do que é ser mulher no Brasil.
E eu acho que isso tem atraído o leitor contemporâneo, por oferecer esses novos pontos de vista.
Há hoje um interesse por vozes que, historicamente, estiveram mais marginalizadas.
Bethânia Pires Amaro, Nathacha Appanah e Gabriela Longman (mediadora) na Flip 2026.
Flip
Você já mencionou que as mulheres sofreram um apagamento da História.
Como seu livro se relaciona a essa memória da Bahia e do Brasil?
Bethânia Pires Amaro: Havia muita coisa pulsando em Salvador e no país nesse período retratado em 'Ressalga'.
Durante a ditadura militar, os bordéis continuaram funcionando a portas fechadas, em pleno período de máxima repressão.
Também estava acontecendo a industrialização do estado da Bahia, além de um momento de muita riqueza cultural, do movimento hippie e da Tropicália, que estava efervescente.
A escrita foi algo que caminhou junto com a História.
Pesquisando sobre a Ladeira da Montanha e o Centro Histórico de Salvador, descobri que a historiografia oficial que sobreviveu traz somente a voz dos homens.
Não havia nada na voz das mulheres que ocupavam, com dificuldade, algum tipo de espaço de destaque.
Elas nunca estavam no centro das suas próprias narrativas, somente nas entrelinhas, preenchendo alguns parágrafos dessas biografias masculinas.
Isso foi um estranhamento que me motivou muito durante a escrita: eu quis trazer essas mulheres, que marcaram a história da Bahia e sofreram um apagamento, para um centro narrativo.
Queria também falar sobre o tipo de violência que elas enfrentavam, seja dentro de espaços institucionalizados, como o casamento, seja na prostituição.
Fui mesclando a ficção com personagens que de fato existiram.
Isso vale para figuras amplamente conhecidas, como Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek, mas também algumas que podem passar despercebidas, como o médium Zé Arigó e o Delegado de Costumes da capital.
Graça, que é a mãe da narradora, foi inspirada em mulheres como Maria da Vovó, que tinha um famoso cabaré no Centro Histórico e foi uma empreendedora de marca maior, batendo de frente com a ditadura.
Também pensei em outras prostitutas que se tornaram notórias, como Maria Pires, e das quais a gente não encontra nada a não ser relatos dos homens que conviveram com elas.
Queria que você comentasse a tensão entre sagrado e profano que modula as vidas de Janaína, Graça e Flora.
Bethânia Pires Amaro: É interessante que, quando eu passei o livro por leitores da Bahia e por leitores de São Paulo, as leituras foram muito diferentes – hoje eu moro em São Paulo e minha editora também é de São Paulo.
Enquanto os leitores da Bahia se sentiram mais perto das crenças e das histórias de forma geral, para o leitor de São Paulo o livro já entrava na ideia do realismo mágico.
E de fato essa também era a minha impressão quando eu passava pela Ladeira da Montanha, eu me sentia em uma espécie de Macondo [povoado criado por Gabriel García Márquez em ‘Cem anos de solidão’], em um lugar meio místico, meio mágico.
Tem algo de fantasmagórico nessa rua, que hoje é um lugar muito perigoso, mas eu sabia que havia sido o centro da boemia da capital.
Como chegou-se naquelas ruínas, naquelas sombras que estão ali? Para mim, isso conversava de perto com o realismo mágico, e eu acredito que o realismo mágico também traz a possibilidade de encararmos determinadas violências sob um olhar mais lírico, mais sensível.
Ao mesmo tempo, eu quis incorporar a diversidade de crenças que há na Bahia, muito múltipla em termos de prática religiosa, e que convivem com uma espécie de mitologia que eu criei para o livro.
A água é uma uma entidade muito importante em ‘Ressalga’, e com um caráter diferente para cada personagem, capaz de confortar ou aterrorizar essas mulheres.
Bethânia Pires Amaro: A água modula todo o ritmo da narrativa, inclusive do ponto de vista formal.
As escolhas de linguagem foram feitas pra emular uma correnteza de rio.
Eu queria que o leitor entrasse ali e fosse realmente carregado, porque essa água marca muito a vida de Janaína, Graça e Flora: seja pela escassez de água no sertão, até a imensa abundância no Recôncavo, em que historicamente o rio Paraguaçu, na cidade de Cachoeira, era responsável por grandes enchentes.
A gente encontra muitas reportagens desse período histórico em que a cidade está debaixo da água.
E, mais uma vez, pareciam fotos de cidades míticas -- os moradores tinham que se abrigar na parte superior dos casarões, porque as ruas viravam canais e os saveiros vinham percorrendo as águas para resgatar os moradores.
Essas imagens, que eram muito poderosas, me trouxeram a sensação de que tudo aquilo que era da terra e o que era do rio estavam muito perto.
As enchentes uniam as duas coisas e colocavam as pessoas em proximidade com as crenças relacionadas à água, às feras do rio e às entidades do rio.
Da mesma forma em Salvador, que é muito modulada pelo mar em termos do ritmo de vida da cidade.
Isso também entrou na linguagem e na mística familiar que a narradora coloca para o leitor, com ritmos diferentes nas falas de cada uma das personagens.
Tem algo mais pacato e mais forte, lentamente, que é o que acontece com o rio Paraguaçu e que vai estar um pouco na personalidade de Janaína.
E algo um pouco mais dinâmico, mais repleto de altos e baixos, que é o caso de Graça, que está ali sempre naquelas ondas do mar da Bahia e do mar de Salvador.
*A repórter viajou a convite do Instituto Motiva, patrocinador e parceiro oficial de mobilidade da Flip 2026.
