Em 2015, quando os Estados Unidos terminaram de entregar ao Brasil documentos produzidos pela inteligência americana durante a ditadura brasileira, uma “boa alma” procurou o jornalista Mário Magalhães perguntando se ele gostaria de receber os arquivos em primeira mão, pois ali havia muito material sobre Carlos Marighella (1911-1969), objeto de uma premiada biografia que Magalhães publicou em 2012.
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Antes, porém, de buscar as referências ao guerrilheiro, o jornalista pesquisou por Carlos Lacerda (1914-1977).
A vida toda, Magalhães sonhara em escrever uma biografia do jornalista, fundador da Tribuna da Imprensa, ex-governador da Guanabara, arauto do golpe de 1964 e articulador de uma frente ampla contra a ditadura militar.
Repórter experiente, Magalhães sabia que a empreitada só valeria a pena se ele descobrisse “informações novas e relevantes” para oferecer aos leitores.
Nos arquivos americanos, ele encontrou uma infinidade de documentos capazes de “mudar a histografia hegemônica sobre Lacerda no período pós-golpe de 1964”.
Estavam ali os “furos de envergadura histórica” que justificariam a biografia — cujo primeiro volume acaba de chegar às livrarias.
“Lacerda: coração de tempestade” será lançado nesta quarta-feira (26), às 19h, na Livraria Travessa de Ipanema, na Zona Sul do Rio.
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— Provavelmente nenhum personagem da História da República foi tão amado e tão odiado como Carlos Lacerda — afirma o autor.
— Sua vida trepidante e frenética nos permite contar cinco décadas de História do pensamento, das artes, da cultura, do poder e do jornalismo no Brasil.
Como todo grande biografado, ele oferece um fabuloso elenco de coadjuvantes.
Carlos Lacerda é um presente para qualquer repórter.
As informações recolhidas na documentação americana estarão no segundo volume da biografia, previsto para sair em dois ou três anos.
No entanto, não faltam novidades neste primeiro, que termina na “Novembrada”, movimento militar de caráter legalista que garantiu a posse do presidente eleito Juscelino Kubitschek, eleito em 1955.
Furibundo antigetulista (e por isso mesmo opositor de JK), Lacerda escreveu à época: “Só o golpe militar pode dar jeito ao Brasil.” Não foi a primeira nem a última vez que ele defendeu um golpe contra seus adversários políticos.
— Lacerda, assim como o golpismo contemporâneo, é herdeiro do tenentismo, da ideia de que o voto popular não é soberano e que outras formas de intervenção política devem determinar os rumos do país — diz o autor.
Filho de um aguerrido comunista que, por causa da política (e das mulheres), não parava em casa, aos 9 anos o menino Carlos prometeu à mãe, numa carta: “Não me meterei na política.” Na adolescência, estava metido na militância de esquerda.
Embora nunca tenha se filiado, em 1939 ele foi “expulso” do Partido Comunista, em circunstâncias esclarecidas pela biografia: num artigo encomendado pelo Estado Novo, Lacerda, na tentativa de desestimular a repressão a seus companheiros, escreveu que o Partidão não tinha nem “consistência” nem “possibilidades de expansão”.
Os camaradas o tacharam de “provocador” e “agente do fascismo”.
Sua conversão à direita, porém, não foi imediata.
Nos anos 1950, seu antigetulismo convivia com certas posições reformistas, estranhas ao ideário liberal da União Democrática Nacional, como a abolição do passe dos jogadores do futebol.
A biografia também esclarece momentos-chave da trajetória de Lacerda, como o atentado da Rua Tonelero, em Copacabana.
Em agosto de 1954, ele sofreu uma tentativa de assassinato em frente a seu prédio.
Foi atingido no pé.
O major Rubens Vaz, da Aeronáutica, que o acompanhava, acabou morto.
O atentado fora planejado por Gregório Fortunato, chefe da guarda do presidente Getúlio Vargas, e aprofundou a crise que atingiu seu ápice no dia 24, com o suicídio do presidente.
Os inimigos de Lacerda inventaram toda sorte de histórias sobre o atentado: desde que o político atirara no próprio pé até que ele matara Vaz ao reagir às balas.
Com base nas investigações da época, Magalhães desmente todas essas histórias.
Na conversa com o GLOBO, o biógrafo lembra uma frase do jurista Evandro Lins e Silva, que disse que Lacerda “era extremado até quando se colocava no centro”.
Era culpa de seu “coração de tempestade” (expressão do próprio biografado), que, aliás, parece ser a única coisa que teria se mantido constante ao longo de sua trajetória: o jeito violento e apaixonado de defender suas posições — inclusive as mais indefensáveis.
Serviço:
'Lacerda: coração de tempestade, vol.
1'
Autor: Mário Magalhães.
Editora: Companhia das Letras.
Páginas: 536.
Preço: R$ 109,90.
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