Biotecnologia: a janela de oportunidade que o Brasil não pode desperdiçar - QTU Questões do Universo

Biotecnologia: a janela de oportunidade que o Brasil não pode desperdiçar

Fonte: Bandeira da fonte

A BIO International Convention, realizada em San Diego, é muito mais do que um dos maiores eventos mundiais de biotecnologia.
Ela funciona como um termômetro das tecnologias, investimentos e parcerias que devem moldar o setor nos próximos anos.
Depois de dezenas de reuniões com investidores, executivos, pesquisadores e empresas de diversos países, saí da BIO 2026 com uma convicção ainda mais forte: o Brasil vive uma oportunidade rara de assumir um papel de maior relevância na biotecnologia global.
O primeiro ponto que chamou atenção foi o crescente interesse internacional por parcerias com o Brasil.
Em um cenário geopolítico cada vez mais complexo, empresas buscam diversificar seus parceiros estratégicos e fortalecer cadeias globais de inovação.
Independentemente das razões que levaram a esse movimento, ficou evidente que o Brasil passou a ocupar um espaço maior nessas conversas.
Esse cenário também reflete uma transformação observada nos últimos anos.
O desenvolvimento de novas terapias deixou de estar concentrado exclusivamente nos Estados Unidos e passou a incorporar, de forma crescente, outros países ao longo da cadeia de pesquisa clínica.
A Austrália é um dos exemplos mais bem-sucedidos dessa estratégia.
Com um ambiente regulatório eficiente e processos de aprovação de estudos clínicos que, em muitos casos, ocorrem na ordem de dois a três meses, o país conseguiu atrair investimentos e consolidar-se como um importante polo internacional de estudos clínicos.
Esse exemplo demonstra como a agilidade regulatória pode se transformar em uma poderosa vantagem competitiva para um país.
O Brasil reúne atributos para competir em um patamar ainda mais elevado.
Além de hospitais de excelência e pesquisadores altamente qualificados, contamos com uma população altamente miscigenada, capaz de representar diferentes perfis genéticos, e uma localização geográfica privilegiada, com maior proximidade de fuso horário em relação aos principais mercados das Américas e da Europa.
Se conseguirmos combinar essas vantagens com maior agilidade regulatória e uma estratégia nacional consistente, poderemos nos consolidar como um dos principais destinos globais para estudos clínicos de terapias inovadoras.
Outro tema praticamente onipresente durante a BIO foi o RNA.
Depois do sucesso das vacinas de mRNA, o mercado avança rapidamente para uma nova geração de terapias voltadas ao tratamento de câncer, doenças genéticas, autoimunes e infecciosas.
A sensação predominante é de que estamos apenas no início de uma das maiores transformações da indústria farmacêutica das próximas décadas.
Nesse contexto, o Brasil vive um momento especialmente promissor.
Diversos centros de excelência, empresas e instituições já realizam investimentos importantes para estruturar um ecossistema competitivo em biotecnologia.
Esse movimento é fundamental e merece ser ampliado.
Ao mesmo tempo, temos a oportunidade de utilizar essa infraestrutura não apenas para absorver tecnologias já consolidadas, mas para desenvolver a próxima geração de terapias, incluindo novas plataformas de RNA, terapias CAR-T in vivo e outras tecnologias emergentes.
Essa capacidade já existe no país, em grupos de pesquisa e empresas de biotecnologia.
Isso demonstra que, em paralelo à internalização de competências já maduras, precisamos incentivar inovações genuinamente concebidas no Brasil.
Essa combinação permitirá que o país não apenas acompanhe a evolução da biotecnologia mundial, mas participe da criação das soluções que definirão a próxima década.
Outra percepção importante foi a qualidade da ciência brasileira.
Tivemos a oportunidade de apresentar tecnologias desenvolvidas no Brasil e compará-las diretamente com iniciativas dos principais hubs mundiais de inovação.
A conclusão foi extremamente positiva: quando existe uma combinação de excelência científica, gestão eficiente e visão de mercado, o Brasil consegue competir entre os melhores do mundo.
O principal desafio, portanto, já não é apenas científico.
Em muitos casos, o maior gargalo está na capacidade de transformar ciência em empresas globais e produtos inovadores.
Para isso, será fundamental ampliar o acesso ao capital privado, fortalecer mecanismos de financiamento, reduzir barreiras regulatórias e criar um ambiente capaz de acelerar a inovação.
Essa percepção reforçou uma convicção que carregamos desde o início: desenvolver tecnologias no Brasil para o mundo.
A ampliação da nossa presença internacional faz parte desse processo de amadurecimento, principalmente para acessar mercados e fontes de capital mais desenvolvidos.
Mas nossa visão permanece a mesma: acreditamos que o Brasil pode ser protagonista na criação das próximas gerações de terapias e empresas globais de biotecnologia.
A grande oportunidade do Brasil não é apenas participar da próxima revolução da biotecnologia.
É ajudar a liderá-la.
*Gabriel Bottos, co-fundador e CEO da Vesper
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