Parte dos bitcoins roubados no ataque milionário às carteiras de hardware Coldcard começou a ser movimentada em operações de mistura para dificultar o rastreamento, aponta uma nota técnica da Chainspect, empresa de análise de dados em blockchain, compartilhada com o Valor.
O episódio, que ainda não teve a autoria identificada, ganhou repercussão no fim de julho.
Uma falha na geração de senhas das carteiras físicas Coldcard — dispositivos usados para guardar chaves privadas de bitcoin fora da internet — permitiu que os invasores descobrissem os acessos de milhares de usuários por meio de ataques de "força bruta".
Estima-se que mais de 5.200 endereços tenham sido esvaziados a partir de 30 de julho, resultando em perdas próximas de US$ 114 milhões (cerca de 1.816 bitcoins).
Em um relatório anterior, a Chainspect, fundada pelo advogado criminalista Felipe Américo Moraes, já havia mapeado que o ataque ocorreu em ondas sucessivas e reuniu os fundos em seis endereços principais (cofres).
Agora, a nova nota técnica foca no destino desse dinheiro.
Segundo a apuração, um desses cofres (identificado no relatório como "cofre 64"), que guardava 64,90373764 bitcoins provenientes de 795 vítimas, foi integralmente esvaziado na tarde de 4 de agosto, após permanecer parado por mais de dois dias.
O saldo foi transferido para um novo endereço, no formato mais recente da rede Bitcoin (Taproot), e, 46 minutos depois, foi injetado em um mecanismo conhecido como CoinJoin.
O CoinJoin é uma operação de mistura colaborativa, na qual centenas de usuários unem suas transações em uma única operação, recebendo de volta fatias padronizadas do dinheiro.
O objetivo é embaralhar as entradas e saídas, rompendo a ligação direta entre elas.
O uso da ferramenta, de código aberto, é voltado à privacidade financeira e é lícito por si só.
No caso analisado, porém, o relatório frisa que as moedas que entraram na mistura já estavam publicamente vinculadas ao roubo da Coldcard.
A Chainspect afirma ter conseguido rastrear o percurso dos fundos roubados ao longo das duas primeiras rodadas de mistura.
Moraes explica no documento que, nessas etapas, a identificação foi possível apenas pela matemática de conservação de valor: as saídas eram maiores do que a soma de tudo o que os outros participantes haviam depositado, comprovando que o saldo só poderia ter sido formado com as moedas ligadas ao ataque.
No entanto, o rastreamento encontrou seu limite na terceira rodada de mistura, realizada na noite de 4 de agosto.
Nessa etapa, os bitcoins foram totalmente fatiados em dezenas de parcelas padronizadas, diluídas entre mais de 400 participantes.
A partir desse ponto, o relatório conclui que a aritmética deixa de ser exata, e a identificação precisa das moedas se dissolve.
"Seguir adiante seria escolher, não rastrear.
E esta nota não o faz", afirma o documento.
O relatório descreve apenas as condutas observáveis na blockchain, sem realizar valoração jurídica.
A Chainspect ressalta que não é possível identificar quem coordenou a operação de mistura ou quem controla os endereços.
Até o fechamento dos dados do relatório, hoje, 5 de agosto, os outros cinco cofres ligados ao caso continuavam sem apresentar movimentações de saída.
