O Dia Mundial do Bordado foi celebrado em 30 de julho.
A data foi criada em 2011, na Suécia, pela Academia de Bordado de Täcklebo, com o propósito de reunir artistas, educadores e curiosos em torno do bordado como forma de expressão artística e de fortalecer os laços de quem trabalha com a técnica.
E não existe momento melhor para falar de um assunto tão importante à moda quanto o trabalho manual.
O bordado nasceu na pré-história, com a invenção da agulha de osso e das linhas de fibras naturais usadas para unir peles de animais.
Com o passar dos séculos, essa técnica utilitária transformou-se em arte decorativa, símbolo de poder e forma de expressão cultural em todo o mundo.
E o maior luxo da moda em 2026 não tem logo estampado, não veio de linha de produção e não se parece com o que todo mundo está usando.
Ele tem textura, tem história e, às vezes, tem até uma imperfeição bonita.
É o feito à mão conquistando cada vez mais espaço nos looks e nas escolhas de quem quer se vestir com identidade, e com informação de moda.
Depois de anos de consumo acelerado e peças descartáveis, a moda vem voltando os olhos para o que tem valor real: o processo, a habilidade e a singularidade.
O humano! E nada traduz isso melhor do que o artesanal.
E hoje vamos falar sobre 5 marcas brasileiras que estão apostando nessa diferenciação.
Salinas
Nascida no Rio em 1982 e com a alma fincada nas areias de Ipanema, a Salinas é praticamente sinônimo de moda praia brasileira.
Neste momento da marca, além do trabalho manual nas peças, esse olhar para a arte brasileira se estende também até o ambiente das lojas, com madeira, palha e fibras naturais compondo o cenário.
Uma forma de lembrar que o feito à mão é parte do DNA, não um detalhe.
Conversei um pouco com Adriana Bozon, diretora criativa da Salinas, para entender melhor como funciona esse processo dentro da marca.
Erika: Adriana, por que apostar em bordados nesta coleção e neste momento do mercado?
Adriana: A Salinas é uma marca que nasceu no Rio de Janeiro e hoje pertence ao mundo.
Sempre valorizamos nossa arte e nossa cultura.
Temos um dos melhores bordados e artesanatos feitos no Brasil, e tem sido muito especial somar esse trabalho ao nosso.
As peças ficam lindas e valorizam muito a arte brasileira!
Erika: Existe algum ponto, técnica ou tipo de intervenção que virou assinatura da marca?
Adriana: Cada vez mais estamos aprimorando nossas peças com muita qualidade e beleza junto às nossas parcerias.
A Swarovski é uma delas, por exemplo.
Já estamos em nossa terceira coleção com eles e já virou uma assinatura Salinas.
O cliente espera pela coleção.
Erika: Você acha que o cliente enxerga valor nas peças diferenciadas?
Adriana: Muito! Eles buscam, cada vez mais, experiências e valorizam o processo criativo por trás de cada peça.
Wasabi
Carioca e fundada em 2010 por Daniela Sabbag e Ana Wambier, a Wasabi construiu sua identidade no encontro entre moda e artes visuais.
A cada coleção, a marca convida artistas plásticos para assinar estampas exclusivas, transformando cada peça em uma pequena obra autoral.
E, cada vez mais, esse olhar artesanal se estende também ao bordado, que vem ganhando espaço nas peças.
Na última coleção, Pele Salgada, o “feito à mão” aparece pela mão do artista e também pela mão de quem borda: é a singularidade do traço, a assinatura de quem cria, o oposto exato da estampa genérica que se repete aos milhares.
Uma moda que carrega arte, e não apenas tendência.
Cantão
Com mais de cinco décadas de história, a Cantão nasceu no Rio no fim dos anos 1960 e se consagrou pelas cores e estampas que viraram sua marca registrada.
Nos últimos anos, a grife aprofundou sua brasilidade apostando na artesania.
Também conversei um pouco com Renata Simon, diretora de estilo e marketing da Cantão, para entender melhor os processos de criação da marca.
Erika: Renata, por que apostar em bordados?
Renata: O bordado é um dos maiores diferenciais da Cantão e, nesta coleção de verão, ganha destaque em peças como blusas, batas, vestidos, saias e calças com referências náuticas.
Acreditamos que, com o mercado valorizando cada vez mais produções autorais e feitas à mão, reforçar esse trabalho manual é reafirmar quem somos em quase 60 anos de história contados ponto a ponto.
Erika: Esses bordados são feitos à mão ou em máquina? Como é esse processo dentro do ateliê?
Renata: O trabalho é feito à máquina e à mão.
Os bordados combinam processos com intervenções e acabamentos, de acordo com o desenho de cada peça.
Todo o desenvolvimento acompanha o tema da coleção.
Erika: Quem realiza esse trabalho? A marca trabalha com bordadeiras, ateliês parceiros ou cooperativas?
Renata: O trabalho é realizado por fornecedores e ateliês parceiros especializados, que transformam os desenhos exclusivos da marca em bordados aplicados ao jeans e à sarja.
Erika: Existe algum ponto, técnica ou tipo de intervenção que virou assinatura da marca?
Renata: Os bordados que contam “historinhas” viraram uma marca registrada da Cantão.
Elementos gráficos que narram o tema da coleção.
A mistura de bordado com aplicações e diferentes texturas já faz parte da identidade do Cantão.
Na coleção de verão 2026, eles traduzem o universo marítimo e valorizam o fazer artesanal brasileiro.
Erika: Como o trabalho manual (bordados, pinturas à mão, botões encapados) se reflete no valor final e no tempo de produção da peça?
Renata: O trabalho manual exige bem mais tempo, precisão e mão de obra especializada, tornando cada peça mais singular e agregando valor ao produto final.
Alina Amaral
Estilista e jornalista alagoana, Alina Amaral fundou sua marca autoral em 2016 traduzindo em roupa a memória do sertão.
O trabalho é feito à mão por um coletivo de mulheres de Maceió, capacitadas em bordado por meio de uma ONG local, que transformam linha e tecido em peças de forte carga ancestral.
A marca já vestiu nomes como Daniela Mercury e Elba Ramalho e levou o bordado alagoano para a passarela em Milão, com a coleção “Texturas da Alma”.
É moda que, além de bonita, ressignifica trajetórias e dá visibilidade a quem borda.
Hisha
Da mineira Giovanna Resende, a Hisha nasceu com uma missão clara: levar o bordado mineiro ao mundo e valorizar a profissão da bordadeira, uma mão de obra complexa e muitas vezes banalizada.
As peças, de casual a festa, são desenhadas e bordadas à mão por uma rede de mulheres, com foco nas texturas e nos volumes que só o trabalho manual entrega.
Em 2026, a marca deu um passo importante ao estrear nas passarelas da Rio Fashion Week, provando que o artesanal também é potência comercial e criativa.
Enfim, escolher o feito à mão é escolher tempo, história e gente.
É entender que por trás de cada ponto existe uma pessoa, uma comunidade, uma técnica que resiste.
Em um mundo que produz depressa e descarta ainda mais rápido, vestir o artesanal é um gesto de identidade e de afeto.
O novo luxo, afinal, não se ostenta: ele se sente na textura, na exclusividade e na certeza de que aquilo ali foi feito por mãos humanas, para durar.
