A dominância global do Brasil no comércio de carne bovina está em conflito com normas europeias mais rigorosas, ameaçando as exportações à medida que os fornecedores enfrentam dificuldades para certificar o gado sob as novas restrições a medicamentos promotores de crescimento.
Exportadores precisam comprovar até esta quinta-feira que conseguem fornecer carne sem administrar aos animais determinados antimicrobianos.
Caso contrário, não poderão vender para a União Europeia.
O gado brasileiro não estará pronto a tempo.
A UE obtém do Brasil cerca de um quarto da carne bovina que importa, segundo o Rabobank, e as novas restrições podem redesenhar os fluxos comerciais, levando os países europeus a comprar mais de outros fornecedores, enquanto o Brasil busca redirecionar seus estoques para outros mercados.
A Europa responde por 3% das exportações brasileiras de carne, mas paga em média US$ 9,16 por quilo, 50% a mais do que os US$ 6,11 por quilo pago por países da Ásia.
O mercado asiático (excetuando Oriente Médio) compra 57% da carne exportada pelo Brasil, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento
O bloco europeu está trabalhando com o Brasil para retomar as importações “o mais rápido possível”, afirmou na terça-feira a porta-voz da Comissão Europeia, Eva Hrncirova, durante entrevista coletiva em Bruxelas.
“Exigimos garantias para todo o ciclo de vida dos animais; isso é importante e, no caso da carne bovina, isso não está acontecendo no momento.”
As consequências vão muito além do Brasil, já que o país tem sido um fornecedor global importante de carnes em períodos de forte demanda internacional.
Limitar o acesso a mercados de alto valor, como o europeu, pode reduzir os incentivos para que pecuaristas aumentem a produtividade, restringindo o crescimento da oferta de carne bovina.
A perda do mercado europeu também representa um golpe na credibilidade do Brasil como fornecedor global justamente no momento em que o país tenta entrar em mercados como Japão e Coreia do Sul.
— O que está sendo colocado em xeque no Brasil é a credibilidade do sistema — afirmou Maria Eduarda Blaiklock, ex-funcionária do governo brasileiro que atualmente dirige uma empresa de consultoria em comércio agrícola sediada na Europa.
—Isso demonstra uma falta de coordenação e corrói a confiança.
Gado se alimenta em currais de confinamento em uma fazenda em Marabá, no estado do Pará
Jonne Roriz/Bloomberg
As normas da UE entram em vigor em um momento delicado para os exportadores brasileiros, que buscam diversificar os destinos ao mesmo tempo que enfrentam limitações nos embarques para a China, maior compradora de carne bovina do mundo.
Os países da UE compram uma parcela pequena das exportações brasileiras, mas normalmente pagam um preço médio mais alto que outros importadores, o que obrigará o Brasil a redireccionar volumes a preços potencialmente menores.
As autoridades europeias também deram prosseguimento, no fim de agosto, a uma auditoria nas unidades brasileiras de produção de carne de frango.
Embora as exportações de aves devam ser temporariamente interrompidas antes da conclusão do processo, no caso da carne bovina não há auditorias programadas nem novos avanços que possam ajudar a evitar uma proibição.
Em 2023, quando a UE notificou pela primeira vez o Brasil sobre as novas regras para antimicrobianos, as autoridades locais decidiram que as exigências deveriam ser atendidas por meio de um protocolo do setor privado, afirmou Eduarda Blaiklock, que na época trabalhava no Ministério da Agricultura do Brasil, na coordenação de assuntos internacionais.
Em maio, a UE deixou o Brasil fora da lista de países autorizados a fornecer produtos de origem animal ao bloco a partir de 3 de setembro.
O Brasil correu para criar novos protocolos, mas observadores do setor argumentam que o país agiu tarde demais e que faltou coordenação entre governo e indústria.
— O Brasil foi o único — o único — que não estava na lista.
Por quê? Porque não conseguiu apresentar evidências confiáveis que demonstrassem conformidade com a regulamentação — disse Eduarda.
Desde então, o Brasil avançou na criação de um sistema voluntário para fornecedores que atendam às novas regras.
Não está claro se isso será suficiente para convencer as autoridades da UE, sobretudo porque o gado brasileiro pode passar por várias fazendas antes de atingir o peso de abate.
O Ministério da Agricultura do Brasil não respondeu a um pedido de comentário.
A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) afirmou que as novas exigências da UE “não alteram a qualidade, a segurança ou o status sanitário da carne bovina brasileira”.
Em uma nota divulgada na quarta-feira, a entidade acrescentou que restabelecer o fluxo comercial com o bloco é uma prioridade.
Pecuaristas brasileiros que têm como alvo o mercado europeu já precisam cumprir exigências específicas, como o rastreamento individual dos animais.
Esse sistema, porém, concentra-se nas etapas finais do desenvolvimento do animal antes do abate e não contempla a rastreabilidade completa desde o nascimento.
Uma cadeia de suprimentos tão longa e complexa significa que a carne bovina, em particular, enfrenta desafios maiores do que outras proteínas.
Embora alguns pecuaristas estejam se adaptando às exigências europeias, a falta de uma resposta coordenada do Brasil “envia a mensagem errada ao mercado internacional”, afirmou Mauricio Nogueira, diretor da consultoria Athenagro.
Ainda que pecuaristas afirmem que os tipos de substâncias que a UE está proibindo normalmente só são usados nas etapas finais do crescimento dos animais, a exigência europeia de rastreabilidade durante todo o ciclo de vida impõe desafios adicionais ao Brasil para cumprir as novas regras.
Um programa nacional do Ministério da Agricultura pretende estabelecer a rastreabilidade individual do gado até 2032.
—O Brasil quer ser o maior exportador do mundo, mas nós nem sequer sabemos quantas cabeças de gado temos — afirmou Fernando Sampaio, ex-executivo do setor e membro da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura.
—O Brasil continuará exportando sua carne bovina, mas os clientes que poderiam pagar um preço premium tenderão a evitar os riscos.
“O Brasil quer ser o maior exportador do mundo, mas nem sequer sabemos bois nós temos”, afirmou Fernando Sampaio, ex-executivo do setor e integrante da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura.
“O Brasil continuará exportando, mas aqueles clientes que poderiam pagar a mais tendem a fugir do risco.”
