Bruninho relembra ouro na Rio-2016 e comenta sobre momento atual do vôlei: ‘A seleção não pode tirar a faca dos dentes’ - QTU Questões do Universo

Bruninho relembra ouro na Rio-2016 e comenta sobre momento atual do vôlei: ‘A seleção não pode tirar a faca dos dentes’

Fonte: Bandeira da fonte

Bruninho, levantador do Campinas e ex-atleta da seleção brasileira de vôlei, “quarentou” — e comemora a nova fase enquanto relembra sua maior conquista esportiva: o ouro na Olimpíada do Rio, há dez anos.
Ao GLOBO, ele conta que está em transição de carreira e que deseja ser pai (de mais de um, se possível).
E que, mesmo longe da seleção, acompanha os resultados do time, razão pela qual aposta que as eliminações recentes na VNL e no Campeonato Mundial servirão de combustível para o futuro.
Ainda assim, cobra que os jogadores da atual geração recuperem a “faca nos dentes” dos times do passado.
Qual é a lembrança mais marcante dos Jogos em casa?
O pódio é o momento ao qual eu gostaria de voltar no tempo e reviver.
Representa tudo.
Eu poderia morar naquele momento.
Após pratas em Pequim-2008 e Londres-2012, o que o ouro na Rio-2016 significou?
Relembrei toda a minha trajetória.
Batemos na trave por anos.
De alguma maneira, faltava mesmo algo nas grandes competições.
Fomos vice-campeões da Liga Mundial três vezes naquele ciclo (2013, 2014 e 2016; em 2015, o Brasil foi eliminado na fase de grupos, no Marcanãzinho) e vices no Campeonato Mundial de 2014.
Claro que eram bons resultados, mas nós não estávamos acostumados a isso, queríamos vencer.
Então, o título olímpico se tornou uma obsessão, mais do que um sonho.

E hoje, o que significa?
É um marco na História.
Quem são as pessoas que conseguirão obter o ouro olímpico em casa? Qual será a geração no Brasil que terá essa oportunidade de novo? Me sinto abençoado.
Os jogadores vão comemorar em alguma data?
Está prevista uma homenagem no Sul-Americano, em setembro, no Rio.
Não sabemos quem poderá ir.
Hoje, há um equilíbrio muito grande, como jamais visto.
O Brasil não está entre os três, quatro melhores times.
Citaria Polônia, Itália, EUA e França.
Mas está no bolo das seleções que vêm na sequência
Bruninho tem contrato de mais dois anos com o time de Campinas
Maria Isabel Oliveira / Jornal O Globo.
Ao voltar ao Brasil após anos na Itália, você passou a ter mais projetos pessoais.
Está em transição de carreira?
Não sei por quanto tempo vou jogar mais.
Tenho dois anos de contrato em Campinas.
Se minha saúde permitir e meu corpo e minha cabeça estiverem bem, quero continuar.
Mas, claro, estando no Brasil consigo ter momentos para pensar no futuro e ter mais tempo para me preparar também.
Não sei exatamente o que farei.
Tinha o sonho de ter um projeto social e entrei como conselheiro no Instituto Compartilhar, junto com meu pai.
Sou investidor, com pequenas participações, de empresas e startups.
Quero retomar minha faculdade de Administração de Empresas, que cheguei a iniciar em 2004, na PUC, em Campinas, e caducou.
Uma coisa é certa: quero me manter no esporte.
Você já disse que não quer ser treinador.
Mantém a ideia?
Continua essa ideia (risos).
Você “quarentou”.
Como se sente?
Fiz festa e tudo.
Foram várias, inclusive.
É uma data para se comemorar muito.
Mas, para mim, é apenas uma idade.
Não mudou muita coisa.
O melhor ainda está por vir.
A única coisa é que (risos)...
Outro dia, estávamos falando de um atleta das antigas do futebol da Holanda, Edgar Davids, porque tem um garoto em Campinas que está jogando de óculos.
E o pessoal do time não sabia quem era.
É, estou mais velho, faz parte.
Bruninho comenta que quer voltar a estudar e quando se aposentar pretende se manter na área do Esporte
Maria Isabel Oliveira / Jornal O Globo.
Aos 40, sente mais pressão para encerrar carreira?
Escuto muito, é natural.
Afinal, estou na fase final mesmo.
Há um padrão, né? Com que idade os jogadores param? A maioria para por aí, com 38 anos.
Alguns chegam aos 40.
Com a evolução da medicina esportiva, da fisioterapia e do esquema de treinamento, há maior longevidade.
Mas não me lembro de um atleta de vôlei jogando aos 48.
Não vou ser eu que vou conseguir, né?
Mas é isso que você quer? Não busca outras coisas?
Exato! A carreira de atleta é extremamente intensa, puxada ao extremo: performance, entrega de resultado...
E muitas vezes a cabeça fala: “cara, não quero mais”.
O que é um saco para você?
Uma das coisas que me fez sair da seleção era a questão das viagens.
Em muitas já me incomodava essa coisa de ficar 30 dias fora de casa.
Se incomoda, não está certo.
Era sinal de saturação.
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Aos 40, você prefere Bruno ou Bruninho?
Não tem como mudar isso agora (risos).
Quer ser pai?
Quero sim.
Há um ano, namoro a Ana (Laura Magalhães, especialista financeira de 35 anos), e este é o momento de pensar no futuro.
Acho que agora é questão de tempo.
Porque, antes, quando fiquei muito tempo fora do Brasil, era uma questão de encontrar alguém.
O Brasil foi eliminado da última Liga das Nações sem alcançar as finais, algo inédito.
Como tem visto o desempenho da seleção?
Os últimos dois anos não foram bons.
E é natural, estamos mal acostumados.
Fomos número 1 do ranking por cerca de 20 anos.
Ninguém conseguiu se manter tanto tempo no topo.
Todas as seleções tiveram momentos difíceis.
Hoje, há um equilíbrio muito grande, como jamais visto.
O Brasil não está entre os três, quatro melhores times.
Citaria Polônia, Itália, EUA e França.
Mas está no bolo das seleções que vêm na sequência.
Temos time para bater de frente com qualquer uma, inclusive essas favoritas.
Na VNL, tivemos derrotas que não poderíamos (ter tido).
Temos que dar um passo atrás, entender que este é outro momento, que podemos chegar, mas nem sempre brigaremos por tudo.
Você continua se cobrando, mesmo fora do grupo?
Me cobro sim.
Conheço todos, e vira e mexe a gente conversa.
A crítica faz parte, mas o que digo é que não pode tirar a faca dos dentes.
A postura e o legado do que foi feito lá atrás, em relação ao trabalho, à dedicação, ao sacrifício, isso não pode gerar acomodação em momento nenhum.
E tem acontecido.
Acho que a dor da eliminação da VNL e do Mundial do ano passado servirá de combustível.
Isso não vai garantir o título Mundial, mas tenho certeza de que essa oscilação, essa postura, não haverá mais.
Eles entenderam.
Bruninho aposta em classificação do Brasil para LA-2028 via Sul-Americano
Maria Isabel Oliveira / Jornal O Globo.
Muito se fala de que esta geração não está acostumada a cobranças excessivas e abdicação.
Concorda?
É uma geração diferente, concordo.
Mas não tem como ser um atleta de alta performance se não for 100% comprometido.
É preciso lidar com essa pressão inerente.
E não estou dizendo que ela precisa ser elevada ao ponto de antigamente.
A gente avançava à decisão e sentia alívio, não era felicidade.
Ninguém precisa chegar a esse copo totalmente cheio.
Mas não tem como conquistar grandes coisas sem dar o máximo.
É trabalho, dedicação diária, postura, é “engole o choro e vai do jeito que está”.
Acho que eles podem fazer isso.
E fazem muitas vezes.
Talvez a porradaria de antigamente, a briga na quadra, que depois ficava tudo bem, não haverá.
Mas essa parte de lidar com o sofrimento do dia a dia, com a abdicação, não tem jeito, vão ter de fazer.
Em setembro, o Rio sediará o Sul-Americano, valendo vaga para Los Angeles-2028.
Acha que o Brasil corre o risco de não se sagrar campeão?
Não acho, confio no Brasil.
Esta competição é assim: não vale nada, mas tem de ganhar um jogo (contra a Argentina).
Se não ganhar, você é marcado.
Se ganhar, ninguém lembra.
Os títulos sul-americanos não são citados no currículo dos atletas.
O peso para eles é outro.
O nosso é alto.
Haverá pressão, a Colômbia cresceu, mas acho que ficará entre Brasil e Argentina.
Eles têm um time que pode fazer frente ao nosso, mas acredito muito no Brasil.
Como se vê daqui a dez anos?
Pai de mais de um (risos).
Minha prioridade será a família.
E ser feliz naquilo que tiver me proposto a fazer, tão feliz quanto como atleta.
Porque, apesar das dificuldades, sou muito feliz.