A cada 1°C de aumento na temperatura, o volume de venda de bebidas consideradas sensíveis ao clima cresce, em média, 4,1% no Brasil.
Estudo feito pela consultoria de dados para o varejo Scanntech apontou água, isotônico e cerveja na liderança em resposta ao calor, enquanto vinho e destilados perdem espaço nos dias mais quentes.
O levantamento teve como motivador o “Super El Niño”, fenômeno climático esperado para este segundo semestre de 2026.
O clima tem sido monitorado de perto sobretudo pela indústria de cerveja, que, no ano passado, viu seus volumes despencarem em razão do tempo mais frio.
O cenário se manteve neste início de ano e comprometeu até as vendas da Copa do Mundo.
O levantamento cruzou dados de vendas captados pela Scanntech, que tem leitura de 85% do varejo de alimentos nacional, com informações de temperatura do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) a partir de registros de aproximadamente 600 estações meteorológicas.
O período analisado é de janeiro de 2022 a março de 2026.
O efeito é observado em diferentes categorias, mas é mais intenso entre as bebidas associadas ao consumo em temperaturas elevadas.
Água lidera, com aumento de 5,7% no volume, seguida por isotônico (+5,4%), cerveja (+5,0%), gelo (+4,9%) e energético (+3,8%).
Também apresentam alta chá pronto (+3,4%), suco (+3,3%), água de coco (+3,1%) e refrigerante (+2,9%).
Na direção oposta, as bebidas associadas ao consumo em temperaturas mais baixas apresentam retração em períodos mais quentes.
Vinho e conhaque registram as maiores quedas, ambos com retração de 3,2%, seguidos por tequila (-2,4%) e licor (-1,1%).
Destilados como cachaça, whisky e vodka também apresentam tendência de queda.
O resultado reforça que o efeito do clima varia de acordo com a categoria, favorecendo alguns produtos e reduzindo a demanda por outros.
O impacto também se amplia conforme a variação de temperatura.
Um aumento de 3°C está associado a um crescimento de aproximadamente 12,8% no volume das bebidas que respondem positivamente ao calor.
O efeito de cada grau adicional permanece positivo em toda a faixa de temperaturas analisada, com maior intensidade próxima dos 30°C.
Segundo o Painel El Niño 2026-2027, elaborado por Inmet, INPE e outros órgãos e instituições federais, o fenômeno climático deve se intensificar ao longo do segundo semestre, com alta probabilidade de que o evento atinja intensidade muito forte entre a primavera e o início do verão.
“Temperatura e calendário são fatores que se sobrepõem no consumo de bebidas.
Férias, festas de fim de ano e o ritmo próprio do verão criam ocasiões de consumo que independem do termômetro, enquanto a temperatura age sobre a necessidade imediata de hidratação e refresco.
Os dois efeitos convivem no mesmo período do ano, e é justamente por isso que precisam ser medidos separadamente”, explica Felipe Passarelli, diretor de inteligência de mercado da Scanntech.
Na prática, a resposta a cada grau adicional é semelhante entre os estados do Brasil, mas algumas regiões estão expostas a uma variação maior de temperatura.
“Com um El Niño de intensidade elevada previsto para os próximos meses, o clima deixa de ser um imprevisto operacional e passa a ser uma premissa de planejamento.
No curto prazo, uma semana mais quente muda o pedido e a exposição em loja.
No médio, um cenário de temperaturas acima da média muda o dimensionamento de produção, o mix e o calendário promocional.
A diferença entre reagir e antecipar está em tratar a temperatura como dado, e não como sorte”, disse Passarelli.
