O Estado brasileiro gasta muito e mal os recursos públicos e está entre os países emergentes mais endividados do mundo.
O choque de juros a que o país está hoje submetido, para deter uma inflação insuflada pelos déficits fiscais, levou o resultado negativo nominal a 9,99% do PIB, o maior entre 41 países acompanhados pela revista The Economist (Valor, ontem).
Sem que o governo economizasse um centavo para cobrir despesas financeiras, a dívida pública bruta chegou a R$ 10,8 trilhões em junho.
A conta só cresce.
Enquanto paga juros altos, o Estado mal consegue investir e colabora para uma taxa de poupança pífia, muito aquém da necessária para que a economia possa dar um salto de produtividade.
Cálculos apresentados ontem pelo jornalista Fernando Nakagawa, na Globonews, mostram que o pacote de “bondades” anunciado por Lula em 2026 chega a R$ 282,3 bilhões, mas seu antecessor não foi diferente.
O valor de Lula aproxima-se dos R$ 325 bilhões (corrigidos pela inflação) de Jair Bolsonaro quatro anos atrás.
Este é um problema de primeira ordem, mas os candidatos à Presidência preferem ignorá-lo, dando-lhe tratamento genérico, só para constar nos autos de suas receitas de política econômica.
Não será surpresa se forem esquecidas após a vitória.
Do presidente Lula pouco se pode esperar sobre ajuste fiscal caso seja reeleito.
Ele tem feito discursos de acordo com cada plateia e, na convenção do PT que o consagrou candidato, disse que controlará o orçamento e haverá "briga" com emendas parlamentares e com o Congresso.
Não é o que fez nos últimos quatro anos, e, ao que tudo indica, não é o que fará nos quatro próximos.
Lula acomodou-se ao fisiologismo das lideranças partidárias, da qual tenta tirar proveito para manter-se no poder.
Estão mais perto da verdade suas declarações de que não pleiteia um novo mandato para ficar "cortando o orçamento".
O candidato melhor posicionado da oposição, o senador Flavio Bolsonaro (PL-RJ), não se sente confortável com o tema, por falta de conhecimento ou mesmo de interesse.
Se o prenúncio de futuro se basear no passado, um governo de Flavio dispensaria pouca atenção ao tema.
Das poucas vezes que falou sobre ele foi para desmentir informações colhidas junto a sua própria equipe, de que faria um ajuste drástico nas contas públicas.
Seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, preso por tentativa de golpe de Estado, terceirizou o assunto para o economista Paulo Guedes, que previu que obteria R$ 1 trilhão com a venda de imóveis da União.
Ele mal trabalhou para isso e arrecadou irrisórios caraminguás.
Daniella Marques, ex-presidente da Caixa no governo Bolsonaro e atualmente na equipe de campanha Flávio, apresentou ontem ideias para obter um ajuste de 1,5 % do PIB nas contas públicas, um ponto de partida quase consensual entre economistas de vários matizes econômicos para o início de consolidação fiscal crível.
Seu esboço fala em enxugar o número de ministérios (como Guedes fez), criar um Conselho de Governança Fiscal, vender imóveis da União, privatizar estatais, securitizar patrimônio público etc.
Até agora, pelos discursos de Flávio, essas ideias constarão do programa porque qualquer candidato à Presidência terá de abordar o assunto.
Não é, porém, uma ideia forte do candidato, como merece ser, nem parece estar entre as prioridades.
Jair Bolsonaro entregou a gestão do orçamento ao Congresso, que deu origem ao repasse secreto de bilhões de reais.
Oriundo do Centrão, e sem qualquer projeto que se destacasse na área das finanças públicas, Flavio se beneficia do poder alavancado do Congresso com as emendas e não há registro de que veja algo errado nelas.
O ex-presidente Bolsonaro não mostrou o menor empenho na reforma da Previdência, um elo vital dos desequilíbrios fiscais, e não opinava sobre economia, cujos fundamentos ignorava, e o filho parece seguir o mesmo rumo, ou pior.
Uma das maiores rupturas benéficas com o passado foi a aprovação da reforma tributária durante o governo Lula, que Flávio pretende suspender.
Um governador bem avaliado no quesito fiscal, Ronaldo Caiado (PSD-GO) prefere discursos ideológicos a discussões sérias sobre a emergência fiscal.
Caiado também quer rever a reforma tributária, e seu programa, pouco conhecido, mantém políticas que ajudaram destruir a confiança no atual regime fiscal, como a correção real do salário mínimo e dos programas previdenciários, e se baseia fortemente em redução dos gastos fiscais (7% do PIB).
Se eleito, dificilmente seu partido o acompanhará nessa empreitada, tentada pour quase todos os últimos governos e conseguida por nenhum.
O ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo) se declara a favor do ajuste.
Já disse que pretende repetir no plano federal a política adotada em Minas, onde, segundo ele, mais de 115 empresas e participações estatais foram vendidas em sua gestão.
Mas igualmente não detalha as questões fiscais difíceis.
O ajuste fiscal, tema difícil que pode roubar votos, mas vital para o futuro do país, passará ao largo das eleições.
O país só teria a ganhar com um debate sério e técnico a respeito, que os candidatos provavelmente não o promoverão.
Não falar no problema não significa que ele deixou de existir.
O próximo presidente tem encontro marcado com a arrumação das contas públicas em 2027.
Seria bom que os eleitores o conhecessem com clareza antes de irem às urnas.
Candidatos evitam discutir temas fiscais cruciais
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