A sucessão do secretário-geral da ONU, António Guterres, continua indefinida.
Hoje os 15 membros do Conselho de Segurança das Nações Unidas se reuniram pela segunda vez para uma nova votação e Carolyn Rodrigues Birkett, da Guiana, registrou vantagem mínima.
O desempenho dos oito candidatos piorou no ranking ou estacionou.
Mas surgiu um elemento novo, forte e que pode ameaçar a candidatura do diplomata argentino Rafael Grossi, atual diretor da Agência Internacional de Energia Atômica e favorito dos Estados Unidos --críticas contundentes da Rússia, um dos membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU e com poder de veto na disputa.
Na quinta-feira, a porta-voz do Ministério de Relações Exteriores da Rússia, Maria Zakharova, disse que Moscou ficou surpresa ao ler as declarações feitas recentemente por Grossi dizendo que a ONU teria “perdido sua relevância” e estava “morrendo lentamente”.
“Vale lembrar que a AIEA faz parte do sistema ONU”, disse Zakharova.
“Tais comentários sobre a ONU — que dificilmente podem ser descritos como críticas construtivas — devem ser analisados à luz da campanha eleitoral do funcionário argentino-italiano ao cargo de Secretário-Geral da ONU”, seguiu.
“Consideramos suas alegações sobre a ‘morte lenta’ da ONU extremamente exageradas e destinadas, sobretudo, a atrair a atenção da comunidade internacional e ampliar o apoio à sua candidatura.
Francamente, não creio que isso tenha funcionado muito bem.”
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Zakharova foi além: “Criticar as Nações Unidas é algo que está na moda, embora eu diria que essa moda não seja tão atual assim; também estava em voga há dez ou vinte anos.“ Reconheceu que existem fundamentos para queixas.
“Sim, a Organização atravessa momentos difíceis.
Isso é um fato.
Mas por que, e por culpa de quem? Isso é o que importa.”
A porta-voz criticou a gestão de Guterres, que teria adotado “uma postura abertamente parcial em várias questões fundamentais da agenda” e “privatizado” o Secretariado ao priorizar os interesses de países ocidentais.
“Nesse contexto, Moscou atribui grande importância à eleição de um novo Secretário-Geral da ONU, que deve ocorrer este ano.
O processo já está em andamento.
A Rússia aceitará apenas um candidato que mantenha uma posição equidistante, aplique os princípios da Carta da ONU de forma consciente e sem seletividade e promova uma agenda unificadora”, seguiu Zakharova.
A mensagem pode dificultar a candidatura de Grossi porque os candidatos precisam ter nove fotos favoráveis entre os 15 membros do Conselho de Segurança da ONU e, mais importante, nenhum voto contrário dos cinco membros permanentes --EUA, China, França, Reino Unido e Rússia.
Só estes cinco países têm poder de veto, ou de “desencorajar” um candidato, nos termos da diplomacia.
Foi a segunda “votação indicativa” do gênero, que revela a tendência parar a escolha do novo nome.
No mês passado, a ex-vice-presidente da Costa Rica, Rebeca Grynspan, foi a favorita.
Em ambas Grossi ficou em terceiro lugar.
Podem existir várias rodadas destas “straw polls”, ainda mais em um cenário pouco consensual como este.
Os membros do Conselho de Segurança votam a portas fechadas se apoiam, desencorajam, ou não tem opinião sobre um candidato.
Só quando a escolha está mais próxima de definição é que os cinco membros permanentes usam cédulas de cor diferente, o que permite que o candidato saiba se foi rejeitado por algum deles.
Na votação de hoje Carolyn Birkett recebeu 8 votos de apoio, 3 de desencorajamento e 4 de sem opinião; Rebeca Grynspan obteve 7 de apoio, 4 de desencorajamento e 4 não opinaram.
Rafael Grossi seguiu com 7 de apoio, mas sua rejeição saltou de 2 votos na rodada de julho para 6 agora.
Michelle Bachelet, ex-presidente do Chile, não foi bem.
Apoiada pelo Brasil e pelo México recebeu 2 votos de apoio (eram 6 em julho) e 6 de desencorajamento.
O número de “sem opinião”, contudo, saltou de 4 para 7.
Ainda é cedo para entender quem tem mais chances na disputa que pode eleger a primeira secretária-geral da ONU em 81 anos de história das Nações Unidas.
O prazo final é 31 de dezembro, quando Guterres despede-se do cargo.
Diplomatas que acompanham o processo dizem que muitos novos nomes podem surgir.
Tem quem arrisque o palpite que o novo secretário-geral da ONU não é nenhum dos oito candidatos atuais.
