A sensação de estar sempre cansado deixou de ser um episódio pontual para muitas pessoas e passou a fazer parte da rotina.
Entre notificações constantes, excesso de compromissos e a dificuldade de estabelecer pausas, o esgotamento mental se tornou um dos sinais mais evidentes do ritmo acelerado da vida contemporânea.
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Dados recentes indicam que esse cenário já afeta milhões de brasileiros.
Mais do que a falta de energia, o desgaste aparece em diferentes áreas: na qualidade do sono, na concentração, no humor e na forma como lidamos com as demandas do dia a dia.
Para a especialista em Neurociência Neiva Dourado, um dos pontos mais preocupantes é a forma como a exaustão passou a ser normalizada.
"Costumo afirmar que o intrigante não é a insônia ou o dia seguinte, é a naturalidade com que todos nós passamos a conviver com a exaustão.
Dormir mal, viver acelerado, comer correndo, responder mensagens sem pausa e seguir adiante como se o corpo não cobrasse nada disso virou quase um padrão.
Entretanto, a neurociência nos lembra que o cérebro registra tudo e responde, e isso não é força de expressão", destaca.
A relação entre descanso e bem-estar também aparece em levantamentos sobre o sono.
Uma pesquisa global realizada pela ResMed com mais de 30 mil pessoas em 13 países mostrou que uma parcela significativa dos entrevistados enfrenta dificuldades para dormir.
Segundo os dados, 34% relatam problemas para adormecer e 29% têm dificuldade para permanecer dormindo.
Para Neiva, o problema não está apenas na quantidade de horas na cama, mas na qualidade desse descanso.
"Eu costumo pensar que esse dado diz muito sobre a época em que vivemos.
Não basta deitar cedo, já que o cérebro precisa de previsibilidade, silêncio, rotina e tempo para se recuperar.
Quando isso não acontece, o impacto aparece no humor, na memória, na concentração e na forma como nos relacionamos com as pessoas" explica.
Os efeitos de noites mal dormidas podem ultrapassar o cansaço físico.
O mesmo levantamento aponta que 51% dos participantes sentem sonolência durante o dia após um período de pouco descanso, enquanto 48% relatam alterações de humor e 31% percebem dificuldade de concentração.
Segundo Neiva, um dos desafios está justamente em reconhecer esses sinais antes que eles se transformem em um problema maior."O relatório ainda aponta que 22% das pessoas não pretendem procurar ajuda, mesmo reconhecendo que enfrentam problemas relacionados ao sono.
Isso me faz pensar em como aprendemos a tratar os avisos do corpo como se fossem apenas parte da rotina, mas não são", acrescenta.
O impacto da sobrecarga constante também envolve aspectos emocionais.
Estresse prolongado, ansiedade e privação de descanso podem afetar memória, atenção, capacidade de aprendizado e tomada de decisões.
Para a especialista, a reflexão precisa ir além da busca por soluções rápidas.
"É preciso ressaltar que estresse crônico, ansiedade, sobrecarga e privação de descanso não ficam apenas na mente, mas alteram o funcionamento do cérebro, comprometem memória, atenção, capacidade de aprendizado, tomada de decisão e até o sistema imunológico.
Aos poucos, o organismo inteiro começa a pagar essa conta.
Talvez a pergunta mais importante não seja quantas horas estamos dormindo, mas o que a nossa rotina está fazendo com o nosso cérebro? Tenho a impressão de que passamos tempo demais tentando controlar sintomas e tempo de menos revisando as causas", diz.
Por que chegamos a esse nível de cansaço?
Para o psicólogo Alessandro Vianna, o esgotamento atual está relacionado a uma combinação de estímulos permanentes, cobranças por produtividade e dificuldade de desconexão.
A mente, segundo ele, passou a operar em um ambiente de excesso de informações e poucas oportunidades de recuperação.
"Em termos neurobiológicos, o córtex pré-frontal, responsável pelas decisões, foco e controle de impulsos, trabalha em estado de sobrecarga contínua.
Não temos espaço para o repouso cognitivo ou para o ócio, o que é essencial.
O resultado é uma mente em estado de ameaça velado, gastando energia no processamento de ruídos descartáveis enquanto tenta equilibrar as demandas da vida real", esclarece.
O psicólogo observa que as queixas nos consultórios também mudaram.
Em vez de apenas situações específicas, muitas pessoas chegam relatando uma sensação constante de desgaste, dificuldade de concentração, falhas de memória e falta de disposição para atividades que antes traziam prazer.
Um dos fatores envolvidos é a relação com as telas.
O fluxo contínuo de notificações e conteúdos rápidos estimula uma busca permanente por novos estímulos e pode dificultar momentos de pausa e presença.
Para Alessandro, o caminho passa por mudanças de hábito que devolvam espaço para a desaceleração.
Entre as estratégias estão criar períodos sem telas ao longo do dia, especialmente no início e no fim da rotina, além de recuperar momentos de ócio, como caminhar sem estímulos digitais ou simplesmente permanecer alguns minutos sem consumir informações.
Outro ponto importante é a chamada higiene do sono, com horários mais regulares, exposição à luz natural durante o dia e uma rotina que favoreça o descanso.
O movimento físico também tem papel relevante, assim como estabelecer limites nas relações pessoais e profissionais.
"Estabelecer limites relacionais e profissionais, aprendendo a dizer ‘não’ para proteger a capacidade atencional e a energia psíquica são atitudes que farão diferença nessa nova fase e para a longevidade", conclui.
