Em janeiro, uma operação para acelerar a universalização do esgotamento sanitário em São Paulo mostrou como recursos públicos e privados podem ser combinados para viabilizar investimentos de grande escala.
O desenho teve duas partes: um empréstimo A de US$ 150 milhões do BID Invest e uma emissão de US$ 1,35 bilhão em títulos azuis — os blue bonds, títulos de dívida vinculados a projetos de água e saneamento — colocada junto a investidores privados.
Na proporção, cada dólar do multilateral trouxe nove dólares de mercado.
A operação foi a maior do mundo já realizada nesse formato e esteve associada a uma meta verificável: elevar a cobertura de coleta e tratamento de esgoto de 85% para 99% até 2029, alcançando milhões de pessoas.
Mas a pergunta que interessa é: por que esse dinheiro não tinha aparecido antes?
Não é escassez de capital.
Há liquidez disponível e investidores procurando ativos de infraestrutura com prazo longo.
O que muitas vezes falta são projetos que o capital consiga analisar — com prazo definido para cada etapa, risco repartido entre quem consegue carregá-lo e métricas auditáveis de entrega.
Enquanto isso não existe, o investimento não acontece.
O diagnóstico recorrente de que falta investimento para o saneamento, portanto, descreve mal o problema.
A ideia por trás do chamado blended finance é simples e nada exótica: nem todo capital tem o mesmo apetite.
Bancos de desenvolvimento e recursos públicos toleram prazos longos e incerteza na largada.
Fundos de pensão, seguradoras, bancos privados e investidores institucionais precisam de previsibilidade para entrar.
Em vez de procurar uma única fonte disposta a assumir todo o risco do projeto — o que raramente existe — a operação é organizada em camadas, e cada tipo de capital ocupa aquela que consegue suportar.
Nesse arranjo, o papel do multilateral não é financiar sozinho a obra, mas ajudar a retirar do caminho o risco que impedia o investidor privado de financiá-la.
Boa parte desse trabalho acontece antes da captação e quase nunca aparece.
Projetos de infraestrutura chegam ao mercado com lacunas de informação, dúvidas regulatórias e dificuldade de comprovar impacto.
Organizar isso — estudo técnico, licenciamento, contrato, indicador verificável — é o que separa uma intenção de investimento de uma operação financiável.
O tamanho da conta justifica o esforço.
Segundo o Banco Mundial, os países em desenvolvimento investem cerca de US$ 164 bilhões por ano em água e saneamento.
Mais de 90% desse volume vem do setor público.
Depois do endividamento acumulado na pandemia, a capacidade dos orçamentos públicos ficou mais pressionada, no Brasil e em outros países.
Nesse contexto, ampliar a participação do capital privado deixa de ser uma opção acessória e passa a fazer parte obrigatória da equação.
No Brasil, a conta tem data.
O Marco Legal do Saneamento fixou 99% de cobertura de água potável e 90% de coleta e tratamento de esgoto até 2033.
Um estudo do Instituto Trata Brasil com a GO Associados calcula que faltam cerca de R$ 431 bilhões para chegar lá, o equivalente a R$ 48 bilhões por ano, todos os anos, até o prazo final.
Em São Paulo, o compromisso é ainda mais curto: universalizar o serviço até 2029.
E não se financia tudo do mesmo jeito.
Uma estação de tratamento, uma adutora, uma intervenção em área de ocupação informal e um programa de redução de perdas têm prazos, riscos e retornos diferentes entre si.
Tratar essas frentes como um bloco único de investimento é o erro que pode travar um bom projeto antes mesmo de ele chegar ao mercado.
É nesse ponto que a agenda deixa de ser assunto da área de sustentabilidade e vira assunto de estrutura de capital — portanto, da área financeira.
Cabe ao CFO traduzir a meta de universalização em plano de investimento, o plano em estrutura de financiamento e a estrutura em indicadores que investidor, banco, agência multilateral e regulador consigam acompanhar ao longo da execução.
Sem essa tradução, uma meta ambiental corre o risco de virar apenas um parágrafo de relatório anual.
Essa tradução tem uma contrapartida.
Quem estrutura precisa mostrar qual risco foi efetivamente mitigado, quanto capital privado foi de fato mobilizado e como o resultado será medido.
Sem isso, o blended finance vira apenas dinheiro mais barato com nome melhor — e o mercado, com razão, acaba cobrando a diferença.
Nas finanças sustentáveis, captar é metade da equação; a outra metade é demonstrar o que foi entregue.
A lição da operação de janeiro não é sobre um instrumento financeiro, mas sobre ordem.
Primeiro, o projeto se torna financiável; depois, o dinheiro chega.
Quem inverte essa sequência vai passar os próximos anos discutindo falta de recursos com o capital esperando na porta.
Sobre o autor
Daniel Szlak é membro da Diretoria Vogal do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças de São Paulo (IBEF-SP) e CFO da Sabesp.
O Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças de São Paulo (IBEF-SP) é uma organização sem fins lucrativos, formada por profissionais do ecossistema de finanças e administração, cujo faturamento das empresas administradas representa 25% do PIB brasileiro.
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