A análise do prontuário médico da empresária Giovanna Coelho, de 29 anos, morta após ser submetida a uma série de procedimentos estéticos em um hospital particular de Belém, levou a família a levantar novos questionamentos sobre a assistência prestada à paciente no período pós-operatório.
De acordo com Ana Coelho, irmã de Giovanna, o documento, que possui 181 páginas, registra os horários em que profissionais foram acionados, as queixas apresentadas pela paciente e alterações progressivas nos sinais vitais antes de ela sofrer as paradas cardíacas.
A Polícia Civil do Pará, por meio da Seccional do Comércio, investiga as circunstâncias da morte.
O Conselho Regional de Medicina do Estado do Pará (CRM-PA) também acompanha o caso.
Além do cirurgião plástico André Melo, já citado pela família desde o início do caso, Ana afirma que a análise do prontuário também levantou questionamentos sobre a atuação dos médicos Marcelo Antony Dantas de Veiga Cabral, que estava de plantão durante a madrugada, e Aline do Socorro Lima Kzam, que estava no plantão durante a manhã.
Ambos devem prestar depoimento à Polícia Civil na próxima semana.
Giovanna deu entrada no hospital por volta das 6h30 da sexta-feira, 7 de agosto.
Segundo a família, ela foi submetida a abdominoplastia, lipoaspiração, colocação de prótese de mama e enxerto de gordura nos glúteos.
A cirurgia começou por volta das 9h30 e durou aproximadamente quatro horas.
A empresária retornou ao quarto entre 16h e 17h.
Segundo Ana, Giovanna chegou consciente e orientada e apresentava sinais vitais considerados normais.
Durante a noite, porém, começou a reclamar de fortes dores abdominais e também de dores no peito.
A família afirma que, por volta das 23h, Giovanna enviou mensagem para uma das secretárias da clínica relatando que estava com muita dor.
Durante a madrugada [de sexta-feira para o sábado], o quadro teria se agravado.
“Quando nós recebemos as 181 páginas do prontuário, percebemos que não era apenas uma questão envolvendo o André.
Aparecem outros profissionais que foram acionados durante o período em que a Giovanna estava passando mal.
O Marcelo Dantas era o médico do plantão da noite e a Aline Kzam era a médica do plantão da manhã.
O que estamos fazendo agora é justamente entender a participação de cada um deles e por que a assistência demorou tanto”, afirmou Ana.
Médico plantonista teria sido acionado às 1h47
Segundo a irmã da empresária, um enfermeiro da unidade acionou o médico Marcelo Antony Dantas de Veiga Cabral às 1h47 da madrugada para avaliar Giovanna.
Ana afirma que o prontuário registra que o profissional foi chamado, mas não teria comparecido ao quarto até as 3h50, enquanto a paciente continuava apresentando as mesmas queixas.
“À 1h47 da manhã, o médico do plantão foi acionado para avaliar a Giovanna.
O próprio prontuário registra que ele foi chamado e que, até 3h50, não havia comparecido.
Depois, por volta das 4h40, ele prescreve uma medicação para dor sem ter avaliado a paciente presencialmente.
E, nesse intervalo, os sinais vitais dela já estavam alterados.
Então, a nossa pergunta é: por que uma paciente que estava com dor, com saturação baixa e frequência cardíaca alterada não foi avaliada por um médico?”, questionou.
De acordo com Ana, os registros de sinais vitais mostram que a situação clínica da empresária já apresentava alterações durante a madrugada.
Segundo ela, às 4h a saturação de oxigênio estava baixa e havia taquicardia.
A família também questiona a prescrição de medicamento para dor sem uma avaliação presencial da paciente.
Para Ana, a sequência dos registros demonstra que Giovanna apresentava uma deterioração clínica progressiva.
Família questiona ausência do cirurgião
Outro ponto destacado pela família é a atuação do cirurgião André Melo no período pós-operatório imediato.
Segundo Ana, o enfermeiro teria comunicado ao médico que Giovanna estava passando mal.
A família também teria tentado contato com o cirurgião por meio da secretária Karol Cardoso.
“O André também foi acionado.
O enfermeiro comunicou que ela estava passando mal, a minha mãe tentou contato e nós temos mensagens e áudios mostrando essa tentativa de conseguir assistência.
O que consta para nós é que ele sabia que a paciente estava com dor e que estava passando mal, mas informou que só iria ao hospital mais tarde.
O problema é que ela estava no pós-operatório imediato de uma cirurgia de grande porte e, naquele momento, precisava ser avaliada pelo próprio cirurgião”, disse.
A família afirma que, durante a madrugada, a mãe de Giovanna pediu insistentemente que o cirurgião fosse chamado.
Segundo Ana, teria recebido a informação de que ele não seria acionado durante a noite.
Por volta das 5h, ainda segundo a família, a secretária teria ido ao quarto e visto o estado da paciente.
Ana afirma que, naquele momento, Giovanna continuava reclamando de muita dor.
A irmã também relata que, entre 6h e 8h, os sinais vitais da empresária apresentaram piora.
Às 8h, segundo a análise feita pela família, a saturação de oxigênio teria chegado a 63%, enquanto a frequência cardíaca estaria em 46 batimentos por minuto e a temperatura corporal em 34°C.
Para Ana, esses registros são importantes porque indicariam que a piora clínica não ocorreu de forma repentina.
“O prontuário vem para coroar tudo aquilo que a família já vinha questionando.
Ele registra os horários, as queixas dela, os sinais vitais e também os momentos em que os médicos foram acionados.
O que nós conseguimos identificar é uma sequência de demora na assistência, principalmente durante a madrugada, quando ela estava com dor e apresentando alterações nos sinais vitais.
Para nós, isso é muito grave, porque ela estava dentro de um hospital particular, em uma ala destinada a pacientes de cirurgia plástica, e precisava ter acompanhamento médico no pós-operatório”, declarou.
Transferência para a sala vermelha
Segundo Ana, a médica Aline do Socorro Lima Kzam, que estava no plantão da manhã, avaliou Giovanna por volta das 9h30.
A transferência para a sala vermelha teria ocorrido às 10h20.
A família questiona o intervalo entre os primeiros sinais de agravamento e a transferência para uma área de atendimento de emergência.
“Se ela já estava inconsciente, desorientada, com a saturação em torno de 60, em um quadro que, na nossa avaliação, exigia uma intervenção imediata, por que toda essa demora? Por que esses médicos não foram avaliar antes? O prontuário mostra a deterioração dos sinais vitais ao longo das horas.
Não foi simplesmente uma situação em que ela estava bem e, 20 minutos depois, teve uma parada.
Ela vinha apresentando sinais de que alguma coisa estava errada”, afirmou Ana.
Ainda segundo a família, Aline teria prescrito morfina inicialmente e posteriormente suspendido a medicação após nova avaliação.
Quatro paradas cardíacas
Já na sala vermelha, Giovanna sofreu as primeiras paradas cardíacas.
Segundo Ana, a paciente permaneceu em reanimação por cerca de 26 minutos, foi intubada e passou a receber atendimento da equipe que estava no local.
O cirurgião André Melo e o anestesista Cesar Collyer também participaram do atendimento nesse momento, conforme o relato da família.
Depois, segundo Ana, os dois deixaram o hospital.
Horas mais tarde, Giovanna sofreu uma nova parada cardíaca.
A família afirma que ela foi novamente reanimada, dessa vez durante aproximadamente 11 minutos.
Segundo Ana, a médica responsável pelo atendimento na sala vermelha entrou novamente em contato com André Melo e Cesar Collyer.
De acordo com o relato da irmã, apenas o anestesista retornou.
A família decidiu então contratar uma equipe particular de médicos intensivistas para avaliar Giovanna.
Foi nesse momento, segundo Ana, que exames apontaram uma queda importante na hemoglobina.
Ela afirma que a empresária apresentava hemoglobina de 12,7 antes da cirurgia e chegou à sala vermelha com índice de 2,7.
Um ultrassom teria identificado líquido na cavidade abdominal.
Também foi realizado um exame cardíaco para investigar a possibilidade de tromboembolismo.
Segundo Ana, não foram identificados trombos ou sinais de embolia.
Diante da suspeita de sangramento interno, uma equipe de cirurgia geral teria realizado uma laparotomia exploradora, procedimento utilizado para investigar a origem de um possível sangramento dentro da cavidade abdominal.
Família questiona registros da cirurgia
Além da assistência no pós-operatório, a família também aponta dúvidas relacionadas ao próprio procedimento cirúrgico.
Segundo Ana, não constariam no prontuário informações sobre a quantidade de gordura retirada, o volume de líquidos perdido ou a quantidade de sangue eventualmente perdida durante a cirurgia.
“Não tem nenhuma estimativa de perda de volume de líquido ou de gordura no prontuário.
Em nenhum momento está descrito quanto de líquido foi retirado, quanto de sangue foi perdido, quanto de gordura foi retirada e se esses volumes eram adequados ou não para o procedimento.
Essas são informações que nós entendemos que precisam ser esclarecidas para que seja possível entender o que aconteceu”, afirmou.
A família também questiona a duração da cirurgia e a realização de múltiplos procedimentos no mesmo ato.
Ana, no entanto, faz uma ressalva: embora levante questionamentos sobre a cirurgia, afirma que ainda não é possível apontar tecnicamente que houve erro cirúrgico.
“Eu ainda não consigo afirmar que houve um erro técnico durante a cirurgia.
Não seria responsável da minha parte fazer essa afirmação sem o laudo pericial.
O que eu consigo apontar, a partir do prontuário, são os questionamentos relacionados à assistência no pós-operatório, à demora para avaliação e à evolução dos sinais vitais.
O laudo vai ser importante para esclarecer o que aconteceu dentro do centro cirúrgico e qual foi a causa da morte”, declarou.
Laudo pericial ainda é aguardado
O laudo do Instituto Médico Legal (IML), responsável pelos exames periciais, ainda é aguardado pela família.
Segundo Ana, foram necessários exames complementares para esclarecer a causa da morte.
A irmã afirma que o prazo inicialmente informado era de 30 dias e que, até o momento da entrevista, o documento ainda estava dentro desse período.
O resultado é considerado pela família uma peça importante para esclarecer a causa da morte e verificar se houve relação entre os procedimentos cirúrgicos, as complicações apresentadas no pós-operatório e a sequência de paradas cardíacas.
Família quer responsabilização
A família afirma que pretende buscar a responsabilização de todos os profissionais que, na avaliação dos parentes, tiveram participação direta ou indireta no atendimento de Giovanna.
Segundo Ana, técnicos de enfermagem, enfermeiros, médicos e familiares já foram ouvidos ou chamados a prestar esclarecimentos no curso da investigação.
“O prontuário é um dos pontos principais para entender o que aconteceu, porque ele organiza a ordem dos acontecimentos.
Ele mostra quando ela começou a reclamar, quando os sinais vitais se alteraram, quem foi acionado e quais foram as condutas registradas.
Se alguém fez alguma coisa e não registrou, é preciso esclarecer de outra forma.
Mas, quando existe um documento com os horários e os registros, ele se torna uma peça muito importante para reconstruir o que aconteceu”, afirmou.
A família também pretende levar o caso a outras instâncias de apuração, incluindo órgãos de fiscalização profissional.
Ana afirma que espera que a investigação resulte não apenas na responsabilização de eventuais envolvidos, mas também em mudanças nos protocolos de segurança para pacientes submetidos a cirurgias de maior porte.
“A minha irmã não vai voltar.
O que eu espero é que a morte dela não seja em vão e que a investigação consiga esclarecer tudo o que aconteceu.
Se houve responsabilidade, que cada pessoa responda pelo que fez ou deixou de fazer.
Mas eu também espero que esse caso provoque mudanças, que existam protocolos mais claros para cirurgias de grande porte e para o acompanhamento do paciente no pós-operatório.
O paciente não pode ser tratado apenas como um cliente que pagou por um procedimento.
É uma pessoa que precisa ser cuidada”, declarou.
Para Ana, o caso deve servir também para ampliar a discussão sobre a segurança de pacientes submetidos a procedimentos estéticos combinados.
“Cirurgias combinadas são realizadas todos os dias e a Giovanna não foi a primeira pessoa a fazer uma cirurgia desse tipo.
O que precisa ser avaliado é se aquela paciente tinha critérios para realizar os procedimentos, se havia estrutura adequada e, principalmente, se existia acompanhamento suficiente antes, durante e depois da cirurgia.
Você confia no médico para avaliar esses riscos.
O que nós queremos agora é saber se tudo isso foi feito no caso da minha irmã”, afirmou.
Advogado da família aponta até quatro médicos que podem ser indiciados no caso Giovanna
Para o advogado criminalista Marco Pina, que representa a família, os documentos e depoimentos já reunidos no inquérito apontam indícios de possível responsabilidade também dos médicos Marcelo Antony Dantas de Veiga Cabral e Aline do Socorro Lima Kzam, além do cirurgião André Melo e do anestesista Cesar Collyer.
Segundo o advogado, os dois novos nomes deverão ser ouvidos pela Polícia Civil nos próximos dias.
Para ele, os depoimentos serão importantes para esclarecer a participação de cada profissional na assistência prestada a Giovanna durante o período pós-operatório.
“O prontuário trouxe à polícia muitas revelações e, aliado aos depoimentos e às provas documentais que estão instruindo o inquérito, evidencia que não foi só o doutor André Melo e nem só o médico anestesista Cesar Collyer.
Surge agora a figura de outros dois médicos, o doutor Marcelo Dantas e a doutora Aline Kzam.
Eles terão que explicar muita coisa, porque existem indícios fortíssimos de que tiveram responsabilidade direta no evento morte”, afirmou Marco Pina.
O advogado ressalta, porém, que a investigação ainda não foi concluída e que a definição dos responsáveis caberá à autoridade policial, a partir da análise de todas as provas.
Segundo ele, o inquérito está próximo da fase final, dependendo principalmente dos últimos depoimentos e da conclusão do laudo pericial que deverá apontar a causa da morte de Giovanna.
Homicídio culposo
Na avaliação de Marco Pina, os elementos já reunidos apontam, em tese, para a possibilidade de enquadramento de André Melo e Cesar Collyer pelo crime de homicídio culposo.
O advogado ressalta que se trata de uma avaliação pessoal baseada no conteúdo do inquérito ao qual teve acesso como representante da família e que a definição da capitulação penal caberá à autoridade policial e, posteriormente, ao Ministério Público e à Justiça.
“Eu não tenho dúvida de que, pelo que estou acompanhando, pela minha experiência na advocacia criminal e pelo que tem nos autos, o doutor André Melo e o doutor Cesar Collyer serão indiciados.
Ao meu sentir, pelo menos neste momento, a questão do homicídio culposo está bem definida em razão da negligência.
O laudo pode ainda apontar elementos de imperícia ou imprudência, mas a negligência, para mim, já está sedimentada”, declarou.
O homicídio culposo ocorre quando uma pessoa provoca a morte de outra sem intenção de matar, mas por uma conduta marcada por negligência, imprudência ou imperícia.
No caso de profissionais da área da saúde, a análise pode considerar ainda circunstâncias relacionadas ao exercício da profissão.
De acordo com o advogado, o laudo pericial será fundamental para verificar se, além da alegada negligência, também houve elementos que possam caracterizar imprudência ou imperícia nas condutas investigadas.
“A negligência está configurada, na minha avaliação.
Agora vamos verificar, com os depoimentos e principalmente com o laudo que vai chegar, se aparecem também elementos de imperícia e imprudência.
Isso é o que poderá fechar a análise sobre o tipo penal.
Mas, neste momento, ao meu sentir, André Melo e Cesar Collyer deverão ser indiciados por homicídio culposo em razão da negligência”, afirmou.
De três a quatro indiciados
A expectativa do advogado é de que o inquérito resulte no indiciamento de pelo menos três médicos e, possivelmente, de quatro profissionais.
Segundo ele, André Melo e Cesar Collyer seriam, em sua avaliação, os nomes com maior probabilidade de indiciamento.
Marcelo Dantas e Aline Kzam também poderão ser incluídos, dependendo dos depoimentos que prestarão e da análise final da Polícia Civil.
“Eu enxergo o desfecho desse caso com pelo menos três a quatro indiciados, e todos médicos.
O doutor André Melo é o principal, porque foi quem realizou a cirurgia e Giovanna era paciente dele.
O doutor Cesar Collyer, na minha avaliação, também será indiciado.
E restam os outros dois médicos, que podem ser os dois ou apenas um deles.
Mas acredito que de três a quatro serão indiciados, pelo que já foi produzido até agora”, disse.
Marco Pina também afirmou que, por causa do segredo de Justiça, não poderia detalhar o conteúdo de determinados documentos ou depoimentos.
Segundo ele, entretanto, o prontuário já permitiu reconstruir diferentes momentos do atendimento prestado à empresária desde a cirurgia até a morte.
“Em razão do segredo de Justiça, não posso dar maiores detalhes, mas posso afirmar que o prontuário revelou muita coisa.
Ele mostra situações que, na nossa avaliação, não deveriam ter acontecido desde o momento em que ela entrou na sala de cirurgia até o óbito.
Foram revelados vários momentos em que diferentes profissionais tiveram, de maneira direta ou indireta, maior ou menor participação”, declarou.
O advogado afirma que aguarda agora a conclusão da perícia e os últimos depoimentos para que a Polícia Civil possa definir quem deverá ser responsabilizado.
“A chegada do laudo com a causa da morte será decisiva para complementar esse quebra-cabeça.
A autoridade policial terá então condições de finalizar o inquérito, fazer o relatório e indiciar quem entender que deve ser indiciado, encaminhando o procedimento à Justiça”, afirmou.
Outro lado
A reportagem do Grupo Liberal tenta localizar os médicos André Melo, Cesar Collyer, Marcelo Antony Dantas de Veiga Cabral e Aline do Socorro Lima Kzam ou a defesa deles, para que se manifestem sobre o caso.
O espaço segue aberto.
