Castro alegou 'reajuste em aluguel' para deixar casa em Petrópolis dias após orçar obra de R$ 245 mil em adega - QTU Questões do Universo

Castro alegou 'reajuste em aluguel' para deixar casa em Petrópolis dias após orçar obra de R$ 245 mil em adega

Fonte: Bandeira da fonte

Investigação da Polícia Federal (PF) aponta que o ex-governador Cláudio Castro (PL) rompeu, no início deste ano, o contrato de locação de uma casa em Petrópolis, na região Serrana do Rio, poucos dias após orçar uma obra de R$ 245 mil para reformar a adega do imóvel.
No distrato contratual, Castro alegou a "impossibilidade" de seguir na casa por "reajustes aplicados ao valor do aluguel", que custava R$ 3,5 mil mensais.
A mudança repentina ocorreu logo depois de Castro ser cassado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) por abuso de poder político e econômico, em março.
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As informações sobre o uso feito por Castro do imóvel, que constam no âmbito da Operação Sem Refino, em agosto deste ano, levaram a Procuradoria-Geral da República (PGR) a concluir que o ex-governador "exercia a posse de fato" da casa, que estava registrada em nome de um empresário.

A PF apura se Castro recebeu benefícios da Refit, através de terceiros, como contrapartida por favorecer interesses do empresário Ricardo Magro na gestão estadual.
A suspeita dos investigadores é que a reforma no imóvel de Petrópolis se inseria em um contexto de "branqueamento de capitais, por meio da utilização de interposta pessoa para a quitação de suas despesas cotidianas incompatíveis com seus rendimentos lícitos".
A PF identificou mensagens em que Castro se referia à reforma da adega como "minha obra", e também colheu o depoimento do profissional responsável pelo projeto, que disse estar "fazendo um trabalho pro Cláudio Castro".
Em nota, a defesa do ex-governador disse que o imóvel em Petrópolis "era alugado" e negou "qualquer participação em esquema de lavagem de dinheiro, recebimento de vantagem indevida ou favorecimento a terceiros".
À esquerda, Castro recebe proposta final de reforma da adega, no dia 31 de março de 2026; à direita, o ex-governador comenta as intervenções em andamento
Reprodução/PF
Nas mensagens obtidas, no dia 4 março de 2026, Castro questiona o andamento da reforma da adega na casa de Petrópolis, referindo-se a ela como "minha obra", e autoriza a continuidade das intervenções.
O imóvel em questão constava como alugado por Castro desde outubro de 2023, e tinha como proprietária formal a empresa Concrecasa Construções.

Segundo a PF, a firma é ligada ao empresário Luiz Fernando Gomes, que obteve contratos de R$ 355 milhões do governo estadual durante a gestão Castro, conforme noticiado pelo portal Metrópoles e confirmado pelo GLOBO em julho.
O aluguel de Castro em Petrópolis era válido até setembro de 2028, com aluguel mensal de R$ 3,5 mil.
Como é padrão nesse tipo de contrato, o documento, obtido pela PF, vetava obras que "alterem ou modifiquem a estrutura do imóvel", salvo em caso de autorização dos proprietários.
"Adega Cláudio Castro"
Poucos dias depois, em 7 de março, ainda de acordo com as mensagens, Castro recebeu o projeto preliminar, enviado pelo sommelier Dionísio Chaves, responsável por planejar a nova adega do imóvel.
Castro, à época ainda governador do Rio, respondeu questionando Dionísio se ele já havia marcado a visita à casa, e elogiou o projeto, chamado de "Adega Cláudio Castro".
"Achei lindo", escreveu Castro.
No dia 31 de março, Dionísio enviou a Castro a proposta final da adega.
Embora o valor total da intervenção fosse de R$ 490 mil, ele ofereceu um desconto a Castro para fazer por metade desse valor, R$ 245 mil.
Em depoimento à PF posteriormente, Dionísio explicou que o abatimento se deu porque Castro já havia contratado outra equipe para tocar parte das intervenções.
"Esse desconto é porque toda a parte civil que a gente coloca nos nossos projetos já estava sendo executada pelo pessoal dele.
Então toda a parte, por exemplo, de drenagem, de tubulação, de equipamento, inclusive de refrigeração", explicou Dionísio à PF.
Em 1º de abril, dia seguinte ao recebimento da proposta final da adega, Castro assinou uma "rescisão amigável" com a proprietária do imóvel, justificando os reajustes no aluguel.
Na semana anterior, Castro havia renunciado ao governo do Rio de olho em se candidatar ao Senado, mas acabou imediatamente condenado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) por abuso de poder político e econômico, ficando inelegível por oito anos.
Apesar de ter alegado o reajuste de aluguel como motivo para deixar a casa em Petrópolis, Castro firmou, no mês seguinte, um contrato de locação de uma cobertura na Barra da Tijuca no valor de R$ 10 mil mensais, conforme documentos também obtidos pela PF.
Em seu depoimento, Dionísio afirmou que seu projeto para a adega de Castro não foi executado "por falta de pagamento", depois que o governador deixou o imóvel.
Apesar de Castro ter abandonado a casa há meses, agentes da PF encontraram indícios de que o imóvel segue vazio e ainda com resquícios da presença do ex-governador.

Embrulho e conta da Netflix
Ao deflagrarem a segunda fase da Operação Sem Refino, em agosto, e realizarem busca e apreensão na casa de Petrópolis, os investigadores encontraram uma "embalagem de presente endereçada a Analine", nome da ex-primeira-dama do governo estadual.
Além disso, ao ligarem as televisões da casa, encontraram uma conta em nome da família de Castro.
"Os televisores ali instalados permaneciam conectados, na plataforma de streaming Netflix, a perfis de usuário identificados pelos nomes "Claudio", "Analine" e "João Pedro", que correspondem aos prenomes do alvo, sua esposa e filho respectivamente", diz a PF.
A PGR apontou que Castro "exercia poderes de dono" sobre o imóvel de Petrópolis, embora a casa não tivesse registrada em seu nome, "direcionando reformas, gerindo rotinas e sendo reconhecido por terceiros como o real proprietário".
Procurada, a defesa de Castro disse que ele "não praticou qualquer ato ilícito" e que o imóvel de Petrópolis "era alugado e o contrato já foi encerrado".
O ex-governador negou ainda qualquer relação entre esse imóvel e a Refit.
"São situações distintas, sem relação com a empresa ou com eventual favorecimento", disse a nota.