O ex-governador do Rio Cláudio Castro recebeu uma degustação de caviar em um hotel de luxo de São Paulo, em abril de 2026, paga por um advogado que foi assessor do ex-deputado Domingos Brazão e é suspeito de ligação com o empresário Ricardo Magro, da Refit.
As informações constam em relatório da Polícia Federal (PF) que embasou a Operação Sem Refino 2, deflagrada em agosto deste ano, e que apura envolvimento de integrantes do governo Castro com fraudes que beneficiaram a Refit, antiga Refinaria de Manguinhos -- cuja falência foi decretada pela Justiça do Rio nesta segunda-feira.
O relatório da PF, que estava sob sigilo, foi tornado público nesta quinta-feira por decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, relator da investigação.
Em nota, a defesa de Castro negou haver relação entre a degustação de caviar e assuntos ligados à Refit.
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Segundo a PF, Castro solicitou, no dia 24 de abril deste ano, "a aquisição de diferentes tipos e quantidades de caviar, cujos pedidos totalizaram a quantia de R$ 10.500,00", com entrega no Hotel Emiliano, em São Paulo.
O ex-governador, que havia renunciado ao Executivo estadual no mês anterior, fez o pedido de caviar em contato direto com um representante da empresa BML Caviar Giaveri, conforme mensagens de celular obtidas pela PF.
"Para hoje: Imperial de 100g e um kit", escreve Castro, referindo-se a um tipo e quantidade de caviar.
O ex-governador também explicou que pretendia "levar" de volta para o Rio outra parte da encomenda:
"Para levar: um de cada de 50g...
sete no total.
E três kits", escreve Castro.
Em seguida, ele recebe da empresa uma tabela com os sete tipos de caviar solicitados, incluindo as variedades Imperial, Beluga Siberian, Golden, Ossetra e Sevruga.
Em conversa de WhatsApp, Castro solicitou sete porções de 50g de caviar "para levar" e uma porção de 100g "para hoje", apontam mensagens
Reprodução/PF
Pagamento feito por 'figura central' em lavagem
Ao ser informado sobre a fatura de R$ 10,5 mil, Castro afirmou ao representante da empresa que logo enviaria "o comprovante do Pix".
Dois minutos depois, o ex-governador enviou um comprovante de pagamento feito pela empresa AC Santos Participações e Empreendimentos, empresa do advogado Antonio Carlos da Conceição Santos.
Conhecido como "Pipo", o advogado foi assessor do ex-deputado e ex-conselheiro do Tribunal de Contas do Estado (TCE) Domingos Brazão, condenado como mandante do assassinato da vereadora Marielle Franco.
"Do comprovante se extrai que o pagamento no valor de R$ 10.500,00 foi realizado (...) por meio de transferência via PIX efetuada por pessoa jurídica diversa, qual seja: AC SANTOS PARTICIPAÇÕES E EMPREENDIMENTOS, titularizada por PIPO", diz a investigação.
Pipo também é apontado pela PF como "figura central no esquema de branqueamento de capitais no mais alto escalão do governo do Rio", envolvendo supostos recursos ilícitos pagos por Ricardo Magro a autoridades estaduais para garantir os interesses da Refit.
A investigação apontou indícios de que Pipo mantinha relação societária oculta com o ex-presidente do Instituto Estadual do Ambiente, Renato Jordão Bussiere, acusado de atuar de forma ilícita para garantir a concessão de licenças ambientais à Refit.
Os investigadores afirmam que Bussiere era responsável pelo pagamento de despesas de outra empresa de Pipo, a AC Santos Escritório Jurídico, embora não figurasse como sócio.
De acordo com a PF, a degustação de caviar paga por Pipo a Castro "reforça os indícios de branqueamento de capitais", através da quitação de despesas "incompatíveis" com vencimentos do ex-governador.
"O episódio revela-se relevante porque evidencia, de forma objetiva, a utilização de recursos ou de estrutura empresarial associada a PIPO para quitação de despesa de natureza privada relacionada ao então Governador, o que reforça os indícios de branqueamento de capitais, por meio da utilização de interposta pessoa para a quitação de suas despesas cotidianas e incompatíveis com seus rendimentos lícitos", diz o relatório.
Adega e reforma em cobertura
A investigação da PF lista ainda outros benefícios pagos por terceiros a Castro, e que podem estar relacionados à concessão de vantagens indevidas à Refit.
Entre esses benefícios estão a reforma de uma casa no condomínio Locanda, em Petrópolis, com a construção de uma adega avaliada em R$ 245 mil, e a reforma de uma cobertura no condomínio Península, na Barra da Tijuca, onde Castro mora atualmente.
Os investigadores apontam que Castro supervisionou diretamente essas reformas, embora não figurasse como proprietário dos imóveis.
Ele manteve contrato de locação em Petrópolis até o início deste ano, e assinou um contrato de aluguel na cobertura da Barra em abril de 2026, embora já acompanhasse as obras no local antes disso.
De acordo com a PF, os elementos colhidos sugerem que a "relação entre Cláudio Castro e o Grupo Refit não se limitava ao contato protocolar", mas sim envolviam a "existência de canal direto e privilegiado entre o então Governador, Ricardo Magro e representantes da empresa" para atender a interesses da refinaria.
"Foi nesse contexto que CLÁUDIO CASTRO edificou, no comando do Executivo fluminense, um ambiente institucional favorável à atuação do Grupo REFIT no Estado do Rio de Janeiro, mediante a espoliação dos seus espaços de poder para influenciar decisões regulatórias e governamentais relevantes para os interesses do conglomerado liderado por RICARDO MAGRO", aponta a PF.
Em nota enviada ao GLOBO, a defesa de Castro negou "qualquer participação em esquema de lavagem de dinheiro, recebimento de vantagem indevida ou favorecimento a terceiros".
Em relação à degustação de caviar, a defesa afirma que "a encomenda havia sido feita por um amigo", e que o ex-governador "apenas retirou os produtos (...) tendo consumido um deles com autorização do comprador".
"Não há qualquer ligação entre os episódios envolvendo a compra e os imóveis com a Refit.
São situações distintas, sem relação com a empresa ou com eventual favorecimento.
(...) Cláudio Castro reafirma que não praticou qualquer ato ilícito", diz a nota.
