Cautela domina o crédito privado - QTU Questões do Universo

Cautela domina o crédito privado

Fonte: Bandeira da fonte

A tensão no mercado de crédito privado recuou, após chacoalhões nas cotas dos fundos - provocados pela alta nos pedidos de recuperação extrajudicial - levarem investidores a debandar.
Porém, parte dos gestores não descarta novas sacudidas.
Apesar de enxergarem oportunidades, os profissionais estão escolhendo com bastante cautela os papéis dos portfólios, em um momento em que os juros altos prejudicam a saúde financeira das companhias e as taxas dos títulos voltaram a cair.
Uma parte grande dos fundos de crédito privado registrou prejuízo em março e abril, especialmente os fundos de debêntures incentivadas, o que levou muitos produtos a remunerar abaixo do CDI no primeiro semestre.
A alta das taxas dos títulos que compõem esses fundos - em razão do aumento da percepção de risco após pedidos de recuperações extrajudiciais, atrasos na divulgação de resultados e efeitos da guerra no Oriente Médio nos juros - levou o preço das cotas a cair e deu início a uma onda de resgates.
Contudo, a onda veio menor do que muitos temiam.
Agora, as taxas dos títulos voltaram a cair com a diminuição da percepção de risco e muitos fundos melhoraram os retornos.
Quanto menores as taxas, mais caros ficam os papéis e essa subida é repassada para as cotas dos fundos.
A redução das taxas ocorreu principalmente nos títulos mais conservadores, mas ainda existem papéis sendo negociados com juros acima do seu histórico.
Os fundos de crédito privado voltaram a registrar aplicações de R$ 5,5 bilhões em junho, após três meses de resgates, segundo um relatório do banco ABC Brasil.
Os aportes no primeiro semestre somaram R$ 4,5 bilhões.
Já nos fundos de debêntures incentivadas, o ritmo de retiradas caiu de R$ 13,9 bilhões em maio para R$ 8,9 bilhões em junho.
A saída soma R$ 10,9 bilhões nos primeiros seis meses do ano.
Apesar da acomodação, gestores veem um período ainda conturbado pela frente.
Eles acham que existem oportunidades, mas estão seletivos para escolher os ativos.
O cenário de juros altos aumenta o risco de ocorrerem eventos de crédito nas companhias que causem uma desvalorização dos papéis e com as taxas dos títulos mais amassadas, o que dá mais trabalho para selecionar os ativos.
“Estamos com bastante cautela devido ao momento macroeconômico”, afirmou afirmou Jean-Pierre Cote Gil, gestor na Vinland Crédito, em um painel durante o evento Expert XP, em São Paulo.
“Vejo empresas de boa qualidade com taxas apertadas.
Sabendo ser seletivo, tem oportunidade.
Mas estamos mais seletivos do que nunca.
O ambiente está difícil, com mais trabalho para garimpar”, disse.
Pode ter evento de crédito, mas isso já está no preço dos títulos”
Ainda não dá para saber se os fundos de crédito privado vão chacoalhar mais nos próximos meses, na análise de Ulisses Nehmi, CEO da Sparta.
Ele está cauteloso com a escolha dos papéis, mas não teme uma quebradeira.
“Pode ter evento de crédito, mas isso já está no preço dos títulos.”
Contudo, Nehmi acha que os brasileiros estão exageradamente investidos em crédito privado, o que o preocupa.
Caso os juros recuem, o risco de crédito das companhias cairá, mas a demanda por esses investimentos recuará também.
Então, avalia que os juros dos papéis tendem a subir com a menor demanda, causando perdas para os portfólios dos fundos.
O gestor se preocupa também porque os retornos dos fundos não estão altos o bastante para os brasileiros toparem volatilidade.
Ele teme que, se as oscilações continuarem, os brasileiros podem resgatar mais dinheiro desses fundos.
Já Julia Bretz, sócia da Leto Capital e gestora dos fundos líquidos e fundos agro da Leto Asset Management, acha que as taxas dos títulos estão saudáveis e que não parece haver espaço para uma alta importante das taxas.
Ela destaca que ainda existe uma fatia de papéis negociando acima de CDI mais 3% ou mais, o que é uma oportunidade, apesar de ser um indicativo de risco também.
“Estamos fazendo uma gestão de precisão.
Bem alocados e com caixa menor, mas procurando ter portfólios parecidos com as carteiras dos índices e mais seletivos”, afirmou.
Antonio Pedro Leão Teixeira, sócio da Leto Capital e gestor dos fundos de debêntures de infraestrutura da Leto Asset Management, conta que os resgates zeraram em julho nos fundos dessa classe na casa.
“Enxergo muitas oportunidades, mesmo em um momento de taxas mais apertadas.” Contudo, ele está sendo mais conservador, concentrando a alocação em nomes “premium”.
Daniel Pegorini, CEO da Valora, alerta que os chacoalhões dos fundos não terminaram e nunca acabarão, mas isso não é motivo de preocupação.
“Em vez de ter 10% de juro acima da inflação, os investidores vão ter 9,5%”, afirmou.
“Não estamos preocupados com risco sistêmico.
Eventos de crédito acontecerão com os juros tão altos, mas não ocorrerá uma onda de quebradeiras.” Porém, Pegorini está mais cauteloso com papéis de setores de varejo e saúde, diversificando mais o portfólio e diminuindo o prazo de vencimento dos títulos, para o risco ser menor.