Chafariz histórico na Rua Riachuelo tem pichações e sinais de degradação; prefeitura retira meia tonelada de entulho - QTU Questões do Universo

Chafariz histórico na Rua Riachuelo tem pichações e sinais de degradação; prefeitura retira meia tonelada de entulho

Fonte: Bandeira da fonte

Quem passa hoje pela Rua Riachuelo, na Lapa, pode não imaginar que o chafariz quase escondido no local já foi, há mais de dois séculos, parte da infraestrutura essencial do Rio de Janeiro.
Construído em 1817 para ajudar a abastecer a população, o monumento histórico enfrenta sinais de descuido, com pichações e sujeira no entorno.
Tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 1938, o chafariz apareceu nesta semana em imagens nas redes sociais, aparentemente sendo usado como uma espécie de suporte, com roupas, acessórios e outros objetos apoiados sobre a estrutura.
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O EXTRA esteve no local e encontrou o chafariz com sujeira e pichações.
Procurada pela reportagem, a Prefeitura informou que agentes da Secretaria Municipal de Ordem Pública (Seop) estiveram na área na última quinta-feira (20) e retiraram meia tonelada de entulho.
Segundo o município, os agentes também ofereceram acolhimento às pessoas em situação de rua que estavam no local, mas nenhuma aceitou.
A nota não especifica, porém, se a ação incluiu limpeza ou manutenção do chafariz, nem menciona providências relacionadas às pichações.
Chafariz da Rua do Riachuelo, no Centro, neste domingo (23)
Alexandre Cassiano
A fonte foi construída em um momento de crescimento da cidade, quando o abastecimento de água era um dos principais problemas do Rio, especialmente após a chegada da Família Real, em 1808.
Uma seca agravou a falta d'água em 1817, e as nascentes próximas estavam em terrenos particulares.
Por isso, o então Intendente Geral da Polícia (cargo que equivaleria, hoje, a uma junção de prefeito e um secretário de Segurança Pública), Paulo Fernandes Viana, providenciou a construção do chafariz na antiga Rua de Mata-Cavalos, atual Riachuelo.

— Como não havia água encanada, o sistema consistia em construir chafarizes com bicas públicas.
A população -- principalmente pessoas escravizadas -- pegava essa água e a transportava em tonéis para abastecer a cidade.
— explica o historiador Rafael Mattoso, doutorando em História da Cidade e do Urbanismo.
A importância dessas fontes era tanta que a própria rua mudou de nome.
Segundo o historiador, a via passou a ser conhecida como Rua da Bica depois da construção do chafariz.
A região também era um ponto de circulação de pessoas e mercadorias, em uma cidade que crescia e ampliava sua importância política e comercial.
A estrutura que chegou aos dias de hoje, porém, é apenas parte do chafariz original.
Reformas ao longo do tempo alteraram suas características, e restaram principalmente o tanque em cantaria, as pilastras e a lápide com a inscrição "O Rei por bem de seu povo M.F.E.O (mandado fazer e oferecido) pela Polícia”, seguida do ano de construção, 1817.
Chafariz da Rua do Riachuelo, no Centro, neste domingo (23)
Alexandre Cassiano
O chafariz acabou sobrevivendo às tentativas de demolição e às mudanças da cidade.
Com a expansão do abastecimento de água encanada, perdeu sua função original e passou por novas transformações.
O reconhecimento oficial veio em 1938, quando o Chafariz da Rua do Riachuelo foi tombado pelo Iphan.
Para Mattoso, o tombamento, em esfera federal, representa o reconhecimento de que aquele vestígio da paisagem urbana representa um pedaço da história do país.
— O tombamento é uma iniciativa importante para o reconhecimento institucional da relevância dessa edificação, mas não pode estar isolado; precisa vir acompanhado da necessidade de preservação desse espaço.
Infelizmente, o que a gente vê atualmente é um descuido do poder público com relação à fiscalização, à manutenção, à preservação desses espaços, e até mesmo a dificuldade do reconhecimento da sociedade, de saber o que representa aquela construção.
Para Mattoso, além da atuação do poder público, a preservação passa pelo reconhecimento da importância desses lugares por quem circula pela cidade.
— Os lugares da cidade têm memória.
Essa memória coletiva precisa ser validada, e precisamos realmente fazer com que todos conheçam e reconheçam a importância desses chafarizes, para que não passem despercebidas cenas lamentáveis como essa, onde vemos uma função inapropriada e a degradação do espaço pelo seu uso indevido — afirma.
A situação atual do monumento foi levada pelo GLOBO à Prefeitura, à Secretaria Municipal de Conservação e ao Iphan.
Os órgãos foram questionados sobre o estado de conservação do chafariz, a existência de limpeza, manutenção e fiscalização periódicas, a última intervenção realizada e eventuais providências após a circulação das imagens que mostram mercadorias apoiadas sobre a estrutura.
Uma 'janela para o Rio antigo
Para a historiadora do Museu da Justiça do Estado do Rio de Janeiro Lydia de Carvalho, os chafarizes como o da Rua Riachuelo são vestígios de uma cidade que já não existe, mas que ainda pode ser percebida na paisagem,.
Mesmo fora do contexto original, eles são uma lembrança de como era a cidade e como a população ocupava e interagia com os espaços públicos.
— Hoje, eles estão descontextualizados na paisagem, mas funcionam como uma espécie de janela para refletirmos sobre uma cidade que já foi.
Segundo Lydia, um monumento como o chafariz também permite compreender como a cidade se estruturou e como era a vida de seus moradores.
A preservação, afirma, passa por aproximar esses bens da população por meio da educação patrimonial, criando uma ligação entre o presente e a história daquele lugar.
— No momento em que as pessoas entendem, se sentem identificadas e percebem aquele patrimônio como sendo delas também, elas cuidam, sentem vontade de preservar e divulgar a importância desses espaços — defende.