Quando fala sobre sua história, Eudes Assis não começa pelos prêmios, pelo restaurante Taioba nem pelos chefs estrelados que reúne todos os anos em um dos maiores eventos beneficentes de gastronomia do país.
Antes de tudo isso, ele prefere lembrar do menino que cresceu em um bananal, em Toque-Toque Grande, no Litoral Norte de São Paulo.
Caçula de 14 irmãos, passou a infância em uma casa sem energia elétrica.
A mãe, Dona Madá, hoje com 90 anos, mantinha uma horta de taioba, mandioca e café, secava peixes ao sol, fazia carne na lata e conservava os alimentos na gordura do porco.
Foi observando aquela rotina simples que ele aprendeu a respeitar os ingredientes, a natureza e a cultura da região — valores que se tornaram a essência da sua cozinha.
"Era uma cozinha simples, mas cheia de conhecimento.
Minha mãe foi minha primeira grande inspiração na cozinha.
Foi com ela que eu aprendi a cozinhar, mas também aprendi valores que carrego até hoje: respeito pela comida, pelas raízes e pela tradição caiçara", conta o chef de 49 anos em entrevista à Quem.
Eudes Assis com a mãe, sua maior inspiração
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Hoje, além de comandar o restaurante Taioba, em Camburi, Eudes lidera um dos maiores projetos sociais ligados à gastronomia no Brasil.
Há 14 anos está à frente do Projeto Buscapé, que atende 170 crianças com atividades de esporte, cultura, educação e gastronomia.
Para manter a iniciativa, criou o Arraial Gastronômico, evento beneficente que começou na praia com apenas cinco chefs convidados para arrecadar dinheiro para uniformes e que hoje reúne mais de 60 cozinheiros renomados.
Na edição realizada entre 24 e 26 de julho, estiveram presentes nomes como Janaína Torres, Marcelo Corrêa Bastos, Telma Shimizu, Raul Vieira, Thiago Bañares e Carole Crema.
“Quando o Arraial termina, a sensação é de dever cumprido.
Eu olho para trás e penso: ‘Não acredito que conseguimos reunir mais de 20 mil pessoas em torno de uma causa’.
É essa união que transforma o Arraial em um dos maiores eventos gastronômicos beneficentes do Brasil', diz ele, que em breve divulgará todo o balanço financeiro nas redes sociais.
Chef Eudes Assis com as crianças do projeto Buscapé no 14ª edição do Arraial Gastronômico
André Santos
“Ao longo do ano, os chefs acompanham de perto onde esse dinheiro é investido.
Foi assim que construímos a sede de três andares do Projeto Buscapé, com salas de balé, artes, tatame e duas cozinhas.
Hoje, atendemos 170 crianças com alimentação, esporte, cultura e educação, e muitas delas já conquistam medalhas em competições de judô e taekwondo.Mas o nosso maior orgulho não é formar campeões ou profissionais de sucesso.
É formar bons seres humanos", afirma.
Apesar do crescimento do evento, o que mais o emociona continua sendo ver as crianças ocupando espaço na festa.
"O momento que mais me emociona é ver as crianças vivendo a festa.
Elas ajudam os chefs nas barracas, trabalham nas brincadeiras, cantam, tocam no palco.
E elas sabem que aquela festa é delas."
Eudes Assis valoriza ingredientes, receitas e saberes tradicionais da culinária caiçara
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“A gastronomia rompeu a bolha social da minha família”
A relação de Eudes com a cozinha começou cedo, mas foi em um estágio no Fasano que ele percebeu que poderia construir uma carreira naquele universo.
Depois estudou no Senac de Águas de São Pedro e passou oito anos trabalhando e aprendendo em cozinhas dentro e fora do Brasil.
“Quando entrei naquela cozinha do Fasano, fiquei completamente encantado.
Ver a organização, a excelência dos ingredientes e o profissionalismo de uma grande equipe abriu um mundo novo diante dos meus olhos.
Foi naquele momento que percebi que a cozinha poderia transformar a minha vida e que eu queria seguir esse caminho", explica.
“Eu sou caiçara, o caçula de 14 irmãos, e comecei a trabalhar muito cedo para ajudar na renda da minha família.
Entrei em uma cozinha lavando louça, sem imaginar que aquele lugar mudaria completamente a minha vida.
Foi a gastronomia que rompeu a bolha social da minha família e me levou para o mundo.
Morei oito anos fora do Brasil, trabalhei em grandes cozinhas e aprendi muito", conta.
À frente do Taioba e do Projeto Buscapé, Eudes Assis une gastronomia, tradição e impacto social
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Quando descobriu que seria pai (ele é pai de Leo, de 19), tomou uma decisão que mudaria novamente sua trajetória: voltar definitivamente para São Sebastião.
"Escolhi o Litoral Norte porque tenho um orgulho enorme de ser caiçara.
Essa é a minha terra, o lugar onde nasci, onde construí minhas raízes e onde escolhi formar minha família", destaca.
O retorno veio acompanhado de uma missão.
Enquanto muitos restaurantes buscavam referências internacionais, Eudes decidiu mostrar que a culinária caiçara merecia protagonismo.
No Taioba, pratos como azul-marinho, arroz lambe-lambe de marisco, taioba e peixe seco de varal passaram a ocupar o centro do cardápio.
"Quando abri meu restaurante, abri com um propósito: valorizar a minha origem."
A aposta parecia arriscada.
O restaurante foi inaugurado em 2015 no Sertão de Camburi, longe da orla e do circuito gastronômico mais conhecido.
Hoje, Eudes comemora o fato de ver clientes atravessando o litoral apenas para conhecer sua cozinha.
Mas diz que seu maior orgulho continua sendo outro: devolver à comunidade as oportunidades que um dia recebeu.
“Hoje tenho minha casa, um restaurante reconhecido e premiado, meu trabalho é valorizado e ainda tenho a oportunidade de gerar empregos e transformar a vida de outras pessoas.
Quando eu olho para a minha trajetória, vejo o quanto a gastronomia foi uma ferramenta de transformação.
Por isso sou tão grato à cozinha e tenho esse compromisso de devolver, através dela, oportunidades para outras pessoas".
Ao ser questionado sobre o legado que deseja deixar, ele não fala do restaurante nem dos prêmios.
"Eu prefiro inspirar e contagiar do que ser lembrado.
O que eu quero é que as pessoas desenvolvam mais consciência de que todos nós podemos fazer um pouco pelo próximo."
Chef Eudes Assis
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