Quase trinta anos depois de chegar ao comando do Palácio Guanabara pela primeira vez, o clã Garotinho busca reorganizar forças para voltar a ter protagonismo no cenário eleitoral fluminense.
Se no fim dos anos 1990 a família funcionava como um bloco monolítico nas urnas, os últimos anos foram marcados por conflitos e distanciamentos.
O atrito mais polêmico envolveu o patriarca, Anthony Garotinho, e o filho Wladimir, ex-prefeito de Campos.
A disputa pelo controle do reduto eleitoral no Norte Fluminense gerou trocas de farpas públicas, com Garotinho acusando o filho de tentar "enterrá-lo vivo" na política.
Rosinha com Wladimir
Reprodução / Instagram: Rosinha Garotinho
Mas, diante das eleições estaduais desse ano, os dois adotaram um discurso de aparente paz.
Mesmo sendo do PL, que tem candidato próprio ao governo do Rio, Wladimir declarou apoio ao pai, que tenta voltar ao governo do Estado pelo Republicanos.
O cientista político e professor da UFRJ Paulo Baía detalha como essas idas e vindas afetam a percepção do eleitorado fluminense.
"Garotinho é passado, é lembrança, é memória, ao mesmo tempo que é presença.
Ele é presença, não só nas suas andanças, ele junto com Rosinha.
E a Clarissa se afastou um pouco, está mais nas articulações, mas Wladimir surge como prefeito de Campos com bastante atuação.
Há divergências entre eles, mas são superadas e a candidatura de Garotinho ,agora ao governo do Estado, reanima essa lembrança do eleitorado Fluminense, além de conquistar uma nova presença.
Não à toa, ele está tecnicamente empatado com Douglas Ruas.
"
Enquanto o ajuste entre pai e filho tenta reorganizar a base no interior, o restante do clã segue caminhos distintos.
Depois de enfrentar condenações e inelegibilidade ao lado do marido, a ex-governadora Rosinha Garotinho se afastou dos holofotes e passou a investir em hobbies no período longe da política.
Rosinha abriu uma doceria em Campos, fez panetones em casa para vender na internet, mas as empreitadas gastronômicas duraram pouco.
No ano passado, ela se lançou como artista plástica, expondo e vendendo quadros sobre o cotidiano, com releituras de Romero Britto.
As releituras de Romero Britto.
Reprodução/ Instagram/ Rosinha Garotinho
Só que com a proximidade das eleições, Rosinha retomou velhos hábitos e lançou o programa "Rosinha pelo interior", no qual faz reuniões com empresários e lideranças locais do Norte e Noroeste fluminense.
É uma espécie de coordenação da campanha do marido nessa região, retomando uma parceria antiga do casal.
Já a filha Clarissa, que sempre atuou como uma das principais vozes da família, tenta se recalibrar politicamente.
Sem mandato depois de 2022, ela atua hoje na área de comunicação no setor privado e articula apenas nos bastidores um eventual retorno à vida pública.
Rosinha, Clarissa e Anthony Garotinho
Reprodução / Instagram: Rosinha Garotinho
Com a trégua selada, o fato de pai e filho estarem em partidos diferentes - Wladimir no PL e Garotinho no Republicanos - não deve impedir a imagem de união do clã.
Até porque o ex-governador já se provou camaleônico, migrando de legendas ao longo das décadas.
O cientista político da PUC-Rio Ricardo Ismael explica por que essa divisão partidária tem pouco peso para o eleitor.
"No Brasil, o partido não tem, assim, tanta relevância como, vamos dizer assim, outros países, né? Na França, nos Estados Unidos, né? No Reino Unido, de fato, essa questão partidária tem um peso e muitas, enfim, lideranças de política permanecem no partido durante toda a vida.
Aqui, não.
Enfim, as pessoas estão olhando mais para as características pessoais, para, enfim, o desempenho na gestão governamental, outros aspectos, a questão do partido, ela tem um peso menor.
Enfim, o próprio Garotinho também tem uma trajetória de mudança de partido ao longo da sua vida.
Agora, claro, vamos dizer, me parece que, embora existam diferenças, portanto, entre o Wladimir Garotinho, que está no PL, o Anthony Garotinho, o pai, e a Clarissa Garotinho, que está no Republicanos, eu acho que essas diferenças não são tão relevantes na hora do voto do eleitor."
O foco da família Garotinho, agora, é dialogar com um eleitorado considerado fundamental, o mais conservador, como aponta o cientista político Paulo Baía:
"A família Garotinho reflete uma visão conservadora de família, por isso eles têm penetração não só nos evangélicos, mas nos católicos e nos conservadores, sem ser religiosos.
A ideia de família que eles têm desde antes é uma ideia em sintonia com a família conservadora."
O plano de poder da família, no entanto, não para na campanha.
Segundo apuração da CBN com integrantes da campanha, Clarissa Garotinho é cotada para integrar o primeiro escalão do Palácio Guanabara e comandar uma secretaria em um eventual governo Garotinho.
Rosinha e Anthony Garotinho
Reprodução / Instagram: Rosinha Garotinho
Clã Garotinho busca unir forças para retomar protagonismo eleitoral no RJ após anos de conflitos
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