Em 1991, Claudia Ohana conquistou o Brasil como a vampira roqueira Natasha, protagonista da novela "Vamp", da TV Globo.
Trinta e cinco anos depois, a vampira acaba de ser revivida numa campanha publicitária e na novela "Eta mundo melhor!" e segue presente no imaginário do público — e da atriz.
Quase dez anos depois de "Vamp — O musical", em que Claudia e Ney Latorraca (1944-2024) reviveram no palco os icônicos Natasha e Conde Vlad, a atriz já disse em suas redes sociais que aceitaria retomar a personagem, mas desta vez num spin-off só da roqueira.
Após ‘King Kong Fran’: Rafaela Azevedo critica cristianismo em nova peça: ‘não consigo mais ignorar isso’
Arlete Salles: Aos 88 anos, atriz reflete sobre a maturidade: 'Uma coisa boa é a paz, as inquietações desaparecem'
— Acho que Natasha seria hoje uma nova mulher, do seu tempo, mais velha e menos ingênua — imagina a atriz.
— Seria incrível reviver ela.
O Antônio Calmon [autor da novela] tem falado nisso.
Ney Latorraca e Claudia Ohana na época de "Vamp: O musical", em 2017
Ana Branco/Agência O GLOBO
A reflexão condiz com a forma como Claudia pensa sobre seu próprio envelhecimento.
Aos 63 anos, ela segue acumulando projetos.
Em cartaz no Rio de Janeiro com "Festa no arraial, o musical", adaptação de Shakespeare ambientada no Nordeste brasileiro, esteve nos palcos com “As amantes de George Washington” no primeiro semestre e acaba de gravar dois longas.
— Envelhecer numa sociedade que cultua a juventude é muito difícil.
Lembro que uma semana depois de ter feito 60 anos, começaram a me perguntar, em entrevistas, como era o sexo após os 60 e se eu ia me aposentar.
Eu pensei "nossa, então ontem eu tinha 59 e estava tudo bem.
Agora que fiz 60 tenho que mudar tudo?".
Mas não tem que mudar, não.
A mulher de 60 continua viva, bonita e na ativa — afirma.
Apesar de apontar o etarismo como um dos desafios do amadurecimento, a atriz declara que a idade também a fez sentir mais confiança:
— Quando comecei, eu era muito livre, porque não tinha nada a perder.
Aí chega um momento em que você começa a ter muita coisa a perder.
Na carreira, como mulher, com namoro...
você fica com muito medo.
E depois de uma fase, quando fica realmente madura, você volta a não ter medo.
Isso é muito, muito bom.
Você sabe muito mais o que quer.
E não há pressa, porque a gente sabe que o mundo gira, que as coisas acontecem.
E as escolhas de Claudia demonstram que ela não tem medo de experimentar o diferente.
No filme recém-gravado “A grande virada”, comédia de Halder Gomes com Fernando Caruso, Estevam Nabote, Silvero Pereira e Diego Cruz, a atriz enfrentou um desafio inédito: interpretar uma dominatrix.
A preparação envolveu, entre outros aprendizados, descobrir como manejar um chicote.
Claudia Ohana como dominatrix em comédia de Halder Gomes
Ricardo Augusto
— No começo, pensava que não tinha nada a ver com esse mundo sadomasoquista.
Mas depois que botei a roupa, falei: “Nossa, eu tenho tudo a ver com isso”.
Acho engraçado como ainda sou convidada para personagens assim, exóticos, fortes.
Não está tão longe de Natasha, que também é gótica.
E fazer um personagem erótico, uma dominatrix, com 63 anos, acho muito legal — diz.
Se no cinema Claudia desbravou o erotismo sombrio, nos palcos seu ambiente tem sido bem mais colorido.
No musical que estrela no Rio, baseado em "Sonho de uma noite de verão", o mundo místico do clássico shakespeariano se mistura com a alegria das festas de São João brasileiras.
O resultado é um espetáculo bem-humorado e para toda a família.
Sob direção de Thereza Falcão, que assina o texto com Mariana Mesquita, a atriz interpreta a grande vilã da história, Tânia Flores, que tenta atrapalhar os planos de matrimônio do casal de mocinhos.
Mas Claudia garante que essa é uma antagonista nada tradicional.
Claudia Ohana caracterizada para a peça "Festa no arraial, o musical"
João Pedro Hachiya
— Ela é uma vilã cômica, num espetáculo lúdico.
Canto “Espumas ao vento” [de Fagner] e teve um dia em que as pessoas cantaram junto.
Foi tão lindo — conta.
E, entre personagens que gostaria de reviver e outras que ainda sonha interpretar, Claudia já olha para o próximo ano.
— Tenho vontade de fazer "Um bonde chamado desejo" [de Tennessee Williams], que tem a maravilhosa Blanche DuBois, e "A megera domada" [de Shakespeare].
E estou com um projeto pessoal que não vale a pena falar, porque, quando não está concreto, a gente não fala.
Já estou pensando no ano que vem — adianta.
